Na segunda-feira, quando perguntado sobre possíveis contatos com o governo do Irã, o presidente dos EUA, Donald Trump, foi sucinto: “pelo que sabemos, todos os líderes deles estão mortos, não sabemos com quem estamos lidando”. Três dias depois, o premier de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que “há muitos indícios do colapso do regime iraniano”. Terceira semana de conflito: Líder supremo do Irã: Mojtaba Khamenei declara 'derrota do inimigo' em mensagem de Ano Novo persa Guga Chacra: Por que a Arábia Saudita ainda não respondeu ao Irã? As declarações refletem apenas parcialmente a realidade. Sob intenso ataque há três semanas, e com dezenas de lideranças mortas, a começar por Ali Khamenei, antigo líder supremo, o regime está em seu momento mais frágil desde 1979, mas não parece perto do fim. Ao contrário de outros governos autoritários onde o poder emana da liderança, como na Líbia de Muamar Kadafi (até sua morte, em 2011) ou na Coreia do Norte da dinastia Kim, o Irã estabeleceu camadas de poder capazes de manter o funcionamento do Estado mesmo sem um comando central. Um modelo desenhado para resistir a momentos de crise. — Acho que o erro dos EUA e de Israel foi terem acreditado na própria retórica de que o Irã é semelhante a uma organização terrorista, que decapitar o regime ou remover uma ou duas camadas da elite política resultaria em paralisia e colapso — afirmou Ali Vaez, diretor do Projeto Irã no International Crisis Group, à agência Associated Press. — Enquanto isso, o Irã é um Estado com múltiplas camadas de liderança. Initial plugin text Em paralelo, movimentos apontam que elementos mais radicais devem ditar os rumos do país. A principal figura é Mojtaba Khamenei, escolhido líder supremo em um processo que envolveu disputas políticas e críticas ao fato de que ele é filho do antigo líder, Ali Khamenei, morto no primeiro dia de bombardeios: um dos pilares da Revolução de 1979 é a rejeição à sucessão hereditária. Ligado à Guarda Revolucionária, ex-líder das milícias Basij, responsável pela repressão a protestos, e com vastas reservas financeiras no exterior, sua escolha representa a continuidade da visão conservadora de seu pai, além da consolidação de um projeto que antecede o início das hostilidades com EUA e Israel. Mojtaba Khamenei, líder supremo do Irã Irna Nos últimos anos, o silenciamento da oposição, incentivado por Ali Khamenei, abriu caminho para que elementos mais radicais ganhassem força. Fracassos diplomáticos e a retomada de sanções deram munição aos que defendiam o retorno às bases revolucionárias e ao sentimento anti-Ocidente como mote central. Ações militares, como o conflito de 12 dias com EUA e Israel, em junho passado, e a atual guerra serviram como catalisadores de uma transição. — Houve uma militarização acentuada dos cargos de chefia, em detrimento do poder dos clérigos — disse Maurício Santoro, professor de Relações Internacionais e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha, ao GLOBO. — É uma circunstância bastante compreensível, visto que as guerras constituem uma ameaça para a sobrevivência do regime. Um movimento liderado pela Guarda Revolucionária, que tem como principal tarefa a defesa da República Islâmica e que expandiu seus domínios para além do campo militar, controlando parte da economia e instalando seus veteranos em cargos cruciais. Ali Larijani, que até ser morto na última terça-feira comandava na prática o Irã após o assassinato do líder supremo Ali Khamenei, era general de brigada da organização. — Pode ser do interesse do Irã não nomear um sucessor para Larijani, já que isso apenas o colocaria na mira — disse Barbara Slavin, pesquisadora sênior do Stimson Center, à rede catari al-Jazeera. — [Mas há outras figuras] que continuam influentes tanto na esfera política quanto na militar. Said Jalili, diplomata iraniano FABRICE COFFRINI/AFP PHOTO Logo depois da morte de Larijani, o nome de Said Jalili surgiu como provável sucessor, o que até agora não se confirmou oficialmente. Veterano do conflito com o Iraque, onde perdeu parte de uma perna, e diplomata de carreira, Jalili era próximo a Ali Khamenei e participou de negociações nucleares internacionais no início do século. Analistas o consideram como uma das figuras mais linha-dura no meio político iraniano, e sua escolha confirmaria a guinada radical do regime. Ahmad Vahidi, chefe da Guarda Revolucionária do Irã ATTA KENARE / AFP Outro protagonista é Ahmad Vahidi, que assumiu o comando da Guarda um dia depois que o antigo chefe, Mohammad Pakpour, foi morto em um ataque aéreo. Veterano da Guerra Irã-Iraque e membro da Força Quds, o braço da organização paramilitar para ações no exterior, ele supervisionou a repressão aos protestos de 2022 e foi descrito como um “burocrata competente” e leal ao regime. Vahidi é alvo de sanções e aparece na lista vermelha da Interpol, procurado pela suposta participação no atentado contra a sede da Associação Mutual Israelita Argentina, em 1994, que deixou 85 mortos em Buenos Aires. Conselheiro militar do líder supremo do Irã, Mohsen Rezai Reprodução Também procurado pela Interpol pelo ataque de 1994, Mohsen Rezai é conselheiro político do novo líder supremo e veterano da guerra contra o Iraque, nos anos 1980. Conservador, ele faz do antagonismo aos EUA e ao Ocidente tema central de sua ideologia e discursos. Em 2019, logo depois do Irã derrubar um drone americano no Golfo Pérsico, prometeu prender Trump, então em seu primeiro mandato, para “ser julgado não apenas pelo que fez ao nosso povo, mas por seus crimes contra outras nações”. Presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf Arash Khamooshi/The New York Times Em termos políticos, o presidente do Majlis, o Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, é um dos nomes mais poderosos associados à Guarda Revolucionária. Veterano de guerra, envolvido com episódios violentos de repressão nas ruas e de visão conservadora, ganhou notoriedade como prefeito de Teerã, quando sucedeu Mahmoud Ahmadinejad, mais tarde eleito presidente. Próximo à elite do regime, na última terça-feira, em tom de ameaça, declarou que “o Estreito de Ormuz não pode mais ser o mesmo de antes e não retornará às suas condições anteriores”. Presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, em discurso durante evento que marcou o aniversário de 47 anos da República Islâmica Presidência do Irã/AFP À sombra dos conservadores, os moderados parecem sem margem para agir. É o caso do presidente iraniano, Masoud Pezeskhian, reformista eleito em 2024 e que integrou um conselho temporário depois da morte de Ali Khamenei. Suas declarações em busca de diálogo, como o pedido de desculpas aos países do Golfo pelos ataques com mísseis e drones, foram abafadas pela intensificação das ações. E o modelo descentralizado de poder tira do presidente a capacidade de agir decisivamente. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, fala durante coletiva de imprensa em Istambul, no dia 22 de junho de 2025 Ozan Kose/AFP Já seu chanceler, Abbas Araghchi, é a voz mais conhecida da República Islâmica no exterior, é ligado à Guarda Revolucionária e considerado um tecnocrata pragmático. Defensor da via diplomática, reiterou diante das câmeras que o Irã estava pronto para a guerra caso não houvesse um acordo eficaz nas negociações com os Estados Unidos. Israel divulga imagens de ataques a infraestrutura naval do Irã Embora o regime expresse ao mundo que segue intacto, o fracasso em evitar os ataques americanos e israelenses em julho de 2025 foi o uma fragilidade difícil de esconder, e que deu força aos protestos do final do ano passado. Na atual guerra, os céus não são mais controlados pelos iranianos, e a resistência consiste em bombardeios com mísseis mais escassos e ataques assimétricos pelo Golfo, incluindo o fechamento do Estreito de Ormuz, afetando praticamente todo o planeta. Quando as armas silenciarem, resta saber como a República Islâmica irá se reerguer — pelos sinais iniciais, de uma forma que não é a esperada pelo Ocidente ou pelos países da região. — Os EUA caíram em uma “Síndrome de Delcy Rodríguez” (presidente interina da Venezuela), de que vão encontrar em Teerã alguém que, como ela, implemente uma agenda pró-Estados Unidos, sem a mudança de regime — explica Santoro. — Só que o sistema político do Irã é muito diferente, é muito mais complexo. Há camadas complicadas de relações civis e militares, há o papel dos clérigos e é um país bem mais fechado. Não se sabe, ao final, como o sistema vai reagir a uma situação de crise extrema, como essa.