O que são os 'therians', movimento que Tigresa do Oriente' afirma ser percursora

Um fenômeno que mistura identidade, comportamento e cultura digital tem ganhado espaço nas redes sociais e chamado atenção em diferentes países: os chamados “therians”. O termo voltou ao centro do debate após a cantora peruana Tigresa do Oriente declarar ser a “primeira therian da história”, reacendendo discussões sobre o significado do conceito. Therian: Especialista explica por que 'há sofrimento' por trás do fenômeno viral Fenômeno 'therian': Especialistas analisam se é uma moda passageira ou nova forma de busca por identidade Os therians são pessoas que se identificam, de forma parcial, como animais. Diferentemente dos chamados “furries” — que se fantasiam ou fazem cosplay de criaturas antropomórficas —, os integrantes desse grupo afirmam sentir uma conexão mais profunda com determinadas espécies, que pode se refletir em comportamento, percepção corporal e identidade. A prática pode se manifestar de diversas formas. Há relatos de pessoas que se comportam como animais em encontros coletivos, interagindo entre si, correndo, brincando e até imitando sons como latidos. Em alguns casos, esse comportamento se estende ao cotidiano, com indivíduos que relatam andar sobre quatro membros ou sentir partes do corpo inexistentes, como caudas e orelhas. O conceito moderno surgiu nos anos 1990, dentro de comunidades online. Inicialmente ligado ao termo “otherkin” — usado para descrever pessoas que se identificavam como seres não humanos, como elfos —, evoluiu para “therian”, voltado especificamente à identificação com animais. A palavra tem origem no grego “ther” (besta selvagem) e “anthropos” (ser humano). Segundo comunidades dedicadas ao tema, a chamada “teriantropia” não é considerada uma escolha consciente. Integrantes afirmam não poder definir seu “teriótipo” — isto é, a espécie com a qual se identificam. A maioria relata que essa percepção surge ainda na infância. Os casos mais comuns envolvem mamíferos, como cães, gatos e raposas, embora existam relatos de identificação com animais extintos ou até criaturas fictícias. Movimento Therian cresceu mundialmente Instagram/@foxcor_ Apesar da expansão do fenômeno, ainda não há consenso científico sobre suas causas ou classificações. Estudos citados por publicações internacionais indicam que não há evidências de maior incidência de transtornos mentais entre therians ou furries em comparação com a população geral. Especialistas, por ora, evitam enquadrar o comportamento como patologia, tratando-o como uma forma de expressão identitária que, na maioria dos casos, não implica prejuízo social. A ideia de humanos com características animais, no entanto, não é nova. Narrativas mitológicas e crenças ancestrais já retratavam figuras híbridas, sugerindo que o imaginário por trás do conceito atravessa séculos — ainda que o formato atual tenha sido impulsionado pela internet. Declaração reacende debate O tema voltou à tona após a declaração da Tigresa do Oriente, que reivindicou protagonismo no movimento. — Admito, meus tigrinhos, eu sou a primeira therian — afirmou a artista em um vídeo publicado nas redes sociais. Tigresa do Oriente tem 80 anos e se proclama "rainha dos Therians" Reprodução | Instagram @tigresadeloriente Na publicação, ela associou sua estética e persona artística — marcada por figurinos inspirados em tigres — à ideia de identificação animal. A fala repercutiu entre seguidores, que classificaram a cantora como “visionária” e “à frente do seu tempo”. Trajetória artística e reinvenção Nascida no Peru, Judith Bustos construiu uma carreira marcada por reinvenções. Antes da fama, trabalhou como maquiadora e caracterizadora na televisão, colaborando com artistas locais. A partir dos anos 2000, ganhou notoriedade como cantora, especialmente após o sucesso de vídeos musicais na internet. Com o tempo, consolidou uma imagem extravagante e performática, que a transformou em fenômeno digital. Participações em programas internacionais e músicas virais ampliaram seu alcance, especialmente entre o público jovem. A Tigresa do Oriente e uma turnê como DJ sendo a “rainha dos therians" Reprodução | Instagram @tigresadeloriente Durante a pandemia de Covid-19, a artista voltou aos holofotes ao investir em plataformas digitais e redes sociais. Hoje, segue ativa, explorando novas frentes artísticas e mantendo uma base fiel de seguidores. Ao se autodeclarar parte do universo therian, a cantora contribui para ampliar a visibilidade de um fenômeno ainda pouco compreendido — e que, impulsionado pelas redes, deve continuar gerando debate sobre identidade e comportamento contemporâneo.