Paulo Vilhena volta ao teatro após seis anos e celebra: "É o olhar com olhar"

Há coisas que a televisão, o cinema e o streaming não conseguem dar a um ator. A respiração da plateia. O suor que pinga na primeira fileira. O silêncio antes da risada. Paulo Vilhena sabe disso e depois de seis anos longe dos palcos, foi exatamente esse chamado que o trouxe de volta. O pretexto foi uma conversa com o produtor Sandro Chaim sobre um projeto pessoal, um texto sobre paternidade que Vilhena ainda quer levar ao teatro. O que surgiu dessa reunião, no entanto, foi outro: Qualquer Gato Vira-Lata Tem Uma Vida Sexual Mais Sadia que a Nossa!, o clássico de Juca de Oliveira que está em cartaz desde 6 de março no Teatro das Artes, em São Paulo, com temporada até 31 de maio. "Meio que a gente se escolheu, o projeto e eu", diz ele à Vogue Brasil. Dirigida por Alexandre Reinecke, a montagem reúne Vilhena, Duda Reis e Vittor Fernando na história de Tati, abandonada pelo namorado Marcelo e enredada com Conrado, um professor que tenta decifrar o amor através de teorias evolucionistas inspiradas em Darwin. Triângulo amoroso, aulas absurdas, confusões em cascata. Lançada originalmente em 1998, a peça atravessou gerações sem perder a capacidade de lotar teatros. Para Vilhena, a explicação é simples e antiga: "É uma peça que fala do clássico do humano — o amor, as dores e as delícias, as dificuldades de se encontrar numa relação. É algo que todo mundo, se não passou, vai passar, ou tá passando, ou já passou e se identifica." Uma obra que abrange, segundo ele, desde o adolescente de 15 anos até o casal da melhor idade que olha para a própria história e dá risada. Selecionar uma imagem A premissa científica (usar Darwin para explicar o desejo) funciona porque parte de uma impossibilidade. "O amor é algo inexplicável, e a gente como humano vai tentando explicar racionalmente, fisicamente, teologicamente, astrologicamente", diz Vilhena. "A peça traz essa tentativa através da teoria evolucionista, mas é isso que traz a confusão, a graça - uma maneira dentro de tantas outras de explicar o amor, mas que não se conclui efetivamente, e sim diverte. Talvez confunda mais as nossas cabeças efetivamente." A ciência, aqui, não resolve. Embaralha. Sobre os relacionamentos terem ficado mais complicados desde que o texto foi escrito, Vilhena pondera com cuidado. "Muita coisa mudou, a maneira de abordar, as palavras. Mas acho que os relacionamentos continuam difíceis. Os relacionamentos sempre serão difíceis." E é exatamente aí que a peça encontra sua mecânica: "Pessoas que têm o mesmo objetivo, mas que talvez não estejam na mesma sintonia. Tentativa e erro, tentativa e erro, tentativa e erro, e talvez acerte um pouco - é o que traz a comédia, é o que dá graça ao texto."Dividir o palco com Duda Reis e Vittor Fernando, atores de gerações distintas, acrescenta uma camada que não é só cênica. "A arte está muito nesse lugar da escuta, da generosidade em se agregar, em se potencializar", reflete Vilhena. A diferença de idade entre os três, longe de ser apenas circunstancial, comunica com plateias igualmente diversas e o ator faz questão de reconhecer os parceiros: "Eles estão arrasando." O teatro de comédia, no entanto, impõe suas próprias exigências. Na televisão ou no cinema, a montagem absorve o erro, ajusta o timing, dosa a pausa. No palco, o riso acontece, ou não, ali, naquele instante, sem margem para correção. "É uma tensão full-time", admite Vilhena. "A gente tem que estar atento para conduzir a plateia a poder ter esse tempo de risada, dessa explosão que acontece, e a gente ter a nossa respiração em acordo com a risada do público - esse tempo que às vezes se dilata um pouco mais, para chamar na sequência e continuar dando andamento à peça." Um estado de atenção permanente que, para ele, é também onde mora a maior diversão de atuar. É essa imediatez que faz Vilhena definir o teatro como "a casa do ator", o único lugar onde não há tela entre o trabalho e quem o recebe. "É o olhar com olhar, é a respiração com a respiração, é o suor ali às vezes pingando na fileira número um, que dá muito mais verdade e vida para o que a gente está fazendo." E vai mais fundo: "Como diria meu amigo Eri Johnson, é onde a gente se sente mais perto de Deus, porque é o nosso ofício, é a nossa maior paixão." Depois de seis anos, o palco recebe de volta alguém que ainda tem outros projetos guardados para ele, incluindo aquele texto sobre paternidade que estava na pauta antes de tudo isso começar. Paulinho Vilhena Divulgação/ Jofí Herrera Confira o bate-papo abaixo: Vogue: Você volta ao teatro depois de alguns anos afastado justamente em uma comédia romântica tão conhecida do público. O que te motivou a escolher esse projeto para esse reencontro com os palcos? Paulo Vilhena: Na verdade, esse projeto ele meio que aconteceu como uma surpresa. Eu fui conversar com o Sandro Chaim a respeito de outras ideias, um texto que eu tenho em mente para o teatro também, sobre paternidade, e ele me falou sobre essa trilogia que ele vai fazer esse ano do Juca de Oliveira. E o Qualquer Gato estava inserido no meio. É uma peça que eu conheço de anos e sei do sucesso que foi. E senti uma vontade, um chamado, de voltar ali para uma comédia, um texto mais leve, que fale com o público de uma forma a entreter e comunicar de uma forma mais leve. Acho que isso que estava me chamando para esse momento. E, obviamente, um clássico — o Juca é um dramaturgo e ator que eu admiro muito. Meio que a gente se escolheu, o projeto e eu, a gente se encontrou. Vogue: Essa é uma peça que já atravessou gerações desde sua estreia. Na sua visão, o que faz essa história continuar funcionando tão bem com o público até hoje? Paulo Vilhena: É uma peça que fala do clássico do humano — o amor, as dores e as delícias, as dificuldades de se encontrar no amor, numa relação. E acho que é isso que talvez comunique tão bem, porque é algo que todo mundo, se não passou, vai passar, ou tá passando, ou já passou e se identifica. É uma peça que abrange um público muito grande — desde o garoto e a garota adolescente com seus 15, 16 anos, até o casal da melhor idade que já viveu tudo isso e pode olhar para a própria história e dar risada, se divertir. Vogue: O texto mistura humor e teorias científicas sobre comportamento humano de uma maneira muito divertida. Você acha que essa ideia de "explicar o amor racionalmente" ficou ainda mais curiosa nos tempos atuais? Paulo Vilhena: Eu acho que o amor é algo inexplicável. E a gente como humano vai tentando explicar racionalmente, fisicamente, teologicamente, astronomicamente, astrologicamente — e eu acho que essa que é a diversão. A peça traz essa tentativa de explicação através da teoria evolucionista de Charles Darwin, que fala da evolução das espécies, mas é isso que traz a confusão, a graça. É uma maneira dentro de tantas outras de explicar o amor, mas que não se conclui efetivamente — e sim diverte, talvez, e talvez confunda mais as nossas cabeças efetivamente. Vogue: O teatro de comédia tem algo muito particular: o riso acontece ali, na hora. Como você percebe esse diálogo direto com o público durante as apresentações? Paulo Vilhena: É uma tensão full-time. O teatro, na verdade, em qualquer gênero, é isso — abriu as cortinas, só acaba depois que passar toda a história e ela for contada da melhor maneira. E o teatro tem essa particularidade, que é a reação do público. A gente, como ator ali em cima do palco, tem que ficar bem atento para ver o que está funcionando, ver o que não está funcionando. Um dia pode funcionar, outro não. Mas a gente tem que estar atento para conduzir a plateia a poder ter esse tempo de risada, dessa explosão que acontece, e a gente ter a nossa respiração em acordo com a risada do público — esse tempo que às vezes se dilata um pouco mais, para chamar na sequência e continuar dando andamento à peça. Essa também é a grande diversão para o ator: estar dentro desse jogo ativamente, com bastante percepção aguçada e muito foco no andamento da peça. Vogue: Você divide o palco com Duda Reis e Vittor Fernando em uma história cheia de encontros, desencontros e situações absurdas. Como está sendo essa convivência e esse jogo entre vocês no palco? Paulo Vilhena: Estar com a Duda e o Vittor no palco é muito interessante. É sempre um aprendizado essas relações de coxia, de palco, com quem quer que seja — sejam atores mais novos, mais velhos, ou da minha geração. A arte está muito nesse lugar da escuta, da generosidade em se agregar, em se potencializar. Esse convívio é muito instigante para mim — sinto isso ao longo dos ensaios e agora no palco. E para o público também tem essas diferenças de idade que comunicam com gerações distintas. É uma boa sacada da peça. E eles estão arrasando. Vogue: A peça fala de relações amorosas com muito humor. Olhando para o mundo de hoje, você acha que os relacionamentos ficaram mais complicados do que quando o texto foi escrito? Paulo Vilhena: Muita coisa mudou desde que o texto foi escrito - a maneira de abordar, a maneira de falar, as palavras. Mas acho que os relacionamentos continuam difíceis. Os relacionamentos sempre serão difíceis. A gente tem que se abrir às histórias, se abrir aos amores, se abrir às paixões, para que a gente possa, com elas, evoluir. E a graça do texto é exatamente isso - colocar ali pessoas que têm o mesmo objetivo, mas que talvez não estejam na mesma sintonia. Essa confusão, essa comédia dos erros, onde você tenta, tentativa e erro, tentativa e erro, e talvez acerte um pouco - é o que traz a comédia, é o que dá graça ao texto e aos personagens. Vogue: Depois de tantos trabalhos em televisão, cinema e streaming, o que o teatro ainda oferece de único para você - tanto como experiência artística quanto como encontro com o público? Paulo Vilhena: O teatro é realmente a casa do ator, é onde o ator se sente absoluto. Porque abriu a cortina, é quem está em cima do palco que vai resolver — que vai levar ali uma hora e meia de história para o público diretamente. Óbvio que tem o figurino, a iluminação, a trilha, o trabalho do diretor. Mas é o lugar onde o ator se sente em casa. Como diria meu amigo Eric Johnson, é onde a gente se sente mais perto de Deus — porque é o nosso ofício, é a nossa maior paixão. E com o público é aquela troca direta, sem nenhuma tela entre nós. É o olhar com olhar, é a respiração com a respiração, é o suor ali às vezes pingando na fileira número um, que dá muito mais verdade e vida para o que a gente está fazendo. Serviço "Qualquer Gato Vira-Lata Tem Uma Vida Sexual Mais Sadia que a Nossa!" fica em cartaz no Teatro das Artes (Av. Rebouças, 3970, Pinheiros) até 31 de maio, com sessões às sextas e sábados às 20h e domingos às 18h. Ingressos a partir de R$ 60. Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!