Após fala de Lula, aliados dizem que PSB não irá recuar da vice e alternativa de Alckmin é 'voltar para casa'

A manutenção do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), na chapa que concorrerá à reeleição em outubro continua sendo tratada como prioridade máxima dentro do partido, mesmo diante do pedido público do presidente Lula (PT) para que ele avalie uma candidatura ao Senado por São Paulo. Eles estiveram juntos em pronunciamento na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, nesta quinta-feira, 19, que confirmou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, na corrida pelo governo do estado. — Eu ficarei imensamente feliz em ter o Alckmin vice outra vez. É um companheiro que eu aprendi a gostar, de muita lealdade, com muita competência de trabalho, um executivo extraordinário, ele só me ajuda. Mas você tem que conversar com o Haddad para saber onde colheremos mais frutos dele. Se ser candidato ao Senado, sabe, ajuda mais — afirmou Lula. Dirigentes do PSB optaram por não rebater publicamente o assunto, mas admitem, sob reserva, que o presidente tensiona a relação e gera certa pressão e constrangimento com Alckmin. Isso porque, segundo interlocutores, o presidente nacional da sigla, João Campos, prefeito de Recife, deixou claro em reunião recente com Lula que o único ponto não negociável da aliança eleitoral passa pela manutenção do vice-presidente no cargo. O partido, nesse sentido, não pretende criar empecilhos para a segunda vaga ao Senado em São Paulo, nem pela composição com Haddad, assim como se coloca à disposição para impulsionar a campanha paulista do PT. Mas, segundo afirmam essas fontes consultadas pelo GLOBO, a alternativa de Alckmin, caso seja preterido em nome de uma articulação com uma sigla do Centrão, como o MDB, seria “voltar para casa”, e não encarar as urnas para outra função pública. Há dúvidas sobre o objetivo de Lula com esse movimento político. Um aliado próximo de Alckmin, desde os tempos de PSDB, entende que a posição dele segue a mesma: só aceitaria disputar a reeleição. As falas, desse modo, teriam mais o intuito de “fazer a turma se mexer” para resolver a equação política em São Paulo, com os ministros Márcio França (Empreendedorismo), do PSB, e Marina Silva (Meio Ambiente), da Rede, cotados para o Senado e a vice de Haddad. A filiação de Simone Tebet ao PSB, com a consequente troca de domicílio eleitoral do Mato Grosso do Sul para São Paulo, é dada como certa. França, preterido ao governo do estado, não deseja ser vice de Haddad, e sim tentar novamente a cadeira de senador. Circula nos bastidores a informação de que ele e Marina também não querem concorrer a deputado federal, mas há debate em andamento sobre a possibilidade de continuarem no governo — mediante troca de ministério, no caso do pessebista. No lado dos petistas, contudo, as declarações de Lula sobre Alckmin disputar o Senado foram encaradas como um sinal de que “o jogo está aberto” e que o vice-presidente, “num limite”, poderia, sim, disputar a vaga em São Paulo. Um parlamentar do PT com trânsito nas articulações do Planalto avalia, por exemplo, que o ex-governador paulista poderia aceitar a tarefa regional diante de um pedido “mais explícito” do presidente. Até duas semanas atrás, esse mesmo aliado considerava o assunto “pacificado”, com Alckmin preservado. Outro político próximo de Lula e Haddad diz que mudanças de discurso são normais para os dois lados antes da definição eleitoral. Nesse meio tempo, ele ressalta, Alckmin apareceu na liderança de uma pesquisa Datafolha para o Senado, com 31% das intenções de voto, superando nomes como Simone Tebet (MDB), Marina Silva (Rede), Márcio França (PSB) e Guilherme Boulos (PSOL), à esquerda, Guilherme Derrite (PP) e Ricardo Salles (Novo), à direita. A montagem da chapa estadual é a primeira missão da pré-campanha de Haddad, que tomou café da manhã com jornalistas nesta sexta-feira, 20. Ele afirmou no encontro que irá conversar com integrantes do PT e de outros partidos da base nas próximas semanas e que considera “natural” que Alckmin siga no cargo, apesar dos questionamentos de Lula na véspera. — Todos nós estamos muito confortáveis com a solução que foi dada em 2022, da qual eu participei intensamente. Eu sou a pessoa mais entusiasta do fato de que os dois compõem uma chapa muito importante para o Brasil. Mas eu quero ouvir a opinião do governador Alckmin sobre as nossas chances aqui e qual é a melhor composição para lograrmos êxito — disse. O imbróglio do Senado se soma ao da vice, cujo diagnóstico passa pela necessidade de ampliar o apelo eleitoral “para além da esquerda e da centro-esquerda”. Fala-se, atualmente, em um “empresário progressista”, que dialogue com o interior do estado e quebre resistências ao PT em setores conservadores do eleitorado paulista. O partido, historicamente, consegue melhores resultados na capital e em parte da região metropolitana. Dentre as alternativas no campo da política, França teria uma vantagem sobre Marina porque construiu sua carreira na Baixada Santista, governou o estado por oito meses, em 2018, e tem boa interlocução com prefeitos, destaca uma terceira fonte do PT. A campanha de Haddad avalia que o oponente ao governo do estado, Tarcísio de Freitas (Republicanos), mantém uma relação conflituosa com os governantes municipais que pode ser explorada para enfraquecer seu palanque, mesmo com uma aliança partidária ampla.