O Brasil negociou nesta sexta feira 501 MW em novos contratos de energia de usinas termelétricas a óleo diesel, óleo combustível e biodiesel. Foi a segunda etapa do Leilão de Reserva de Capacidade realizado esta semana pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e pelo Ministério de Minas e Energia (MME). A Petrobras foi a maior vencedora com oferta de 332,5 MW. O preço médio foi de R$ 831.251,52 por MW/ano e o deságio foi de 50,14%, dez vezes maior do que na etapa d últimaquarta-feira. A receita fixa a ser recebida pelos seis vencedores no leilão soma R$ 229,9 milhões. Nesse leilão, como a energia foi contratada de usinas já existentes, o investimento previsto é zero. Além da Petrobras, CEP Energia, Utexavantes, Canoas Diesel, Xavantes Aruanã e Petrolina também venceram o leilão. — A nova rodada do leilão, com foco nas térmicas existentes a base de óleo diesel, a despeito de todo movimento em sentido contrário e questionamentos, ocorreu com deságios relevantes em relação ao preço mínimo. Teremos considerável expansão do parque gerador e um reforço de segurança no funcionamento do setor elétrico com redução do risco de descontinuidade no curto, médio e longo prazo — disse Wagner Ferreira, sócio do CBS e advogado especialista no setor elétrico. Para óleo combustível e óleo diesel, foram negociados contratos com período de fornecimento de três anos, com início em 1º de agosto de 2026 e 1º de agosto de 2027. Para biodiesel, os contratos iniciam em 1º de agosto de 2030, com período de suprimento de dez anos. Esse tipo de certame, que não acontecia desde 2021, tem como objetivo reforçar a segurança do sistema elétrico nacional garantindo o atendimento em momentos de maior necessidade, explicam os especialistas. As usinas recebem uma remuneração fixa para estarem prontas a operar quando necessário. Na prática, esse tipo de leilão representa uma espécie de “seguro de capacidade”. Com o crescimento das fontes de energia eólica e solar nos últimos anos, que são intermitentes (ou seja, dependem do clima), o país passou a precisar de usinas que possam entrar em operação imediatamente quando acontecer queda na geração solar e eólica ou em horários de pico, onde há aumento de demanda. Em 2021, foram contratados 7,7 GW de potência com deságio de 15,34%. Um novo leilão desse tipo tinha sido marcado 2022, mas acabou sendo cancelado. — O leilão de reserva de capacidade, diferente dos demais leilões de energia, tem o objetivo de contratar o fornecimento de energia para momentos de pico de consumo e/ou de queda de geração, para evitar apagões — explica Diogo Nebias, advogado especialista em contratos de infraestrutura e sócio do Panucci, Severo e Nebias Advogados. Duas etapas O leilão atual foi realizado em duas etapas. Na quarta-feira passada, já tinham sido negociados quase 19 gigawatts (GW) de potência em novos contratos para usinas termelétricas e hidrelétricas. Foi a maior contratação já realizada pelo setor elétrico do país. Ao todo, 100 empreendimentos, novos e existentes, foram contratados, totalizando R$ 64,5 bilhões em investimentos, segundo informações da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). Eneva, Petrobras e Âmbar Energia, do grupo J&F, foram os principais destaques desse leilão, já que juntas somaram cerca de 9 GW de potência contratada no leilão. Foram recontratadas diversas termelétricas já existentes, como Norte Fluminense e Santa Cruz, da Âmbar Energia (do grupo J&F), além de Nova Piratininga, Juiz de Fora, Seropédica, Termomacaé e Termobahia, da Petrobras. O preço médio ficou em R$ 2,3 milhões por MW ao ano, com desconto de 5,52% em relação ao teto estabelecido pelo governo, e esse deságio, segundo especialistas, sinalizou baixa concorrência. As térmicas a gás natural e a carvão representaram a maior parte da potência contratada, em torno de 16,5 GW. Já as hidrelétricas somaram 2,5 GW. O custo para o sistema elétrico será de R$ 40 bilhões. A Abrace Energia, associação que reúne grandes consumidores de energia, calculou que haverá impacto médio na tarifa de energia dos brasileiros de aproximadamente 10% e estimou que a contratação de capacidade foi excessiva. De acordo com a consultoria Thymos, especializada em energia, o resultado do leilão representou um avanço importante na recomposição da potência firme, especialmente diante do crescimento da demanda e de maior participação de fontes renováveis. No leilão de quarta, chamou atenção a presença relevante de hidrelétricas nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste, incluindo projetos com prazos superiores a 20 anos. — O movimento reforça o reconhecimento do valor desses ativos como fontes de capacidade firme e confiável, fundamentais para a segurança operativa em um cenário de maior penetração de fontes renováveis intermitentes — analisa Fillipe Soares, diretor da Thymos Energia. A Aneel rejeitou um pedido de contestação contra o edital do leilão feito pelo Instituto Nacional de Energia Limpa (Inel). O Inel solicitou cálculos e justificativas para a revisão dos preços do certame, e contestou a falta de priorização de fontes mais sustentáveis, além da transparência na divulgação da demanda a ser contratada. Mas a Aneel rejeitou o pedido, e manteve as regras do leilão, sem alterações.