O chefe da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, afirmou que a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã "causou o mais grave choque energético de todos os tempos" e alertou, em entrevista ao jornal Financial Times, que o restabelecimento total do fluxo de petróleo e gás no Golfo Pérsico "pode levar seis meses ou mais". O cargo de Birol o colocou no centro dos esforços globais para manter o fluxo de combustível e energia apesar do bloqueio em curso no Estreito de Ormuz, rota marítima vital para o escoamento de um quinto (20%) do petróleo e gás natural liquefeito (GNL) consumido mundialmente. Ele avalia que o conflito é "a maior ameaça à segurança energética global da História". EUA calculam próximos passos: Trump avalia ações terrestres na Ilha de Kharg para liberar Estreito de Ormuz e dentro do Irã para confiscar urânio enriquecido Guerra no Oriente Médio: Trump ameaça destruir campos de gás do Irã após ataques contra o Catar; EUA cogitam reforço militar no Golfo, diz agência Nas últimas três semanas, dezenas de refinarias, campos petrolíferos, centrais de gás, portos e outras infraestruturas energéticas foram danificadas por ataques de mísseis e drones no Golfo Pérsico. Esses ataques se intensificaram nos últimos dois dias, com o Irã visando algumas das instalações de energia mais importantes do Oriente Médio em retaliação ao ataque de Israel ao campo de gás de South Pars, localizado no sudoeste do país, que é a maior reserva de gás conhecida do mundo e fornece quase 70% do gás natural doméstico da República Islâmica. Em represália, o Irã atacou Ras Lafan, no Catar, o maior complexo industrial e porto de exportação de GNL do mundo. Também houve ataques na quinta-feira contra duas refinarias de petróleo no Kuwait e contra uma instalação de petróleo no porto de Yanbu, no Mar Vermelho, usada pela Arábia Saudita para exportar óleo bruto e evitar o Estreito de Ormuz. Além de essencial, o Estreito é extremamente vulnerável a ataques. Tem apenas 34 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito, obrigando todos os navios a passarem bem próximos à fronteira sul do Irã. Seu fechamento elevou o preço do barril de óleo bruto para mais de US$ 110. Na semana passada, ao menos seis navios foram atacados na região, três deles a alguns quilômetros da passagem e um deles no cruzamento do Estreito de Ormuz. Mapa com navios que sofreram danos no Golfo Pérsico AFP Entre as infraestruturas afetadas na região estão Ras Tanura, maior refinaria de petróleo bruto da Arábia Saudita, fechada temporariamente após um ataque de drones nos primeiros dias da guerra; Ruwais, nos Emirados Árabes Unidos, que é uma das maiores refinarias do mundo, onde um incêndio provocado por um ataque de drone levou ao seu fechamento como medida de precaução. O especialista, que também ajudou a moldar a resposta da Europa à crise do gás após a invasão da Rússia à Ucrânia, afirmou ao FT que o volume de gás interrompido pelo conflito no Golfo é o dobro do que a Europa perdeu para a Rússia em 2022. Além disso, destacou que a quantidade de petróleo travada pelo bloqueio marítimo é maior do que a perdida durante os dois choques da década de 1970, que desencadearam recessões e racionamento de combustível em todo o mundo. Initial plugin text Apesar do aumento do preço da commodity, ele acredita que políticos e mercados ainda estejam subestimando a dimensão da crise e que o problema se agravará a cada dia que o Estreito de Ormuz permanecer ameaçado sob ameaças de ataques iranianos a navios comerciais que tentem cruzar a passagem. Mesmo que o conflito termine e o estreito seja reaberto, Birol garante que “levará muito tempo” para que os campos de petróleo e gás, muitos dos quais foram fechados ou danificados, voltem a operar. “Alguns [locais] levarão seis meses para estarem operacionais, outros muito mais tempo”, disse ele. Além do petróleo e gás, a escalada do conflito na região também tem afetado o fornecimento mundial de fertilizantes para plantações, produtos petroquímicos para plásticos, roupas e manufatura, além de enxofre e hélio, destacou o especialista ao FT, acrescentando que essas commodities "são vitais para a economia global”. (Com AFP e Bloomberg)