Além das roupas: chita é matéria-prima de criação de artista do Salgueiro exposta na Tijuca

A relação da Tijuca com a história da chita no Brasil ganha nova leitura em uma instalação da artista visual Mayara Velozo, nascida e criada no Morro do Salgueiro. A obra “Circuito”, que integra a exposição “Tecendo histórias — Arte têxtil latino-americana”, entrou em cartaz no último sábado no Sesc Tijuca e retoma a memória da primeira fábrica de chita do país, instalada no início do século XIX na região da atual Praça Saens Peña. Premiado em Berlim: 'Hora do recreio' leva histórias de estudantes da rede pública do Rio para o cinema Escola Móvel de Tecnologia: 150 vagas gratuitas em cursos de IA, drones e games na Tijuca A fábrica foi aberta por volta de 1820, no local que, antes de ser conhecido como praça, era o Largo da Fábrica das Chitas. Na prática, tratava-se de uma estamparia que aplicava grandes motivos florais coloridos sobre tecido simples de algodão importado da Índia. Barata e popular, a chita se espalhou pelo vestuário das classes trabalhadoras e marcou a cultura visual brasileira. — A minha relação com a chita vem a partir do meu território. Não necessariamente da Praça Saens Peña em si, porque a Rua General Roca atravessa ali e também desemboca no Morro do Salgueiro — conta Mayara. É essa história que inspira “Circuito”, uma instalação interativa que convida o público a tocar, descansar e se aproximar do tecido. — As obras são chamativas, mas também voltadas para acolher os corpos. São obras táteis. Você pode usar a minha obra para tocar, descansar, sentir. Tem uma relação íntima com o público. Diferentemente de outras peças em exposição — diz Mayara. Integrante do Caxambu do Salgueiro, manifestação cultural reconhecida como patrimônio imaterial pelo Iphan, ela lembra que o tecido também está presente em práticas culturais e religiosas. — Usamos a chita em religiões de matriz africana. Também tenho interesse botânico nas flores presentes nas chitas, o que dialoga com a minha pesquisa com ervas medicinais. É como se eu pudesse dar corpo e forma às minhas relações interpessoais e territoriais através dos tecidos — diz. Mayara participa ainda do grupo das Erveiras do Salgueiro, que promove encontros e trocas de saberes sobre plantas e cultivo. A artista reitera, também, a importância para ela de expor no Sesc: — Eu frequento o Sesc desde a infância, com a minha família. É uma memória afetiva. Meu pai é gari há mais de 30 anos, então a gente tinha os cartõezinhos. Era de fácil acesso. Promovida pelo Instituto Artistas Latinas, a exposição reúne obras de 13 artistas de Argentina, Brasil, Guatemala e Peru. Em comum, elas atualizam técnicas ancestrais de tecelagem, costura e bordado na arte contemporânea. Segundo a curadora Francela Carrera, a arte têxtil vive hoje um momento de renovação no circuito artístico. — Antes considerada uma arte menor, ela agora ganha força não apenas pela dimensão estética, mas também pelo sentido político que incorporou — afirma. Com expografia assinada por Gisele de Paula, arquiteta da 36ª Bienal de São Paulo, a mostra é dividida em cinco núcleos curatoriais. Um deles, “Uma geografia sensível”, reúne obras que exploram narrativas de território por meio de cartografias íntimas e reflexões sobre ancestralidade e pertencimento — eixo em que se insere o trabalho de Mayara. Para a artista, participar da mostra também representa um diálogo com outras criadoras latino-americanas. — Acho que, para além do quadrado sudestino, estou representando também o Brasil, porque a chita circulou por todas as regiões. Trabalhar com mulheres é muito mais seguro, muito mais gostoso, confortável. O instituto está fazendo essa ponte com artistas do sul de uma forma interessante para a arte contemporânea — diz. A exposição segue em cartaz até 14 de junho, com entrada gratuita. Initial plugin text