O Ministério Público do Mato Grosso solicitou nesta quinta-feira ao Tribunal de Justiça do estado para que instaure uma investigação para apurar o caso do deputado Valmir Morettto, gravado comemorando uma licitação durante um evento em Pontes e Lacerda no início da semana. Um outro procedimento no âmbito cível foi aberto pelo MP. Após a repercussão do aúdio, Moretto publicou uma nota nas redes sociais e disse que se tratou de um "vício de linguagem". Leia mais: Deputado do MT gravado comemorando licitação é réu por direcionar certames quando era prefeito STF: Ministros defendem Moraes em meio à crise do Master, e Gilmar diz que inquérito das fake news foi 'corajoso e irretocável' — Quase 200 milhões — diz o deputado no áudio, que circulou nas redes. Ele acrescenta — É, três obras lá. Duas é Agrimat, uma é a minha. Nesta terça-feira, um microfone captou Moretto afirmando ao governador Mauro Mendes que, de três obras, uma era sua, durante um evento no qual o governo do Mato Grosso anunciou investimentos no município de Pontes e Lacerda. Posteriormente, o deputado se defendeu e afirmou ter usado um "vício de linguagem", pois havia sido um dos fundadores da empresa de construção civil em questão. Na nota, ele diz ter deixado a empresa após se eleger. — A comemoração não era sobre o vencimento da licitação. A minha alegria, minha felicidade é pela realização. Foram muitos anos de trabalho, três anos de trabalho em busca de desenvolvimento para a nossa região — disse Moretto A declaração de Moretto alvo de controvérsia nesta terça-feira aconteceu durante um evento para anunciar a construção do Hospital Estadual do Sudoeste Mato-grossense, em Pontes e Lacerda. Segundo disse o governo do Mato Grosso, no local diversos convênios e autorizações para obras foram assinados, superando o valor de R$ 200 milhões, "o que possivelmente foi o objeto da fala do deputado Valmir Moretto". A obra do hospital ainda não teve a licitação iniciada, acrescenta o governo. "Em relação às obras de Infraestrutura na região, é preciso reforçar que os processos licitatórios seguem critérios técnicos e a legislação vigente para participação das empresas. Não há nenhuma obra contratada pelo estado cuja empresa vencedora tenha no quadro societário qualquer parlamentar", diz a nota. Veja abaixo a transcrição do áudio: Valmir Moretto: Quase R$ 200 milhões só ali Mauro Mendes: Já começou ou não? Valmir Moretto: Não Mauro Mendes: Mesma coisa, enrolada também? Valmir Moretto: Todas as três, todas as três obras. Mauro Mendes: Tá licitado isso, não tá? Essas duas Valmir Moretto: Todas as três. Mauro Mendes: Quem ganhou? Valmir Moretto: Duas, a Agrimat, e uma, a minha Réu por direcionar licitações Moretto é réu em um processo que corre no Tribunal Regional Federal da 1ª Região por direcionar licitações a empresas ligadas a ele. Na acusação, o MPF afirma que é Valmir Moretto é o dono oculto da Oeste Construtora, antes chamada VL Moretto. O deputado deixou o quadro societário em 17 de dezembro de 2018, antes de assumir o cargo, e passou o controle da empresa para o irmão, Glenio Moretto. Segundo o MPF, ele, no entanto, seguiu dando ordens. Entre a saída de Valmir da empresa e março de 2019, o deputado teria recebido R$ 1 milhão de Glenio, o que seria um indicativo que ele se mantém como beneficiário. A ação é resultado da Operação Trapaça que mirou Moretto e outros políticos do estado. Na época dos casos investigados, antes da Oeste Construtora mudar de dono e nome, o deputado era prefeito de Nova Lacerda. O esquema funcionava em parceria com o então prefeito do município de Salto do Céu, Wemerson Prata. Segundo o MPF, os gestores davam às licitações "aparência de concorrência, quando, na verdade, o resultado já estava pré-determinado e o real executante do contrato não seria necessariamente a pessoa jurídica vencedora". O esquema funcionava de forma cruzada, de modo que a emprea de Moretto não concorria em Nova Lacerda, nem a empresa de Prata em Salto do Céu. A ação ainda corre na Justiça Federal do Mato Grosso. Os acusados foram intimados a enviar as alegações finais no início do ano.