Em um cenário de comércio exterior aquecido, câmbio deixa de ser rotina operacional e ganha peso nas decisões financeiras das empresas

O comércio exterior brasileiro entrou em 2026 apoiado em uma base robusta. Em 2025, as exportações do país somaram US$348,7 bilhões e a corrente de comércio alcançou US$629,1 bilhões, ambos recordes históricos. No início deste ano, o ritmo continuou forte: fevereiro registrou US$26,3 bilhões em exportações, recorde para o mês, e o Brasil fechou 2025 com 29.818 empresas exportadoras, o maior número da série histórica. Esse avanço, porém, não elimina um ponto que volta ao centro das decisões financeiras em 2026: a volatilidade do dólar. Em operações internacionais, a oscilação cambial deixou de ser um detalhe administrativo para se tornar variável direta de margem. Em muitos casos, a diferença entre uma operação rentável e outra pressionada está menos no volume vendido e mais no intervalo entre orçamento, fechamento comercial, liquidação e contratação do câmbio. No mercado brasileiro, a principal referência para esse acompanhamento é a PTAX, publicada pelo Banco Central. O próprio BC aponta que ela é usada em contratos futuros, opções de câmbio, derivativos de balcão e operações financeiras com entrega física. Desde 2011, a metodologia passou a considerar a média aritmética de cotações coletadas em quatro consultas diárias a dealers de câmbio, em janelas de alta liquidez, o que reforça seu papel como referência para precificação, hedge e comparação de custos ao longo do dia. Na fotografia mais recente, o fechamento do dólar divulgado pelo Banco Central em 13 de março foi de R$5,2541 na venda. Já o Focus de 6 de março mostrava mediana de R$5,25 para a média de março, R$5,26 para abril e R$5,41 para o fim de 2026. Entre a taxa de fechamento de 13 de março e a expectativa de fim de ano, a diferença implícita fica perto de 3%, faixa suficiente para alterar a rentabilidade de empresas que operam com spreads mais estreitos. Para importadores, o efeito costuma aparecer primeiro na formação de preço e na previsibilidade do caixa. Quando há defasagem entre negociação com fornecedor, embarque, nacionalização e contratação efetiva da moeda, a empresa pode vender com base em um dólar e liquidar a operação com outro. Em setores de giro rápido ou de competição mais intensa, essa diferença nem sempre é repassada ao cliente final, o que comprime margens e reduz capacidade de planejamento. Do lado dos exportadores, o câmbio mais alto nem sempre significa ganho automático. Em cadeias que dependem de insumos importados, serviços dolarizados, frete internacional ou contratos fechados com antecedência, receita e custo podem se mover em velocidades diferentes. O resultado é que a valorização do dólar pode ajudar a receita bruta em reais, mas não necessariamente preservar a margem líquida se a exposição cambial estiver desalinhada. Na avaliação da GX Capital, boutique financeira especializada em câmbio estruturado, crédito empresarial e soluções com inteligência artificial para empresas, esse cenário reforça a necessidade de tratar o câmbio como disciplina financeira contínua, e não apenas como etapa final da operação internacional. O tema ganha peso justamente porque o comércio exterior brasileiro segue crescendo em escala, enquanto o erro de timing cambial passa a custar mais caro. Na prática, isso empurra importadores e exportadores para um modelo de gestão mais sofisticado, com definição prévia de taxa de referência, política de proteção por exposição, acompanhamento de janelas de fechamento e maior integração entre área comercial, tesouraria e planejamento financeiro. Em um ambiente de dólar sensível a expectativas e com projeções ainda acima do patamar médio de março, a previsibilidade passa a valer quase tanto quanto o preço. Em 2026, o câmbio não desaparece como risco, mas muda de função dentro das empresas. Para quem importa ou exporta, a questão já não é apenas saber se o dólar vai subir ou cair. O ponto central passa a ser quanto dessa oscilação será absorvida pela operação e quanto dela será convertido em perda de margem, atraso de decisão ou redução de competitividade. Em um comércio exterior que segue batendo recordes, essa diferença tende a separar empresas que apenas operam fora do país daquelas que conseguem crescer com consistência no mercado internacional.