No início do século XX, a Rua Uruguaiana fervilhava. Carroças e bondes disputavam espaço com caixeiros apressados, comerciantes e fregueses que iam e vinham entre armazéns e cafés do movimentado Centro da então capital federal. De lá para cá, muita coisa mudou na paisagem e no ritmo da região. Mas basta atravessar a porta da Casa Paladino, na esquina com a Marechal Floriano, para sentir que o tempo ali corre em outra cadência. Fundado em 1906, o misto de loja de produtos finos e botequim permanece quase o mesmo de 120 anos atrás: imponentes cristaleiras seguem repletas de bebidas, estantes exibem enlatados e biscoitos na parte da frente, enquanto, nos fundos, mesas sustentam omeletes e sanduíches clássicos. Em tempos em que restaurantes abrem, viralizam e fecham em intervalos cada vez mais curtos — e que redes sociais ditam modas —, alguns endereços permanecem firmes e fortes na cidade e no imaginário carioca há mais de um século, guardando tradições, histórias e atmosferas que fazem parte da memória afetiva do Rio — não à toa, a maioria foi decretada Patrimônio Cultural Carioca. Conheça 15 deles, começando pelo aniversariante e seguindo por ordem de idade. Galerias Relacionadas Casa Paladino (1906) Um dos mais emblemáticos guardiões da tradição de secos & molhados do século passado, o pitoresco ambiente chega aos 120 anos quase intocado, e serviu de palco de gravações de filmes, novelas e minisséries de época. As especialidades locais são mais “recentes”: omeletes, em mais de 30 versões — as mais pedidas são a de camarão e a de bacalhau, R$ 32 cada —, e o sanduíche triplo, de ovo, provolone e presunto ou outras combinações no pão francês (a partir de R$ 28), incorporados há “apenas” quatro décadas. E, como diz o ditado, em time que está ganhando não se mexe. — Muitas casas similares viraram lanchonetes, nunca quisemos isso e procuramos manter a mesma estrutura. Nenhum dos funcionários tem menos de dez anos de casa e muitos aposentaram aqui — conta Ricardo Amaro Lourenço, proprietário desde 1978. Dois dos mais antigos, inclusive, viraram sócios — entre eles José Edson, que entrou há 46 anos como garçom. Rua Uruguaiana 224, Centro. Seg a sex, das 7h às 20h30. Casa Cavé (1860) Na porta, seu João recebe a clientela há mais de quatro décadas, como quem guarda não só a entrada, mas a própria memória da confeitaria mais antiga da cidade, que resiste como um respiro do Rio oitocentista. Em 2000, a casa deixou o endereço original, que chegou a abrigar a “rival” Manon. Quinze anos depois, voltou ao sobrado histórico de interior art déco, com vitrais e espelhos que evocam os cafés parisienses que inspiraram sua criação, pelo francês Charles Auguste Cavé. Mas é a doçaria portuguesa que dá o tom do balcão, com pastéis de nata, mil-folhas, guardanapos, toucinhos do céu e camisolas (R$ 15,20, cada), além de biscoitos como palmier e amanteigados com laranja ou goiaba, vendidos por quilo (R$ 143), que encantaram ao longo das décadas habitués como Carlos Drummond de Andrade, Tarsila do Amaral e o ex-prefeito Pereira Passos. Rua Sete de Setembro 133, Centro. Seg a sex, das 8h às 18h. Sáb, das 8h às 14h. Café Lamas (1874) Os primeiros acepipes foram servidos quando o Brasil ainda era Império: aberto em 1874 pelo português Francisco Tomé dos Santos Lamas, o bar e restaurante carrega o título de mais antigo em atividade no país. Durante um século instalado no Largo do Machado, atravessou crises e transformações da cidade, fechando as portas apenas em momentos excepcionais, como na Revolta da Vacina e no dia da morte de Getúlio Vargas, frequentador assíduo que ali parava para seu chá com torradas, assim como Machado de Assis, Olavo Bilac e Manuel Bandeira, que eternizou a casa em versos. Com as obras do metrô, mudou-se para o atual ponto no Flamengo nos anos 1970, e desde então manteve ambiente e cardápio praticamente intactos. Seguem firmes clássicos fartos e atemporais, como o bife à milanesa com arroz à piamontese (R$ 98), o filé-mignon à parmegiana (R$ 220, para dois ou mais) e a canja de galinha (R$ 52), sucesso nas madrugadas, quando ficava aberto 24h, além de sanduíches e petiscos. Rua Marquês de Abrantes 18-A, Flamengo. Diariamente, das 9h30 à 1h. Rio Minho (1884) A história já é conhecida: uma adaptação da francesa bouillabaisse, a sopa leão veloso, de peixe, lula e camarão (R$ 208; ou R$ 328, para dois), foi criada ali no início do século passado, a pedido do ministro Pedro Leão Veloso (1887-1947). Um dos célebres frequentadores desse que disputa com o Lamas o título de restaurante mais antigos da cidade (ao menos no mesmo endereço), cujo time reúne ainda o filólogo Antonio Houaiss (1915-1999), que costumava ir à cozinha palpitar sobre as receitas, e o editor José Olympio (1902-1990). Da quarta geração de proprietários, Ramon Isaac prepara no sóbrio salão refrigerado, desde 1982, receitas marítimas, como casquinha de cavaquinha (R$ 68) e o farto misto grelhado, com cherne, polvo, camarão, cavaquinha, arroz de brócolis e alho frito (R$ 358). O anexo mais informal, batizado de Cabaça do Minho e virado para o Boulevard Olímpico, tem preços e porções reduzidos: ali, a célebre sopa sai a R$ 168. Rua do Ouvidor 10, Centro. Seg a sex, das 11h às 16h. Colombo (1894) Vale enfrentar as longas filas na porta para se transportar direto para a belle époque carioca: o programa impressiona pelos salões em estilo art nouveau altamente instagramáveis, com espelhos belgas vindos de Antuérpia, vitrais franceses, móveis de jacarandá e balcões de mármore de Carrara, tudo emoldurado pela icônica claraboia de vitrais, que chegou após uma reforma em 1922 junto com um dos primeiros elevadores da cidade. Ao longo de mais de um século, foi ponto de encontro de intelectuais e artistas como Machado de Assis, Heitor Villa-Lobos e Chiquinha Gonzaga. Salgados clássicos como a coxa creme (R$ 29,30) e o camarão VM empanado (R$ 39,90) já viram dias melhores, mas doces como éclair de chocolate ou mil-folhas de creme (R$ 23,90, cada), além da rabanada real, de torrada Petrópolis com sorvete de creme e cala de vinho do Porto com passas (R$ 52,90) valem a visita, e a tradição resiste no chá da tarde (R$ 149,90). Rua Gonçalves Dias 32, Centro. Seg a sáb, das 11h às 18h. Aurora (1898) Aberto há 128 anos, tempo em que estabelecimentos do tipo eram conhecidos como casas de pasto, em um casarão de esquina no Humaitá, o endereço trocou de mãos algumas vezes ao longo dos séculos — e não foi a única mudança por lá. Depois de um ano fechado para uma grande reforma em 2014, sob gestão do Grupo Garota, a casa reabriu com ares mais modernos, mas preservou elementos como o antigo lustre do salão de pé-direito alto e os ladrilhos hidráulicos. Na cozinha da chef Ana Beatriz Capão, descendente de portugueses, convivem clássicos como a feijoada feita sem panela de pressão, cozida de um dia para o outro e servida com os pertences sextas e sábados (R$ 75, individual; R$ 120, para dois), PFs como picadinho com feijão, arroz, banana frita, batatas sautée e ovo frito (R$ 44, no menu executivo) e receitas lusitanas, agora 50% do cardápio. Entre as novidades, empadas recheadas com o tradicional cozido de domingo ou de galinha ensopada (R$ 12, cada), e a cotovelada de camarão (R$ 110), receita de família que traz os crustáceos com massa caracolino refogados em tomate e vinho branco. Rua Capitão Salomão 43, Humaitá. Diariamente, das 11h à 1h. Nova Capela (1903) Carro-chefe local, o cabrito assado com arroz de brócolis, batatas coradas e alho tostado (R$ 299 ou R$ 200, meia-porção), que já matou muita fome na madrugada, segue firme desde os primórdios da casa, que coleciona causos. Aberta em 1903 por um imigrante português, mudou de donos e de endereço dentro do bairro nos anos 1960, sobreviveu a incêndio e quase fechou — até ganhar novo fôlego sob o comando do empresário Antônio Rodrigues, do Grupo Belmonte, que assumiu o restaurante em 2019. O salão também guarda histórias que viraram lenda, como a do cliente francês que teria criado ali a guarnição “à francesa”, pedindo para refogar junto batata palha, presunto, ervilha e cebola, que acompanha hoje o filé-mignon (R$ 225). Bolinhos de bacalhau (R$ 21) e o croquete recheado com o famoso cabrito (R$ 26) podem abrir o percurso, regado a chope Brahma (R$ 9, 200ml, a R$ 15, 350ml). Av. Mem de Sá 96, Lapa. Dom a qui, das 11h à meia-noite. Sex e sáb, das 11h às 2h. Armazém São Thiago (Bar do Gomes, 1907) A antiga mercearia de secos e molhados é comandada pela terceira geração da mesma família desde 1919, quando o espanhol Jesus Pose Garcia, então balconista, assumiu o negócio e o rebatizou em homenagem à sua terra natal, Santiago de Compostela. Nos anos 1970, assumiu a vocação boêmia, herdando o apelido de Bar do Gomes, em referência a um descendente da família. Animado ponto de encontro no bairro, o espaço preserva a alma original, com balcão de mármore, geladeiras de madeira, cristaleiras e um antigo relógio de pêndulo que ajudam a compor a atmosfera de outra época. No lugar dos grãos a granel, entram chope (R$ 10,50, 300ml), batidas (R$ 14,50), uma variedade de bolinhos — como de feijoada espanhola, com feijão-branco, pernil, linguiça e lombo, ou de arroz com ragu de rabada — e sanduíches generosos, como o de mortadela (R$ 30,50). No fim do mês, o cardápio deve passar por um reajuste de preços. Rua Áurea 26, Santa Teresa. Seg a sáb, das 12h às 23h30. Dom, das 12h às 23h. Armazém do Senado (1907) As concorridas rodas de samba aos sábados (das 14h às 18h30) — que já receberam nomes como Wagner Moura e Humberto Carrão — transformaram o endereço na esquina da efervescente Rua do Senado, eleita a mais “cool” do mundo pela Time Out no ano passado, em ponto obrigatório da boemia carioca. Nesses dias a casa fica lotada, de antigos frequentadores a jovens e turistas — tanto que as rodas passaram a acontecer também às sextas e aos domingos. Um dos raros sobreviventes do tempo em que o Centro era pontilhado por armazéns de secos e molhados, guarda ainda detalhes como o balcão revestido de mármore de Carrara e as antigas prateleiras de madeira — hoje ocupadas por garrafas de cachaça e cervejas, já que os produtos a granel ficaram no passado. Para matar a fome, há petiscos simples expostos no balcão, como frios, sanduíches, empadinhas e azeitonas. Av. Gomes Freire 256, Centro. Seg a sex, das 9h às 21h. Sáb, das 9h às 19h. Dom, das 9h às 18h. Bar Brasil (1907) Apesar do nome, a alcunha de “O Alemão da Lapa” é justificável: fundado em 1907 por austríacos como Bar Zeppelin, o endereço mudou de nome durante a Segunda Guerra, quando referências germânicas passaram a ser evitadas. O cardápio reúne clássicos das duas culinárias: o kassler, clássico carré defumado, pode ser servido com chucrute e salada de batata (R$ 134, para dois; R$ 67, meia-porção) ou à mineira, com tutu, couve e arroz (R$ 144 e R$ 73). O schnitzel suíno empanado com batatas (R$ 115, de duas a três pessoas; R$ 66, meia-porção) divide as atenções com criações mais recentes, como o bolinho de joelho de porco apelidado de “porquinho manco” (R$ 13). Mesmo após reformas recentes, que modernizaram iluminação e estrutura, a casa preserva no salão de pé-direito alto a atmosfera de outro tempo, com relíquias como a chopeira de bronze mais antiga do país, com 66 metros de serpentina, por onde passa um dos chopes mais cremosos da cidade (R$ 9,90, 300ml). Av. Mem de Sá 90, Lapa. Ter a sáb, das 11h à meia-noite. Dom, das 11h às 16h. Leiteria Mineira (1907) Última herdeira carioca da tradição das leiterias mineiras, famosas pelos cafés da manhã reforçados com produtos de fazenda, a casa mantém clássicos como torradas na manteiga, chá, coalhada e flan, além de um de seus maiores símbolos: o mingau, servido no salão de madeira escura e lustres do início do século XX em versões como aveia (o mais pedido), Maisena e Cremogema (R$ 16,50). Fundada pelos donos da Fazenda Socego (MG) em 1907 para escoar a produção de laticínios, surgiu na antiga Galeria Cruzeiro, dentro do Hotel Avenida, na Rio Branco, mas mudou algumas vezes de endereço, até se instalar na Rua da Ajuda no fim dos anos 1970, e hoje está sob gestão de comerciantes portugueses. Com mais de 150 itens no menu, também se destaca pelos almoços fartos e acessíveis, com pratos o tradicional “prato do dia”: às segundas e quartas tem estrogonofe (R$ 39,50) e sexta é dia de rabada com polenta e agrião (R$ 43,50). Outro item raro nos menus, a canja mineira (R$ 44,50) também está entre as sugestões. Rua da Ajuda 35, Centro. Seg a sex, das 8h às 18h. Bar do Joia (1909) A cozinha caseira e o clima familiar que conquistaram gerações se fortaleceram nos anos 1950, quando o botequim fundado em 1909 pelo português João Nunes como Café e Bar Rio Paiva, aos pés do Morro da Conceição, passou a ser comandado pelo filho Joaquim Nunes, o Joia (e rebatizado com seu apelido). E segue aberto graças a um esforço coletivo: após a morte do marido, em 2007, Dona Alayde driblou as dificuldades que quase levaram ao fechamento do bar com apoio de um grupo de fregueses, e manteve vivas tradições como o clássico paio no feijão (R$ 33), servido diariamente, e a feijoada de sexta (R$ 40). Esses mesmos frequentadores de longa data, capitaneados por Roberto Kuru, assumiram há dois anos a gestão da casa ao lado da viúva, que mora no andar de cima e segue como figura central do salão. A “diretoria” incorporou novidades, de pratos como arroz de polvo (R$ 55) à programação musical das sextas, do quinzenal Samba do Aposentado (na 2ª e na 4ª semanas), que deu origem ao Chorinho (na 1ª) e o Bolero do Aposentado (na última) — coisa que o falecido dono, fã de música clássica, teria detestado, acredita o “sócio” e sambista Zeh Gustavo, que que lamenta não poder mais abrir à noite ou no fim de semana por conta do abandono do entorno. Rua Júlia Lopes de Almeida 26, Centro. Seg a qui, das 11h às 15h. Sex, das 11h às 16h. Casa Urich (1913) Fugindo da Segunda Guerra, o alemão Edmund Urich e sua esposa fundaram na Rua Sete de Setembro, em 1913, esse reduto dedicado à cozinha de seu país, que desde 1950 funciona no atual endereço, preservando azulejos, painéis e o antigo bar originais. Depois de passar pelas mãos de sócios espanhóis, que encheram o cardápio de receitas de seu país, o restaurante está há mais de três décadas sob administração dos irmãos Marisa e Orlando Oreiro, que resgataram a essência germânica e clássicos como língua ao molho madeira, com purê e ovos fritos (R$ 52). Garçons trajados à moda antiga, de gravata borboleta e paletó branco, circulam com pratos servidos desde a inauguração, caso do kassler defumado com chucrute e salada de batata, que ganhou a companhia de aipo e queijo roquefort (R$ 76), e do apfelstrudel com chantilly (R$ 27), sempre presentes nas mesas de políticos e advogados engravatados que formam grande parte do público local. Na happy hour, entram em cena petiscos como o croquete de carne (R$ 11,50). Rua São José 50, Centro. Seg a sex, das 11h30 às 22h. Padaria Bassil (1913) Fundado pelo libanês Tufi Bassil, o pequenino reduto na Saara também é conhecido como Padaria do Botafogo, graças aos azulejos alvinegros que ganharam as paredes depois de uma aposta lendária entre Garrincha e Jordan, do Flamengo, na final do Carioca de 1962, que acabou tendo que pagar a reforma do estabelecimento com as cores do clube rival. Do forno a lenha — que, reza a lenda, só é apagado uma vez ao ano para manutenção — saem fornadas de esfirras de carne, espinafre, ricota (R$ 10) ou damasco com queijo (R$ 12), tidas entre as melhores da cidade, além do pão árabe sempre fresquinho (R$ 18, a dúzia). Rua Senhor dos Passos 235, Centro. Seg a sex, das 9h às 18h. Sáb, das 9h às 15h. Amarelinho (1921) Testemunha de uma época em que os glamorosos teatros e cinemas renderam à Cinelândia o apelido de “Broadway brasileira”, o bar viu passar por suas mesas nomes como Oscar Niemeyer, Vinicius de Moraes e Mário de Andrade, além de gerações de políticos. Episódios históricos e manifestações na praça frequentemente terminavam ali, entre chope gelado e conversas que atravessavam a madrugada. Após um ano e dois meses de portas fechadas durante a pandemia, o endereço reabriu revitalizado no ano de seu centenário pelas mãos (mais uma vez) de Antonio Rodrigues, do Belmonte, mesmo ano em que foi tombado como patrimônio cultural carioca. Do passado, não ficou muito além do nome. No cardápio, frango à passarinho (R$ 69), pizzas e petiscos, incluindo as clássicas empadas do Belmonte, como a aberta de camarão com Catupiry (R$ 26). O chope Brahma (R$ 10,90, 200ml, a R$ 17,90, 350ml) sai aos montes na happy hour durante a semana. Praça Floriano 55-B. Diariamente, das 10h30 à 1h.