Após câmeras descarregadas em morte de médica, MPRJ cobra rigor no uso dos equipamentos e aponta falhas em operações policiais

Três PMs, nenhuma câmera corporal carregada. A morte da médica Andrea Marins Dias, aos 61 anos, durante uma perseguição a suspeitos em Cascadura, na Zona Norte do Rio, expôs o mau uso do equipamento por agentes de segurança. Agora, em nota divulgada na tarde de quarta-feira, o Ministério Público do Estado do Rio informou que já solicitou a preservação das imagens dos policiais envolvidos no caso e, em paralelo, expediu recomendações para corrigir falhas no uso dos equipamentos em operações no estado. Despedida: 'Ela era luz e alegria', diz amigo no velório de médica morta durante uma perseguição policial na Zona Norte Mais sobre: Médica era ginecologista e cirurgiã e se orgulhava de ajudar mulheres com endometriose O pedido foi encaminhado pelo Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (GAESP), que também requisitou informações detalhadas à Polícia Militar sobre a atuação dos agentes na ocorrência, registrada no último domingo. A apuração do Ministério Público ocorre de forma independente do inquérito conduzido pela Polícia Civil. No mesmo movimento, o procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, enviou recomendações às secretarias de Polícia Militar, Polícia Civil e de Segurança Público do Estado do Rio para que reforcem os protocolos de uso das câmeras corporais. A iniciativa tem como base, segundo o documento, inconsistências identificadas durante a chamada Operação Contenção, alvo de investigação do próprio MPRJ. Entre as falhas apontadas pelo órgão estão a ausência de uso dos equipamentos por parte de policiais, equipes inteiras sem câmeras em funcionamento, agentes que iniciaram operações com dispositivos descarregados e a falta de baterias suplementares disponíveis durante as ações. Também foram identificados problemas no planejamento prévio das operações, incluindo a distribuição inadequada das câmeras entre os agentes. Nas recomendações, o MP orienta a adoção de medidas para garantir o uso efetivo das câmeras, como "o aprimoramento do planejamento operacional, a ampliação do número de equipamentos, o treinamento dos agentes e o fortalecimento dos mecanismos de controle e monitoramento", diz um trecho do documento. A nota estabelece ainda prazos para algumas dessas medidas, incluindo a apresentação de um cronograma de ampliação do número de câmeras em até 90 dias e a disponibilização dos equipamentos para todo o efetivo do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) em até 180 dias. Além disso, o MPRJ determinou que, em casos em que as câmeras não forem utilizadas, as corporações deverão apresentar justificativa formal em até 24 horas. 'Não vai sair? Vai tomar! Vai morrer aí dentro!' No domingo, a médica foi vista voltando em alta velocidade à rua onde moram seus pais, de onde havia saído pouco antes. Segundo relatos de moradores e comerciantes da região, os agentes teriam efetuado mais de dez disparos antes de retirar a médica já sem vida de seu carro, um Corolla Cross. As informações foram obtidas pelo GLOBO junto a testemunhas que preferiram não se identificar. — Foram mais de dez de disparos. Antes, deu para ouvir a polícia dizendo: 'Não vai sair? Vai tomar! Vai morrer aí dentro!' — relatou um comerciante. Imagens mostram o momento em que policiais militares cercam o carro da médica e chegam a bater com um fuzil na porta do motorista. Ao abrirem o veículo, os agentes encontraram o corpo de Andrea no banco do motorista. Uma testemunha também registrou em vídeo a abordagem: “Desce, irmão! Vai morrer! Vai morrer, irmão, desce!”, grita um dos policiais. Em São Gonçalo: Secretário é perseguido por homens armados; Paes fala em atentado, polícia diz que é tentativa de roubo De acordo com o relato dos policiais do 9º BPM, a equipe fazia um patrulhamento de rotina quando foi informada por um pedestre de que ocupantes de um Corolla Cross faziam assaltos na região. Os PMs começaram a buscar pelo carro. No cruzamento das ruas Araruna e Cupertino, eles viram um Jeep Commander, um Corolla Cross e uma motocicleta. Os veículos, segundo os policiais fluminenses, fugiram com a chegada da viatura. Os PMs afirmam que deram uma ordem de parada e que os ocupantes dos veículos, então, atiraram contra eles. Houve confronto, segundo os agentes. Após rebocar ônibus da Prefeitura do Rio em Mesquita: Detro faz acordo para criar linhas experimentais na Baixada O Corolla Cross seguiu pelas ruas Eufrásio Corrêa, Columbia, Goiás, Cupertino, Mendes e, no início da Rua Palatinado, a poucos metros da casa dos pais, de onde ela teria saído pouco antes, parou. O automóvel passou por uma perícia. Na segunda-feira, durante a visita da reportagem, uma patrulha da PM estava estacionada na entrada da via em que Andrea foi morta. Em vídeo: Vereador rebate acusação da Polícia Civil e diz que depósitos de mais de R$ 100 mil eram prêmio da ONU Mais cedo, ela teria passado em uma padaria para comprar um refrigerante. Segundo moradores, a médica seguia para a casa dos pais para um almoço de domingo. Vizinhos afirmam que Andrea cuidava sozinha dos dois, ambos idosos. A PM destacou que os policiais que faziam parte da equipe envolvida na perseguição portava câmeras corporais. "Os dispositivos e as armas utilizadas pelos agentes estão à disposição do procedimento investigativo pela Polícia Civil", diz a nota da corporação. Initial plugin text