Será que os dispositivos de monitoramento da saúde estão nos deixando mais ansiosos?

Minhas manhãs já não parecem mais minhas. Elas pertencem, em vez disso, ao meu anel da Oura e ao meu relógio da Garmin, prenúncios de alegria ou desânimo dependendo do que os círculos coloridos e as pontuações revelam sobre minha saúde e bem-estar geral ao acordar. Um círculo verde inspira alívio, enquanto o amarelo provoca uma leve ansiedade. Um círculo vermelho pode comprometer o meu dia inteiro. Verifico minhas métricas antes mesmo de escovar os dentes, acompanhando tendências ao longo de semanas, meses e anos. À medida que o dia avança, se o meu dispositivo me informa que atingi minha contagem ideal de passos, sinto uma breve, porém gloriosa, descarga de adrenalina. Neste momento, em 2026, cerca de 52% dos adultos britânicos usam algum dispositivo para monitorar sono, exercício físico e recuperação. Talvez usem anéis de marcas como Oura e UltraHuman, ou um relógio inteligente ou uma pulseira sem tela – todos prometendo acompanhar seu movimento diário, qualidade do sono, variações de temperatura, ciclos menstruais e muito mais. É de se surpreender, então, que mais de um terço dos adultos britânicos agora relatem sofrer de cibercondria, uma ansiedade ligada à saúde, crescente e sorrateira, desencadeada justamente por esse tipo de monitoramento constante? Ou que um em cada quatro dos entrevistados admita que já não passa um dia sequer sem registrar dados? Como os dispositivos de monitoramento causam ansiedade A tecnologia de bem-estar é sedutora – ela promete otimização, intervenção precoce e a segurança de que você está “no caminho certo”. Mas o acesso constante a esse volume de dados mudou sutilmente a forma como nos relacionamos com o nosso próprio corpo. Variações normais podem disparar sinais de alerta, e a sensação de consciência pode facilmente se transformar em hipervigilância. Como hipocondríaca, eu mesma sei o quanto uma curiosidade inocente pode virar compulsão. “A tecnologia em si não é o problema, mas sim a forma como ela é usada”, explica Katie D’ath, terapeuta cognitivo-comportamental especializada em TOC. “Também tem a ver com a maneira como os dados são interpretados e como se reage a eles. Em alguns casos, isso pode criar um ciclo vicioso: um alerta desencadeia ansiedade, que leva à checagem, a um alívio temporário… e depois a mais checagens dos dispositivos.” Para quem tem tendência a cair em ciclos compulsivos, checar regularmente os dados de saúde não acalma a mente – pelo contrário, a torna mais sensível. Mesmo em pessoas sem TOC, esse tipo de padrão pode surgir. O alívio de uma pontuação “boa” ou de um círculo verde pode ser passageiro, desaparecendo rapidamente à medida que surge um novo impulso de verificar outra coisa. Ironicamente, os alertas, pontuações e sinais que prometem clareza podem, na verdade, alimentar as preocupações que deveriam aliviar. Quais dados acompanhar, segundo uma médica De acordo com a médica Raj Arora, alguns indicadores valem a atenção. Porém, ela ressalta que, para a saúde a longo prazo, o que importa são as tendências dos dados, e não as variações diárias. A especialista recomenda considerar o acompanhamento de: Frequência cardíaca Passos Níveis de atividade física Padrões de sono Variabilidade da frequência cardíaca (VFC) Frequência respiratória Todos esses dados são úteis para identificar padrões, orientar a recuperação ou alertar para possíveis problemas de saúde. Menos importantes, ela alerta, são “estimativas de gasto calórico, métricas de composição corporal, medições de estresse e índices de prontidão”, já que muitas vezes podem gerar ansiedade sem trazer grandes melhorias nos resultados. “Monitorar obsessivamente a qualidade do sono ou a saúde do coração pode criar uma pressão por desempenho que, paradoxalmente, torna mais difícil alcançar os resultados que você busca”, destaca Arora. O conselho dela? Simplificar. Em vez de monitorar os dados o tempo todo, ela sugere se fazer algumas perguntas básicas: eu me sinto descansado? Estou pronto para sair da cama? Em vez de analisar cada noite isoladamente, ela recomenda dar um passo atrás e observar a semana como um todo – além de aplicar um pouco de lógica aos fatores que podem ter influenciado como ela se desenrolou. O progresso, observa a médica, costuma ser subjetivo. Os mesmos princípios se aplicam à saúde do coração – as melhorias muitas vezes são percebidas antes de serem medidas (subir escadas sem ficar ofegante, tarefas do dia a dia parecerem mais fáceis, conseguir carregar bolsas pesadas e se recuperar mais rápido). Sinais do mundo real, segundo ela, costumam ser mais confiáveis – além de gerarem muito menos ansiedade. Como fazer uma pausa nos dispositivos de monitoramento “Parar de uma vez só muitas vezes dá errado, porque interromper um ciclo de hábitos pode ser genuinamente desconfortável”, diz a cientista comportamental India Lesser. “É um tipo de abstinência que o nosso cérebro interpreta como uma perda.” Veja como uma pausa, não um rompimento O conselho dela é começar com uma pausa de duas semanas e não um rompimento definitivo. Essa mudança de perspectiva pode reduzir a pressão e tornar a a nova rotina mais possível. Depois disso, se decidir voltar a usar o dispositivo, a ideia é redesenhar a forma como você se relaciona com ele. Limite o que você monitora “Você pode tentar desligar notificações, ocultar certos dados ou tirar o dispositivo durante partes específicas do dia”, sugere Lesser. Na visão da médica, o ideal é inserir pausas suficientes para refletir sobre como você está se sentindo, e não apenas sobre suas pontuações. Com o tempo, você aprende a confiar mais nos sinais do próprio corpo, como saber se é hora de se movimentar, alongar ou descansar. Vá para o analógico Se você estiver em busca de um objetivo, como melhorar o condicionamento físico ou aumentar a ingestão de água, tente registrar seus dados em um diário. A ideia não é abandonar completamente a tecnologia, mas parar de confundir números com intuição, e lembrar que consistência não precisa de um placar. Como se manter “no caminho certo” sem o monitoraa “O que nos mantém consistentes não são os dados, mas sim os hábitos, a motivação baseada na identidade e o feedback”, explica Lesser. “Os dispositivos vestíveis funcionam porque recompensam, dão pequenos estímulos e nos mantêm engajados.” Esses mecanismos, segundo ela, podem ser recriados sem a hipervigilância de um monitoramento constante. Em vez de se fixar em alcançar um conjunto perfeito de métricas, ela sugere fazer perguntas sobre o seu dia: como se você se movimentou de uma forma que te fez bem, se conseguiu consumir uma boa variedade de frutas e vegetais ou se dormiu bem. Esses pequenos hábitos, com o tempo, se somam e levam a mudanças duradouras – com ou sem um relógio para te avisar disso. Esta matéria foi originalmente publicada na Vogue US.