BC reduz Selic para 14,75%, mas prega cautela em próximos passos diante de guerra no Oriente Médio

O Banco Central seguiu o plano anunciado em janeiro e reduziu a taxa Selic pela primeira vez em nove meses, nesta quarta-feira. Em meio às incertezas geradas pela guerra no Oriente Médio, o Comitê de Política Monetária (Copom) optou por dar o pontapé inicial com um corte de 0,25 ponto percentual, de 15% para 14,75% ao ano. O BC também optou por não dar nenhuma sinalização direta para os passos futuros do "processo de calibração" dos juros. "No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo." Mesmo com a redução, a taxa continua sendo um recorde em quase 20 anos. Antes do recuo, era o maior patamar desde julho de 2006. Agora, é o nível mais elevado desde agosto do mesmo ano. Os juros altos vêm sendo alvo de críticas de autoridades e de empresários, que argumentam que a dose é exagerada frente à inflação medida pelo IPCA de 3,81% em 12 meses até fevereiro. Os impactos do conflito, especialmente referentes ao petróleo, embaralharam um pouco as estimativas do mercado financeiro nas semanas que antecederam o Copom. Houve uma migração de parte do mercado para uma aposta de corte mais tímido devido a potenciais efeitos na inflação doméstica. De acordo com pesquisa do Valor Pro, 53 instituições esperavam queda de 0,25pp, contra 49 que projetavam redução de 0,50pp, para 14,50%. Uma casa previa a manutenção em 15%. No último encontro, em janeiro, o BC havia se comprometido com o início do alívio nos juros diante de um dados mais favoráveis à convergência de inflação à meta tanto de atividade quanto do IPCA, embora o mercado de trabalho ainda seja alvo de preocupação. Mas, mesmo antes da guerra, já tinha pregado cautela nos movimentos diante de um cenário marcado por "elevada incerteza". "Em ambiente de inflação menor e transmissão da política monetária mais evidentes, a estratégia envolve calibração do nível de juros. O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta", disse o Copom em janeiro. "O compromisso com a meta impõe serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo, que dependerão da evolução de fatores que permitam maior confiança no atingimento da meta para a inflação no horizonte relevante para a condução da política monetária", completou. O ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã deflagrou um conflito que afeta de maneira relevante o mercado global de petróleo e pode provocar choques de oferta em outros setores. O barril de petróleo saiu do patamar de US$ 70 e chegou a encostar em US$ 120 por causa da guerra. O aumento da commodity tem efeito direto na inflação doméstica, especialmente devido ao preço da gasolina – combustível que não foi contemplado nas medidas do governo federal para atenuar os impactos da guerra para os brasileiros. Essa mudança de preços relativos, no entanto, não costuma ser alvo de ações da política monetária, que não tem o condão de mudar o mercado internacional. Mas a alta de combustíveis se espalhar para outros preços da economia e contaminar expectativas, o chamado efeito secundário, o que pode demandar uma reação do BC. Nesta semana, a projeção para o IPCA de 2026 na pesquisa Focus voltou a subir após nove semanas e deu logo um salto de 3,91% para 4,10%. No último Copom, estava em 4,0%. Para 2027, por enquanto, a estimativa foi mantida em 3,8%. O alvo perseguido pelo BC é de 3,0%, com margem de tolerância de até 4,5%. O colegiado que define a Selic calibra a taxa de acordo com as projeções para a inflação em um horizonte de 18 meses dada o tempo em que demora para que os juros façam efeito na economia real. Neste momento, esse prazo aponta para o terceiro trimestre de 2027.