Irã alerta o Golfo sobre violenta retaliação após ataque a campo de gás compartilhado com o Catar

O Exército iraniano prometeu atacar a infraestrutura energética do Golfo após o ataque israelense a um de seus principais campos de gás, South Pars-North Dome, informou a televisão estatal nesta quarta-feira. O comando operacional Khatam al-Anbiya afirmou em comunicado que "atacará seriamente a origem da agressão e considerará atingir a infraestrutura de combustível, energia e gás" dos países de onde os ataques foram lançados. Segundo analistas, o país ainda pode intensificar drasticamente sua campanha contra a infraestrutura energética na região. Arrastados para a guerra: Países do Golfo veem em xeque confiabilidade da proteção dos EUA Entenda em 5 pontos: Por que é tão difícil reabrir o Estreito de Ormuz, rota vital para o transporte global de 20% do petróleo? O Irã acusa as monarquias árabes do Golfo de permitir que as forças americanas usem seu território e/ou espaço aéreo. A televisão estatal iraniana publicou uma lista de "alvos legítimos", incluindo instalações de petróleo e gás na Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos, afirmando que "serão atingidas nas próximas horas". Israel realizou o ataque a South Pars, afirmou um alto funcionário do país, que pediu para não ser identificado por se tratar de um assunto delicado. O Iraque relatou uma interrupção na geração de energia após o Irã suspender o fornecimento de gás, o exemplo mais recente de outros países do Oriente Médio envolvidos no conflito que já dura 19 dias. A maior parte da energia que o Irã obtém de South Pars é usada internamente, portanto, qualquer interrupção significativa intensificaria a pressão que a campanha de bombardeio dos EUA e de Israel exerce sobre a economia iraniana e a vida cotidiana no país. A instalação é compartilhada com o Catar, que reagiu ao ataque. O ataque de Israel ao campo "é uma medida perigosa e irresponsável", disse Majed al-Ansari, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Catar, em uma publicação no X. Os Emirados Árabes Unidos também condenaram o ataque de quarta-feira, afirmando que "atacar instalações de energia ligadas ao campo de gás de South Pars, na República Islâmica do Irã (...) constitui uma escalada perigosa", disse o Ministério das Relações Exteriores em um comunicado. "Atacar infraestruturas energéticas representa uma ameaça direta à segurança energética global... Também acarreta sérias repercussões ambientais e expõe civis, a segurança marítima e instalações civis e industriais vitais a riscos diretos". O alerta do Irã aos países do Golfo ocorreu dois dias depois de o país ter incendiado um enorme campo de gás natural nos Emirados Árabes Unidos, intensificando os ataques a importantes instalações de energia. Anwar Gargash, um dos principais assessores do presidente dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Mohamed bin Zayed, afirmou que o Irã calculou mal ao atacar países árabes. Os ataques os aproximarão ainda mais de Israel e dos Estados Unidos, demonstrando, ao mesmo tempo, por que a região não pode aceitar os programas nucleares e de mísseis iranianos, disse ele. O Irã realizou seu primeiro ataque confirmado a instalações de petróleo e gás ao atingir o campo de Shah, em Abu Dhabi, na segunda-feira, sinalizando capacidade de prolongar a instabilidade nos mercados globais e manter o petróleo acima de US$ 100 (R$ 520) o barril. O país também também atacou os campos de Shaybah e Berri, na Arábia Saudita, nos últimos dias. Desde o início da guerra, segundo o jornal americano Financial Times, o país atingiu ao menos 20 embarcações no Golfo e conseguiu dificultar a passagem de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, rota-chave para exportações de energia. — Ainda há um longo caminho a percorrer em termos da capacidade deles de ameaçar os estados do Golfo — disse Danny Citrinowicz, especialista em Irã e pesquisador sênior do Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Tel Aviv, ao FT. Guerra no Oriente Médio: Fechamento de Ormuz é a maior derrota de Trump Saul Kavonic, analista da MST Financial, afirmou ao FT que o Irã também pode ampliar os danos ao setor energético ao atingir grandes campos ou instalações de gás natural liquefeito. Segundo Kavonic, "retirar milhões de barris da produção teria impacto mais duradouro", pois impediria a recomposição de estoques mesmo após a guerra. O pior cenário, destacou, seria um ataque a uma planta de gás natural, já que a reposição de equipamentos poderia levar anos. — Os iranianos estão agora atingindo uma lista crescente de alvos nos estados do Golfo e essa estratégia pode ter novos desdobramentos. O planejamento, os cenários e os preparativos tendem a se concentrar nos primeiros dias e semanas. À medida que avançamos para além desse período, pode ficar cada vez mais difícil prever como será o comportamento do Irã — disse Richard Bronze, chefe de geopolítica da consultoria Energy Aspects, ao FT. Alta nos preços O petróleo Brent disparou após o alerta do Irã, subindo até 6%, para mais de US$ 109 (R$ 567) o barril. O preço do gás natural na Europa subiu até 9,1%, segundo dados da ICE Futures Europe. Os preços do petróleo subiram cerca de 50% desde que os EUA e Israel iniciaram a guerra em 28 de fevereiro, provocando uma resposta iraniana com o lançamento de mísseis e drones contra países do Oriente Médio. As gigantescas empresas de energia da região foram forçadas a reduzir a produção em resposta, principalmente devido ao fechamento efetivo do crucial Estreito de Ormuz. O presidente dos EUA, Donald Trump — que tem reclamado repetidamente da falta de interesse de aliados em se juntarem à guerra ou em ajudarem a garantir a segurança de Ormuz — disse nas redes sociais nesta quarta-feira que outros países, além dos EUA, deveriam assumir a responsabilidade pela hidrovia. "Os aliados dos EUA precisam tomar as rédeas da situação, intensificar os esforços e ajudar a abrir o Estreito de Ormuz", disse ele. Trump suspendeu temporariamente uma lei de transporte marítimo centenária para reduzir o custo do transporte de petróleo, gás e outras commodities nos EUA, em sua mais recente tentativa de combater o aumento dos preços da energia. 'Não há onde se esconder': Sem rota de fuga, marinheiros relatam falta de comunicação e suprimentos no Golfo Pérsico Enquanto isso, o Irã tem transportado seu próprio petróleo pelo estreito em níveis próximos aos anteriores à guerra. O carregamento de petróleo bruto na Ilha de Kharg também parece continuar sem interrupções, apesar dos ataques dos EUA ao centro de exportação. — Precisamos elaborar novas regras para o Estreito de Ormuz e para a forma como os navios o atravessarão no futuro — disse o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, à rede catari al-Jazeera. — [As regras devem] garantir que a passagem segura pelo estreito ocorra sob condições específicas. Retaliação O Irã lançou novas ondas de mísseis e drones contra os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita e o Kuwait na manhã desta quarta-feira, após confirmar o assassinato de seu chefe de segurança, Ali Larijani. O país também atingiu Tel Aviv, matando duas pessoas. Israel e os Estados Unidos mantiveram seus bombardeios contra o Irã. Guga Chacra: Assassinato de Larijani pode radicalizar ainda mais o Irã As Forças Armadas de Teerã juraram vingar a morte de Larijani, assim como a de Gholamreza Soleimani, chefe da unidade paramilitar Basij, responsável pela segurança interna do Irã. O ministro da Inteligência iraniano, Esmaeil Khatib, também foi assassinado. Com Bloomberg e AFP.