Investigadores falam em 'provas contundentes' para prisão de tenente-coronel por morte de esposa; caso segue sob segredo de justiça

Técnicos e responsáveis pela investigação da morte da soldado da PM Gisele Alves Santana, encontrada baleada no apartamento onde morava, no Brás, região central de São Paulo, afirmam que há provas “contundentes” para justificar a prisão do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, marido da vítima. Sem detalhar os elementos reunidos até agora, devido ao segredo de Justiça, as autoridades solicitaram a prisão preventiva do oficial. Neto foi preso na manhã desta terça-feira em São José dos Campos, no interior paulista. Segundo o secretário de Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, o tenente-coronel se entregou sem resistência. O mandado que decretou a prisão de Neto l foi expedido pela Justiça Militar na terça (17) na esteira de um pedido da Corregedoria da PM de São Paulo. Há ainda um outro pedido de prisão contra ele, este da Polícia Civil e endereçado à Justiça de São Paulo, que segue pendente de decisão. A investigação segue em andamento, e um dos laudos periciais ainda aguardados deve esclarecer o responsável pela origem das marcas encontradas no pescoço da policial. Sobre as suspeitas de fraude processual e alteração da cena do crime, os investigadores disseram que não podem divulgar detalhes por causa do caráter sigiloso do inquérito. Um dos pontos que ainda geram questionamentos é a limpeza do apartamento do oficial, realizada por três policiais militares horas após a ocorrência. De acordo com o corregedor da PM, coronel Alex dos Reis, a iniciativa foi motivada por “humanidade”. — Os policiais que estiveram lá para fazer essa limpeza agiram por uma questão de humanidade. No primeiro momento, a informação era de suicídio. A polícia já tinha passado pelo local e liberado o apartamento — afirmou o corregedor, que não considerou a medida um desvio de conduta nem avaliou que a limpeza tenha prejudicado as investigações. O caso foi registrado inicialmente como suicídio, mas passou a ser tratado como morte suspeita após o surgimento de contradições no testemunho do oficial. Familiares relataram à polícia que o relacionamento do casal era conturbado. Em depoimento, a mãe de Gisele disse que a filha era proibida pelo marido de usar batom, salto alto e perfume. Mensagens apresentadas pela defesa da família indicam que a soldado temia as crises de ciúmes do oficial. “Qualquer hora ele me mata”, escreveu a policial a uma amiga, segundo os advogados. A decisão de aprofundar a investigação ocorreu após um laudo necroscópico, feito depois da exumação do corpo, apontar lesões no rosto e no pescoço da vítima. Peritos avaliam que Gisele pode ter desmaiado antes de ser baleada na cabeça e que não apresentou sinais de defesa. Em depoimento, o tenente-coronel afirmou que, naquele dia, acordou por volta das 7h e foi até o quarto onde Gisele dormia. Segundo ele, os dois vinham passando as noites separados havia cerca de oito meses. — Eu falei para ela: “Depois daquela conversa que tivemos ontem, acho melhor a gente se separar”. Ela levantou exaltada, me empurrou para fora do quarto e bateu a porta com muita força — disse. Ele relatou que foi tomar banho e, enquanto estava no banheiro, ouviu um disparo. Ao sair, afirmou ter encontrado a mulher caída no chão, com uma poça de sangue ao redor da cabeça. — Coloquei uma bermuda, peguei o celular e abri a porta do apartamento. Quis deixar tudo aberto para dar transparência. Liguei primeiro para os bombeiros, depois para o Samu e depois para a polícia — declarou. Uma vizinha, porém, contou à polícia que acordou às 7h28 após ouvir um único estampido forte vindo do apartamento. Segundo registros telefônicos, a primeira ligação do oficial foi para a Polícia Militar, às 7h57. Ele telefonou para o Corpo de Bombeiros às 8h05, e as equipes chegaram ao local às 8h13. Questionado sobre a divergência, o tenente-coronel disse não saber se a vizinha “estava sonolenta e viu o horário errado”. — Você acredita no que ela fala ou no que eu estou falando? Não tenho por que mentir. Não sei se ela estava sonolenta. Não posso falar pelas outras pessoas. Posso falar por mim — afirmou, em entrevista ao apresentador Eleandro Passaia, do programa Balanço Geral, da TV Record. Suspeitas Socorristas que atenderam a ocorrência disseram que conseguiram reanimar a policial ainda no apartamento. Segundo eles, o marido permaneceu ao telefone com superiores durante o atendimento e não demonstrava desespero. Um dos socorristas afirmou ter estranhado a posição da arma e decidiu fotografar a cena. De acordo com o relato, o revólver estava encaixado na mão de Gisele de forma incomum para casos de suicídio. Outros elementos também chamaram a atenção dos investigadores. O sangue já estaria coagulado e o cartucho não foi localizado. Embora o tenente-coronel tenha dito que estava no banho no momento do disparo, ele estaria seco e não havia água no chão. Às 8h55, Gisele foi retirada do prédio ainda com vida, em uma maca. O oficial aparece sentado no corredor. Testemunhas relataram que, nesse intervalo, ele teria tomado banho, mesmo após orientação para que não o fizesse. Policiais que participaram da ocorrência também disseram que o tenente-coronel voltou com forte cheiro de produto químico. Na entrevista à TV Record, ele afirmou que a morte da mulher fez sua pressão arterial subir e que alguém teria sugerido que tomasse um banho quente. Limpeza do apartamento Segundo testemunhas, três policiais militares foram ao imóvel horas depois para limpar o local, o que pode ter comprometido a preservação da cena. De acordo com apuração do g1, as agentes chegaram ao prédio às 17h48 do dia 18 de fevereiro, mesmo dia em que Gisele foi baleada, e entraram no apartamento acompanhadas por uma funcionária do edifício. O tenente-coronel afirmou que o imóvel já estava liberado pela perícia e que a limpeza foi determinada por um superior para evitar que a família da policial encontrasse o local sujo ao retirar os pertences. — O meu comandante, pensando no bem-estar dos pais dela, pediu que fossem lá fazer a limpeza — disse.