Argentina publica documentos do Serviço de Inteligência da última ditadura do país

A Argentina suspendeu o sigilo e publicou, nesta quinta-feira, quase 500 páginas de documentos oficiais do Serviço de Inteligência do Estado (Side), que correspondem ao período de 1973 a 1983, que inclui os mais de sete anos da última e mais sangrenta ditadura no país. Os documentos foram publicados no site oficial do Estado e contêm informações variadas, da lista de compras dos escritórios do órgão de Inteligência até o registro da composição de departamentos dedicados a espionar universidades, sindicatos, empresas e organizações políticas e sociais. Janaína Figueiredo: Golpe na Argentina, 50 anos depois Acervo: Franklin Martins e o sequestro do embaixador americano na ditadura "A iniciativa se integra a uma política orientada a fortalecer a institucionalidade do Sistema de Inteligência Nacional e seu vínculo responsável com a sociedade", publicou o Side no X. Além disso, "a publicação de arquivos históricos fortalece a credibilidade institucional, ajuda a desmitificar teorias da conspiração e demonstra compromisso com a verdade" em um momento presente no qual "a desinformação" é abundante, detalhou o governo em uma guia de leitura que acompanhou os documentos. Initial plugin text A divulgação destes documentos ocorre a cinco dias da comemoração do 50º aniversário do golpe de Estado que deu início, em 24 de março de 1976, ao último governo militar do país, apontado como responsável pelo sequestro e desaparecimento de 30 mil pessoas, segundo estimativas de organizações de defesa dos direitos humanos. O presidente argentino, Javier Milei, de extrema direita, questionou o número de 30 mil desaparecidos e criticou as organizações de defesa dos direitos humanos, ao dizer que têm "um bico" (um negócio informal). Nesta primeira instância, o Serviço de Inteligência publicou "um conjunto de 26 documentos oficiais, distribuídos em 492 páginas", além do guia de leitura. Alguns documentos expõem a produção de "inteligência estratégica psico-sociológica" que teria como tarefas, entre outras, vigiar os meios de comunicação com o objetivo de "determinar temas destacáveis, motivações, argumentos, caracterização ideológica (política, religiosa, econômica, filosófica, etc), literária, etc". Outros são meras instruções de uso de escritórios da organização em tempos de restrição orçamentária: "serão mantidas desligadas todas as luzes nos recintos onde não haja pessoas", diz um dos papéis que, no entanto, traz a inscrição "estritamente secreto e confidencial" na parte superior. A Argentina julgou centenas de pessoas implicadas em crimes contra a humanidade cometidos durante a ditadura, principalmente ex-militares e ex-policiais, mas também alguns civis.