Adriano da Nóbrega usava 'laranja' para compra de imóveis em Cachoeira de Macacu, segundo MPRJ

Adriano da Nóbrega cultivava havia anos uma ligação estreita com a vida no campo. O ex-capitão do Bope, apontado como chefe do Escritório do Crime, grupo de matadores de aluguel, acumulou diversas propriedades rurais, muitas delas sequer identificadas formalmente, além de manter o hobby caro de colecionar cavalos de raça. Por isso, quando os investigadores passaram a mapear o espólio deixado por ele após sua morte, em 2020, já sabiam que Cachoeiras de Macacu — localizada na Região Metropolitana do Rio, mas com características de áreas de serrra e de baixada — fazia parte da sua lista patrimonial. Onde foi parar a fortuna de Adriano da Nóbrega? MP rastreia bens e descobre compra de imóvel por parlamentar Viúva de Adriano da Nóbrega se casa com empresário que patrocinou clubes do Rio e que devia dinheiro ao miliciano, morto na Bahia Foi nesse pente-fino que surgiu uma ausência considerada reveladora. Ao rastrear os bens ligados a Adriano, os promotores do Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio (MPRJ) identificaram que dois imóveis rurais em Cachoeiras de Macacu, apontados como pertencentes ao miliciano, não apareciam formalmente na relação do espólio. A investigação concluiu que as propriedades estavam registradas em nome de Edvaldo Prudente de Morais Filho, descrito na denúncia como laranja de Adriano, o que teria servido para ocultar a posse real dos bens e blindá-los de medidas de confisco. A partir daí, o MPRJ afirma ter reconstituído o caminho desses sítios. Conforme a acusação, depois da morte de Adriano, em 9 de fevereiro de 2020, os imóveis foram negociados pela viúva, Julia Lotufo, sem jamais passarem oficialmente para o nome dela. As propriedades, avaliadas em até R$ 3,5 milhões e vendidas por cerca de R$ 3 milhões, teriam sido pagas em parcelas e em dinheiro vivo. O negócio passou pelas mãos do sargento Luiz Carlos Felipe Martins, o Orelha — executado em março de 2021, em Realengo, na Zona Oeste do Rio, um ano após Adriano —, e do corretor Reinam Lopes de Siqueira. Braço direito do miliciano, Orelha mantinha com o ex-capitão do Bope uma relação de confiança levada ao extremo. Os investigadores afirmam que os dois usavam celulares ponto a ponto, registrados em nome de terceiros, os chamados “buchas”, destinados exclusivamente à comunicação entre eles. Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do Bope e suspeito de integrar milícia Reprodução Foi a partir do rastreamento dessa engrenagem patrimonial que o MPRJ avançou na apuração e chegou aos dois mandados de prisão e a 19 de busca e apreensão. A Operação Legado, como foi batizada a ação, foi desmembrada em três ações penais contra a organização criminosa. Quem era o real comprador dos imóveis de Adriano? De acordo com a denúncia do Gaeco, o comprador real dos imóveis de Adriano foi Rogério Teixeira Júnior, o Juninho do Pneu. Para dificultar ainda mais o rastreamento da transação, porém, a transferência formal acabou sendo feita para o nome do pai dele, Rogério Teixeira. Ainda segundo o Ministério Público, após a venda articulada por Júlia Lotufo, Edvaldo repassou os dois imóveis ao pai do verdadeiro adquirente, reproduzindo a lógica de ocultação patrimonial atribuída ao grupo: primeiro, os bens eram mantidos em nome de um laranja; depois, vendidos sem aparecerem no nome da viúva; por fim, registrados em nome de outro intermediário. Empresário diz à Justiça que ex-capitão Adriano da Nóbrega é dono de 300 imóveis em Rio das Pedras A denúncia afirma que a compra foi quitada em dinheiro vivo e parcelada ao longo de cerca de três anos. Parte das prestações era entregue ao corretor Reinam, que repassava os valores a Orelha, apontado como intermediário de Júlia. O Ministério Público sustenta ainda que, em diversas ocasiões, os pagamentos eram feitos pelo pai de Juninho, embora o verdadeiro comprador dos imóveis fosse o parlamentar. O valor foi pago em parcelas, algumas com atrasos e cobranças recorrentes, mesmo após a formalização da escritura. O Gaeco denunciou Rogério Teixeira Júnior, o Juninho do Pneu, e Rogério Teixeira apenas pelos atos de lavagem de dinheiro ligados à negociação dos imóveis rurais. Conforme a própria denúncia, embora as investigações tenham avançado e produzido elementos sobre a atuação de outros investigados no crime de organização criminosa, não foram encontrados indícios de que Juninho, o pai dele e Edvaldo Prudente integrassem a estrutura criminosa atribuída ao grupo de Júlia Lotufo. Por isso, o MP afirma que eles “participaram tão somente dos delitos de lavagem de dinheiro”, imputando a Juninho a compra dos imóveis com pagamento em espécie e, aos dois, a ocultação da real propriedade dos bens ao registrá-los em nome do pai do parlamentar. O ex-PM Adriano Magalhães da Nóbrega: morto a tiros na Bahia Reprodução A assessoria do deputado federal informou, por meio de nota, que ainda vai constituir advogado para ter acesso ao inteiro teor da denúncia e questionou a competência da investigação, sustentando que apurações envolvendo parlamentares federais deveriam passar pela Procuradoria-Geral da República, pelo Ministério Público Federal e, em caso de ação penal, tramitar no Supremo Tribunal Federal. Ele negou ter comprado o terreno em Cachoeiras de Macacu, dizendo que o negócio foi feito por seu pai, homônimo, por valor de mercado e com intermediação de um corretor conhecido na região. O deputado também afirmou que não conhece nem nunca manteve relação com os criminosos citados na investigação, disse que suas relações comerciais são legais e declaradas à Receita Federal e informou que adotará medidas judiciais contra a divulgação de informações que considera falsas. Ex da viúva de Adriano alega ter sido coagido por bicheiro: 'Ela tem que dizer que o marido era um louco' Na própria denúncia, o Gaeco explica que denunciou Juninho do Pneu, e não a Procuradoria-Geral da República, porque entendeu que os fatos atribuídos ao deputado não têm relação com o exercício do mandato parlamentar. Segundo a própria denúncia, a investigação chegou a ser comunicada à PGR após a identificação de elementos envolvendo o nome do deputado, mas o órgão mandou arquivar a notícia de fato sob o argumento de que não havia vínculo entre a suspeita apurada e a função exercida na Câmara. Sem esse nexo com o cargo, o caso permaneceu na esfera estadual. Por isso, o Ministério Público fluminense atribuiu a Juninho e ao pai dele apenas os atos de lavagem de dinheiro relacionados à compra dos imóveis, e não participação na organização criminosa. Estratégia era manter patrimônio escondido Para os investigadores, porém, a venda dos imóveis está longe de ser um episódio isolado. Segundo a denúncia, ela faria parte de uma engrenagem montada para dilapidar e ocultar o patrimônio deixado por Adriano, dificultando o rastreamento de bens que continuaram circulando mesmo após a morte do ex-PM. Os promotores sustentam que pessoas próximas ao miliciano passaram a administrar imóveis, valores em espécie e outros ativos por meio de terceiros, numa estratégia para manter o espólio fora do alcance das autoridades. Até porque, de acordo com a acusação, Julia Lotufo, apelidada de “Magrela”, sabia que não poderia vender nenhum bem do marido antes do fim das investigações. Ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega com a mulher Júlia Lotufo, numa praia da Bahia Reprodução É nesse ponto que os promotores ligam a negociação dos sítios a uma estrutura mais ampla de lavagem de dinheiro e blindagem patrimonial. Na denúncia, Orelha aparece como homem de confiança do grupo, ajudando a intermediar cobranças, repasses e negociações em benefício de Lotufo, enquanto os bens seguiam formalmente em nome de terceiros. Na avaliação do Gaeco, o mecanismo repetia a lógica atribuída ao próprio Adriano em vida: esconder a titularidade real do patrimônio atrás de laranjas e movimentar os ativos longe dos registros oficiais. Justiça tira escolta policial de viúva do ex-capitão da PM Adriano da Nóbrega O avanço desse rastreamento patrimonial embasou a nova ofensiva da investigação, que depois chegou aos mandados de prisão. Para os promotores, o caminho percorrido pelos sítios de Cachoeiras de Macacu ajudou a revelar não apenas o destino de parte da fortuna atribuída ao chefe do Escritório do Crime, mas também a rede que teria permanecido ativa para administrar, dispersar e dar aparência legal aos bens deixados por ele.