Deputada se pinta e ironiza Erika Hilton à frente de Comissão da Mulher: 'Posso presidir comissão sobre racismo?'

A deputada estadual Fabiana Bolsonaro (PL -SP) pintou o rosto e os braços na tarde desta quarta-feira, na sessão ordinária da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), segundo ela, em protesto contra o fato de Erika Hilton, deputada federal (PSOL-SP), ter sido escolhida presidente da Comissão da Mulher da Câmara dos Deputados sendo uma mulher trans. A parlamentar argumentou que "maquiar-se" ou "travestir-se" como uma pessoa negra não muda o fato de que ela é branca. 'Vício de linguagem': microfone capta deputado estadual comemorando vitória em licitação do governo do Mato Grosso: 'Uma é minha' Pressão por domiciliar: grupo de 178 deputados da oposição e do Centrão envia pedido ao STF para que Bolsonaro seja colocado em prisão domiciliar — Eu sendo uma pessoa branca, vivendo tudo o que vivi como uma pessoa branca, agora, aos 32 anos, decido me maquiar, me travestir como uma pessoa negra. Eu pergunto: "E agora, eu virei negra?". Eu, me pintando de negra, sinto na pele a dor que uma pessoa negra sentiu pelo racismo? Eu estou pintada de negra, eu me reconheço como negra, por que eu não posso presidir a comissão sobre racismo? Por que eu não posso defender isso? Sabe por que eu não posso cuidar dessa pauta? Porque eu não sou negra, eu não sei as dores, na essência, que essas pessoas tiveram — disse Fabiana, enquanto espalhava base de tom escuro pelo corpo. Colegas parlamentares que estavam na Alesp a acusaram de racismo e transfobia. Mas a deputada paulista alegou que essa foi "uma forma didática" de explicar por que Erika Hilton não poderia estar à frente da Comissão da Mulher da Câmara dos Deputados. — A gente viu nesta semana, em Brasília, que uma mulher trans, a Erika Hilton, foi colocada como presidente da Comissão da Mulher. Isso me entristece muito porque está tirando o espaço de fala de uma mulher.Transexual tem que ser respeitado sim, eu não quero que nenhum trans seja assassinado por ser trans, mas também não quero que nenhum trans tire o meu lugar. Não é o meu lugar de fala? Eu sou mulher. Por que tão tentando tirar o espaço feminino? — continuou Fabiana Bolsonaro, que adotou o sobrenome por identificação ideológica, mesmo sem parentesco com a família. A performance de Fabiana foi interrompida pela deputada Mônica Seixas (PSOL-SP), que pediu ordem na sessão e acusou Fabiana de estar cometendo um crime: — "Blackface" (prática em que uma pessoa branca se pinta de negra) e racismo são crimes, deputada. Transfobia também é crime. É um caso de polícia — afirmou Mônica. A deputada Ediane Maria, também do PSOL, afirmou que o ato de Fabiana foi "racismo televisionado" e que presenciou "uma mulher branca, que raramente aparece no plenário, para falar a favor das mulheres, se pintando de preto para atacar a Erika Hilton". A parlamentar disse ter denunciado Fabiana Bolsonaro por racismo ao Ministério Público de São Paulo. Erika Hilton compartilhou, em sua conta no X, o post em que Ediane anuncia a denúncia. A lei 7716/1989 condena crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal passou a enquadrar atos de homofobia e transfobia na Lei do Racismo, de forma que as práticas são equiparadas. *Estagiária sob supervisão de Daniela Dariano