Transversal à Avenida Paulista, uma das principais vias de São Paulo, a Rua Peixoto Gomide está no centro de uma polêmica que envolve memória histórica da capital paulista. Nesta semana, a Câmara Municipal aprovou em primeira votação um projeto que propõe mudar o nome da via para Sophia Gomide. A alteração faz parte de uma iniciativa para impedir homenagens públicas a autores de feminicídio. 8 de março: Lula tenta usar combate a feminicídio como bandeira eleitoral, mas tem dificuldades para apresentar avanços Metade dos feminicídios no Brasil ocorre em cidades pequenas Francisco de Assis Peixoto Gomide Júnior, tradicionalmente apontado como o homenageado, matou a própria filha, Sophia Gomide, por não aceitar o casamento dela. O crime aconteceu em 20 de janeiro de 1906. Gomide tirou a vida da jovem, de 22 anos, dentro da casa da família, na Rua Benjamin Constant, em São Paulo, e se suicidou em seguida. O episódio ocorreu poucas semanas antes do casamento de Sophia com o poeta e promotor público de Itapetininga Manuel Baptista Cepellos, união que ele não aprovava. Como o caso envolvia figuras da elite paulistana, foi amplamente registrado pela imprensa da época. Jornais como O Estado de S. Paulo narraram em detalhes o que aconteceu na residência da família. “Quando nosso companheiro chegou à Rua Benjamin Constant n. 29-A e subiu as escadas da modesta residência de Peixoto Gomide, este ainda estertorava a longos e fundos haustos, estendido num grande sofá de palhinha da sala de visitas. Trajava paletó sueco e calças de fazenda escura. Saía-lhe massa encefálica pelo topo do crânio, do lado esquerdo. Tinha os olhos muito abertos e vermelhos e um, o esquerdo, fora da órbita”, escreveu o jornal Na casa do senador reuniram-se amigos, autoridades e representantes das igrejas locais. Segundo testemunhos registrados à época, ele usou uma pistola Smith & Wesson para disparar contra a filha. “Sophia só teve tempo de perguntar: ‘Que é isso, meu pai?’ — ‘Não é nada’, respondeu. A bala saiu certeira. Sophia não soltou um grito, não fez o menor movimento. Rolou morta da cadeira para o assoalho”, continuava o texto publicado no dia seguinte ao caso. Na cobertura do incidente termos como “crise de loucura”, “obsessão fatal”, “delírio de perseguição”, “insônia” e “neurastenia aguda” foram usados para explicar o assassinato. Segundo os registros, na véspera do crime Gomide teve uma longa conversa com Cepellos, na qual pareceu se acalmar e “entrar em acordo” com o genro, mas a melhora teria sido temporária antes do desfecho na manhã seguinte. Por mais de um século, a história passou despercebida por quem circula pela rua, que cruza a região do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) e se tornou ponto de referência para encontros corporativos, manifestações e passeios na região da Paulista. Nos últimos anos, porém, em meio às mobilizações contra o aumento dos casos de feminicídio no país e à revisão de homenagens públicas consideradas controversas, o nome da via passou a ser questionado. Apesar de hoje ser associada ao senador Peixoto Gomide Júnior, no Dicionário das Ruas, plataforma da Prefeitura de São Paulo, os registros sobre a origem da homenagem são classificados como inconclusivos. “Nos históricos elaborados por antigos servidores, acreditou-se que a rua homenageasse Francisco de Assis Peixoto Gomide Júnior, promotor público e parlamentar do Partido Conservador, historicamente lembrado pelo trágico episódio do assassinato de sua própria filha. No entanto, mapas da cidade de 1897 já registram a rua com o nome Peixoto Gomide quando o homenageado ainda estava vivo”, diz a plataforma. De acordo com o levantamento, embora a proibição de homenagens a pessoas vivas só tenha sido estabelecida em 1934, é plausível que a referência seja a Francisco de Assis Peixoto Gomide, pai do político citado, que foi juiz, promotor público e deputado geral e morreu em 1850. “Quando pai e filho possuem o mesmo nome, é comum que a homenagem inclua designações como ‘Filho’ ou ‘Júnior’ para evitar confusão, o que não ocorre neste caso. Assim, não há consenso definitivo sobre quem é o homenageado”, afirma o texto. O projeto, aprovado por 33 votos favoráveis e nenhum contrário, ainda precisa passar por segunda votação antes de seguir para sanção do prefeito Ricardo Nunes (MDB). A autora é a vereadora Silvia da Bancada Feminista (PSOL), que celebrou a aprovação em primeiro turno. — O que a Câmara está fazendo hoje é uma reparação, porque feminicida não pode ser herói. Nós estamos no mês das mulheres, um período em que temos o compromisso de combater qualquer violência de gênero — afirmou no plenário. O texto ainda não tem data para nova votação, mas, segundo reportagem do G1, o prefeito já sinalizou que deve sancionar a proposta. — Homenagear alguém que matou uma pessoa já não é correto, ainda mais uma filha — disse.