Desembarcar no Galeão virou prova de resistência

Toda vez que desembarco no Galeão, sinto que entrei em uma gincana do antigo programa do Faustão. Para alcançar o lado de fora, é preciso desviar de gente sem identificação clara, oferecendo transporte sabe-se lá para onde, pessoas oferecendo ajuda sem explicar para quê, e por aí vai. Enquanto você tenta equilibrar mochila e malas no carrinho, o espaço vai encolhendo a cada passo. Não raramente, é preciso andar em fila indiana para avançar poucos metros. Encontrar organização ali é mais difícil do que ganhar o “Quem quer ser um milionário?”, do Luciano Huck. Tiros, cueca e beija-mão: três histórias do poder no Brasil Pérolas da Zona Norte: Por que Vila Isabel e Méier são patrimônios do Rio Na segunda-feira, bem cedo, depois de uma viagem longa e cansativa do exterior, vivi uma cena que jamais imaginei. Jamais. Superada a primeira maratona, eu e minha esposa fomos pegar um táxi — como sempre, os de cooperativa. Antes mesmo de atravessar a porta que dá acesso à área externa, percebi que o primeiro motorista ou havia recusado uma corrida ou estava indisponível. Ao me aproximar, perguntei: “onde começa a fila, por favor?”. Ele respondeu com outra pergunta: se eu já tinha pego o cartão. Aquele tabelado, com anuência da Prefeitura, normalmente usado por turistas que não conhecem o trajeto ou preferem sair com o valor definido. Uma questão de escolha. “Sou do Rio, prefiro taxímetro. Pode ser?”, respondi. “Não entendi seu comentário. O que você está insinuando?”, levantou a voz. Cansado, acreditei que não tinha sido claro na comunicação. Repeti mais pausadamente. “Disse que prefiro taxímetro, que para mim é melhor taxímetro, que sou daqui e gosto de taxímetro. Não tem insinuação”. Vendo que ele queria confusão e não adiantaria perder tempo, avisei que não brigaria às sete da manhã. “Bem, fim de papo”, pensei. Mas não. Abruptamente, ele veio para cima e começa a berrar comigo e com Fernanda. “Você é moleque! O que você quer dizer com sou do Rio?”, indagou. Em segundos, o caos estava armado. Turistas ao redor assistiam, constrangidos, sem entender nada. Percebendo a escalada da situação, outros motoristas intervieram. Formaram uma barreira para impedir qualquer aproximação. Atônitos, fomos conduzidos até um segundo carro. “Nos perdoe, senhor”, disse um deles, abrindo a porta. Enquanto era contido pelos colegas, o motorista ainda nos encarava, gesticulando. No caminho para casa, refleti que, há menos de um ano, defendi nesta mesma coluna que o táxi é patrimônio do Rio e símbolo de segurança. Pois é. Viver no Rio é, definitivamente, participar de uma gincana do programa do Faustão. Resposta da Aerocoop “Lamentamos sinceramente os transtornos relatados por V.Sa. e por sua esposa durante atendimento realizado no Aeroporto Internacional do Galeão. A AEROCOOP – Cooperativa dos Condutores Autônomos de Táxis Convencionais que operam no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro – preza pela qualidade do atendimento prestado aos passageiros, turistas e usuários do serviço de transporte, sendo esta uma das diretrizes fundamentais de sua atuação institucional”, disse em nota. Alexandre Merlim, recém-eleito presidente da cooperativa do tal motorista, venceu as eleições prometendo melhorar os serviços. Riogaleão se pronunciou “O RIOgaleão repudia e não compactua com o comportamento relatado envolvendo um taxista que atua no aeroporto. Embora a cobrança pela tabela regulamentada pela Prefeitura seja legal, o passageiro tem o direito de optar pelo uso do taxímetro. Situações como essa são inaceitáveis e não refletem o padrão de atendimento esperado pela concessionária. A cooperativa de táxis credenciada foi notificada e o profissional envolvido no caso já foi afastado de suas atividades no local”, enviaram. Prefeitura repudia “A Secretaria Municipal de Transportes (SMTR) informa que repudia qualquer tipo de ameaça ou comportamento inadequado por parte de profissionais que atuam no transporte de passageiros(....) A Superintendência Executiva de Táxi e Transporte Individual de Passageiros (SETT), vinculada à SMTR, tem feito diariamente ações de fiscalização e orientação no Aeroporto Internacional do Galeão, para garantir que os passageiros sejam atendidos com respeito, segurança e transparência na cobrança das corridas”, diz parte da nota. Agradecimento Não é um fato como esse que abala minha confiança nos táxis, que continuam sendo um pilar de segurança para o turista. Agradeço aos taxistas da Aerocoop que evitaram o pior. Initial plugin text