O boteco Miudinho, na Tijuca, é um verdadeiro gol de placa

Quem é obcecado por futebol costuma não ligar muito para Copa do Mundo. Diz que é coisa de amador. Me enquadro numa subcategoria. Não ligo para a bola rolando, mas sou a que puxa o coro para fazer álbum de figurinhas e adora os modismos, mascotes e afins.  Baixela: um bar com feitiço, mumunha e Narciso, o pudim A história do bar que virou escola de samba... e foi campeão do carnaval Minha primeira memória do campeonato é de 1982, na Espanha, e não foi pelo esporte, mas pelo Naranjito. Os meninos da escola diziam que ele era legal por ser canhoto como o Éder, mas eu gostava só porque ele era fácil de desenhar mesmo. Com a convocação da seleção para os últimos amistosos esta semana, dei a partida no motor de torcedora de araque. Explico: curto toda a empolgação em torno do evento, mas lembro mais do Araken, o showman, do que da eliminação dolorosa por pênaltis, no México, em 1986. O que acelerou meu clima de "pra frente Brasil" rumo ao hexa este ano foi a lembrança de uma propaganda de TV da década de 1990 que dizia assim: "Nossos japoneses são mais criativos que os outros". E não é que são mesmo? Dois bares para viajar o mundo sentado na calçada do Rio Dez anos atrás o conceito de Izakaya, o boteco japonês, chegava por aqui com a abertura do Pabu, no Leblon. Balcão compartilhado, puro suco de cultura pop com um direito a uma TV emulando um aquário na parede, saquê no copo americano e porções para alegrar a mesa bem além do sushi entre um trago e outro. Vieram alguns mais a reboque. Seguem ótimos, mas escalo o meu time de restaurantes. Faltavam entrosamento, gingado, cerveja e conversa fiada para ser botequim. Não falta mais. Aline é a alma do Miudinho, na Tijuca Tomás Rangel/Divulgação À frente do Miudinho, na Tijuca, e do Botica, em Botafogo, Aline Sasaqui não tenta reproduzir os bares de lá em terras cariocas. Muito menos fazer a gente caber nos moldes do outro lado do mundo. Ela cria um multiverso de sabores em petiscos sofisticadíssimos de comer com o cotovelo no balcão ou na beirola de uma mesa de plástico na calçada. No Miudinho (uma corruptela de meal deal), pertinho do Maracanã, o cardápio volante no quadro de giz é uma pororoca de sabores das duas culturas capaz de surpreender até mesmo os mais entendidos. Os yakitoris, o que a gente chama aqui de espetinho, fogem do óbvio. Vão do quiabo com missô ao surpreendente bacon, moti e tarê. Até então, só tinha comido os bolinhos glutinosos de arroz com recheios doces, como um sorvetinho. Ali, não. Ele entra na posição de um queijo-puxa, que fica difícil de cortar com os dentes. A gente precisa dar uma ajudinha com a mão. Tem coisa mais carioca? Os yakitoris, o que a gente chama aqui de espetinho, do bar Miudinho, na Tijuca Tomás Rangel/Divulgação E por falar em comer com as mãos, nada de bollinhos. A boa por lá são os oniguiris, os sanduíchinhos japoneses com arroz no lugar do pão, ou yakioniguiri, os mesmos sanduíches, só que quentes. No tamanho certo para deixar espaço para a cerveja e outras pedidas. Destaque da seleção de base do fine dining, passado por equipes de pizzaria premiada e pela única taqueria boa que a cidade já teve, Aline é uma das pioneiras do botequim nipo-brazuca e começa a escrever uma história que espero que vá longe. Não é só a forma, mas forma, conteúdo e alma. Com parte da família vinda do Japão, parte do Piauí, ela resgata a premissa básica de um botequim: nunca foi sobre ter isso ou aquilo no cardápio, mas sobre contar a história de quem está por trás daquilo. É como no futebol. A seleção deles é boa, mas precisava de um Zico como treinador para brilhar em campo.