De superministro com carta branca a “judas”, a relação entre o senador Sergio Moro (União-PR) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é marcada por um histórico de idas e vindas, entre afagos e críticas. O apoio bolsonarista à candidatura do ex-juiz, anunciado anteontem pelo senador por Flávio Bolsonaro (PL-RJ), é o novo capítulo da reaproximação mútua. Caso Master: STF mantém por unanimidade prisão de Vorcaro após PF apontar 'braço armado' contra adversários Crítica a Mendonça, indireta à PF e gesto à defesa: Os recados de Gilmar no voto que manteve prisão de Vorcaro Devido aos planos do governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), de se lançar à corrida presidencial, tornando-se, assim, concorrente de Flávio, o clã Bolsonaro decidiu que apoiará a candidatura de Moro, que vai se filiar ao PL, ao governo do estado. O senador deve enfrentar Guto Silva, secretário estadual das Cidades e possível candidato de Ratinho Jr. na disputa estadual. A escolha por Moro não era unanimidade dentro do PL, mas foi vista como a forma mais segura de garantir um palanque competitivo para Flávio no Paraná. Bolsonaro começou a defender o plano como forma de reorganizar a direita no estado e evitar que o grupo ficasse dependente do projeto de Ratinho Jr. A resistência interna se explica pelo histórico conturbado entre os antigos aliados. A relação de Bolsonaro e Moro começou em 2018, quando o então juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, no auge de sua popularidade pela Operação Lava-Jato, que culminou na prisão de Lula, foi convidado para ser o ministro da Justiça do novo governo que se iniciaria. Bolsonaro desejava transformar Moro em um “superministro” e anunciou que ele teria “carta branca” para nomear e conduzir ações de combate ao crime organizado e à corrupção. Mas a relação começou a azedar logo no primeiro ano de governo. Primeiro, por motivos políticos. O principal projeto de Moro era um “pacote anticrime”, aprovado no Congresso sem várias das propostas originais, em meio a queixas do ministro sobre falta de empenho do governo. Além disso, a transferência do controle sobre o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), do Ministério da Justiça para a pasta da Economia, gerou rixas entre o “superministro” e a base de Bolsonaro. Enquanto Moro reclamava da falta de apoio, o núcleo político do Planalto se incomodava com o protagonismo do ex-juiz. ‘Patrimônio nacional’ Numa tentativa de amenizar as rusgas, Bolsonaro chamou seu ministro de “patrimônio nacional” numa entrevista nos primeiros meses de gestão. Mas o seu incômodo tornou-se público em meados de 2019, quando passou a reclamar da direção da Polícia Federal e disse que não poderia ser surpreendido com notícias de investigações. O ex-presidente deixava claro a intenção em controlar o órgão: — Dou liberdade para os ministros todos. Mas quem manda sou eu — afirmou Bolsonaro, em agosto de 2019, durante discussões sobre a troca na Superintendência do Rio da PF. Após meses de atritos, Moro anunciou seu pedido de demissão em abril de 2020, enquanto o Brasil sofria com a Covid-19. Segundo disse à época, o principal motivo era a tentativa de Bolsonaro de interferir na PF, com pressões por mudanças na corporação e acesso a informações. A exoneração do diretor-geral Maurício Valeixo, indicado por Moro, foi o estopim. Na saída, ele disse que precisava “preservar a biografia”. Em entrevistas, criticou a suposta omissão no combate à corrupção. — Essa agenda anticorrupção não teve um impulso por parte do presidente da República para que nós implementássemos — afirmou. As acusações motivaram um inquérito do STF, que resultou na divulgadão do vídeo de uma reunião ministerial na qual Bolsonaro afirmava que não esperaria prejudicarem sua família ou seus amigos só “porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha”. No dia em que prestou depoimento à PF sobre suas acusações, Moro foi chamado de “judas” por Bolsonaro: — O Moro tem compromisso com o próprio ego e não com o Brasil. Com o conflito deflagrado, Moro passou a ser alvo de bolsonaristas, que o acusavam de traição. No final de 2021, ele anunciou sua pré-candidatura à Presidência, que não se concretizou, e voltou a receber ofensas do então presidente, que o chamou de “idiota”. A trégua veio na reta final da campanha eleitoral de 2022, quando Sergio Moro declarou apoio a Bolsonaro e compareceu ao debate da Band, no segundo turno, como um dos "assessores" do então presidente. — Apaga-se o passado, qualquer divergência que por ventura tenha ocorrido. O Sergio Moro foi uma pessoa que realmente mostrou o que era corrupção no Brasil — afirmou Bolsonaro, no dia 4 de outubro de 2022, sobre a reaproximação. Com a derrota de Bolsonaro, os dois voltaram a se distanciar, mas mantiveram uma relação amistosa. Eleito senador, Sergio Moro passou a ser uma das vozes mais firmes da oposição a Lula. Ano passado, quando o STF condenou o ex-presidente a 27 anos de prisão por tentativa de golpe, Moro criticou e disse que as "penas são excessivas".