Caravana com prefeitos, homenagem a Mujica e discurso em sindicato: como foi o 'Dia D' da candidatura de Haddad

O anúncio da candidatura do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao governo de São Paulo se deu em meio a um périplo de autoridades federais no estado, ao lado do presidente Lula, nesta quinta-feira, 19. O PT repete, assim, a estratégia eleitoral adotada há quatro anos, quando o político chegou ao segundo turno, mas foi derrotado pelo atual ocupante do cargo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Lula e uma comitiva de 15 ministros participaram, pela manhã, da abertura de evento com prefeitos paulistas, denominado “Caravana Federativa”, que procura aproximar os gestores locais do governo federal com estandes de vários ministérios, da Caixa Econômica Federal e do BNDES. A ideia, segundo a comunicação federal, é orientar os prefeitos e acelerar pedidos de repasses e convênios para obras de saúde e educação e ações de transparência. Os discursos, contudo, já colocavam a campanha de Haddad na rua desde cedo. Lula chamou o aliado de “ministro mais exitoso” da história da Fazenda, em razão da aprovação da reforma tributária “que há 40 anos se esperava”. Em outro momento, criticou o governo Tarcísio alegando que o adversário do PT mantém uma relação conflituosa com os gestores municipais. “Pelo que estou sabendo”, disse ele, “os prefeitos de São Paulo são mal recebidos pelo governo do estado”. Haddad foi mais contido e, ao se dirigir à plateia, exaltou o “municipalismo” e a “retomada do pacto federativo”, afirmando o quanto uma boa relação com os municípios é considerada importante para o governo. — Sem o pacto federativo ter sido recuperado, nós não teríamos chegado até aqui. E, quando eu digo chegar até aqui, estou falando que era muito difícil, nas condições econômicas herdadas, fazer a economia crescer o dobro da média dos dez anos anteriores a 2023, como nós conseguimos — declarou Haddad, em seus momentos finais como ministro. A disputa pela “paternidade” de obras executadas pelo estado que contam com recursos da União também deve aparecer com frequência, e Lula já adiantou isso nesta quinta ao reclamar que Tarcísio “anuncia como se fosse dele” obras projetos como o Túnel Santos-Guarujá, o Trem Intercidades que vai ligar a capital a Campinas e expansões nas linhas de metrô. — É dinheiro financiado pelo BNDES em nome do governo federal — falou Lula. O presidente não foi o único a elogiar o agora pré-candidato ao Executivo do estado. O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) agradeceu o trabalho do colega por conta da alteração das regras tributárias e da isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil por mês, projetos patrocinados pelo Executivo e aprovados pelo Congresso. A pauta do IR também foi mencionada por Gleisi Hoffmann, ex-presidente do PT e atual ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais. Mujica e anúncio No final da tarde, Lula e seus auxiliares se dirigiram a São Bernardo Campo, cidade populosa na região metropolitana. A primeira agenda, ainda no âmbito governamental, foi uma homenagem ao ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, morto em maio do ano passado. A Universidade Federal do ABC (UFABC) concedeu a ele o título de “Doutor Honoris Causa”, entregue a familiares presentes no ato. A essa altura, a comitiva federal já estava mais reduzida. A confirmação da candidatura de Haddad, esperada desde a semana passada, veio por meio de um pronunciamento no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde o líder petista iniciou a sua trajetória política como dirigente da categoria e ao organizar greves de operários, no final da década de 1970, que dariam origem ao PT. Sem as amarras do cerimonial do Planalto, o tom contra o governador e o seu padrinho político, o ex-presidente Jair Bolsonaro, foi duro. Lula fez um relato do modo como convenceu Haddad a entrar na disputa: — Eu tive uma conversa com Haddad e disse o seguinte: a situação política do Brasil e do mundo é tão grave que se a gente não pegar as melhores pessoas que a gente tem em cada estado e fazer a luta pela democracia, corremos o risco de entregar mais uma vez a democracia na mão dos fascistas que fizeram um estrago tão grande — disse ele. Haddad alegou que entra na disputa para ganhar e que foi escolhido dentro de um debate sobre o “melhor arranjo para apresentar a São Paulo, com as melhores chances de vitória e de transformação do nosso estado”. — Não disputo eleição para barganhar qualquer coisa que seja, eu disputo eleição para ganhar. A vitória política é sempre possível, basta você se apresentar de cara limpa, com um bom projeto, que vai angariar apoio, crescer e despertar as pessoas. Vamos ter um debate duro pela frente, mas que pode resultar nesse despertar tão importante para o povo paulista — afirmou o pré-candidato. Ele também rejeitou a afirmação de que estaria indo “para o sacrifício” ao ir às urnas: — Eu não aceito viver em um país tão desigual. Dedicar uma parte da minha vida a essa causa jamais será visto por mim como um sacrifício. Quando vejo notícia que o Haddad está indo para o sacrifício, eu digo que essa pessoa não sentou comigo para tomar um chope — disse.Haddad tem pela frente agora o desafio de reverter o favoritismo de Tarcísio nas pesquisas eleitorais e também de oferecer um palanque competitivo para o presidente Lula na eleição presidencial, em que o senador Flávio Bolsonaro (PL), do Rio de Janeiro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, aparece como principal adversário. São Paulo concentra mais de 20% dos eleitores do país. Convencimento O ministro da Fazenda resistiu por meses a aceitar a tarefa, mas recebeu um pedido direto do presidente e foi convencido de que sua participação no pleito era necessária. Aliados alegam que o receio não era de perder novamente nas urnas, o que representaria a quarta derrota eleitoral consecutiva, e sim por estar inserido hoje em uma agenda de pautas nacionais, em que se vislumbra, inclusive, uma possível sucessão em 2030. Pesquisa Datafolha, realizada entre os dias 3 e 5 de março, selou entre as lideranças o diagnóstico de que ele seria o candidato ideal, em vez do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) ou dos ministro do Empreendedorismo, Márcio França (PSB), e do Planejamento, Simone Tebet (MDB). Ele foi o candidato lulista que melhor pontuou nas simulações de primeiro turno, com 31% das intenções de voto, contra 44% de Tarcísio. A estratégia do PT passa por martelar, na campanha paulista, dados econômicos favoráveis, como a queda da taxa de desemprego, o crescimento da renda salarial média e o controle da inflação, além de medidas de iniciativa do Executivo aprovadas no Congresso, como a isenção de Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil por mês e a reforma tributária. Mas Haddad também precisará desgastar o governo Tarcísio para tentar sair vitorioso nas urnas ou, ao menos, garantir uma segunda rodada. Tarcísio, da mesma forma, tem se mostrado disposto a aceitar a nacionalização da disputa e ensaia críticas diretas à gestão econômica de Haddad sob o mantra de que o ministro “contratou uma crise fiscal” para o futuro ao gastar demais e “criou um imposto a cada 30 dias”. Sobre esse ponto, o ministro rebate dizendo que inverteu a lógica de tributação ao cobrar dos mais ricos, em vez da “base da pirâmide”. Haddad pretende se afastar de agendas públicas nos próximos dias antes de se dedicar à pré-campanha. Na Fazenda, ele será substituído pelo secretário-executivo Dario Durigan. O novo ministro exercia a função desde junho de 2023 e teve atuação elogiada em matérias como a reforma tributária e o pacote fiscal. Um dos primeiros desafios será ajudar a conter uma greve de caminhoneiros em razão da alta no preço dos combustíveis.