O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto admitiu ter mantido relações sexuais com a esposa, a PM Gisele Alves Santana, na véspera da morte dela. A informação foi confirmada ao GLOBO pela defesa do oficial, preso sob suspeita de feminicídio. Neto tinha afirmado anteriormente que, desde agosto, eles não dormiam no mesmo quarto, viviam “como irmãos” e que ele teria tentado terminar o relacionamento com ela na manhã da tragédia. Confrontado com um laudo pericial que encontrou espermatozoides na vítima, ele confirmou a relação. A defesa afirma que Neto não se contradisse, porque não teria sido questionado especificamente sobre uma eventual relação íntima na véspera. "O investigado afirmou em todas as suas versões que o casal dormia em quartos separados há meses, que não havia mais relação conjugal e que a manhã do dia 18 foi marcada exclusivamente por uma conversa sobre separação, sem qualquer contato íntimo", dizem os advogados. Durante a ocorrência, enquanto a esposa era atendida, Neto narrou ao Tenente Lucas o que teria acontecido e falou sobre a noite anterior: (transcrição da câmera corporal) “por volta das 18/19 horas a gente sentou na sala, a gente tava vivendo juntos ali e praticamente não se conversava. Dai ontem eu chamei ela e falei: olha do jeito que a gente ta vivendo não compensa, eu to gastando ai, não é pelo dinheiro, mas eu to gastando uns 7 mil por mês para viver como dois estranhos. Eu quero me separar, falei para ela. A gente conversou durante duas horas. Dai eu fui dormir era cedo, antes das 9. Eu não sei se ela foi dormir, se ela foi pro quarto.” "A presença de espermatozoides no canal vaginal de Gisele é dado pericial de relevância central para a investigação", diz o inquérito policial do caso. "O investigado afirmou em todas as suas versões que o casal dormia em quartos separados há meses, que não havia mais relação conjugal. (O resultado) é absolutamente incompatível com essa narrativa", afirma o documento. O tenente-coronel foi preso na última quarta-feira, 18, suspeito de feminicídio e fraude processual no caso da morte da esposa, encontrada com um tiro na cabeça no mês passado. Neto afirma que a companheira cometeu suicídio, versão contestada pela investigação. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, "as provas periciais e médico-legais, analisadas pela Polícia Técnico-Científica, indicam a inviabilidade da hipótese de suicídio, além de apontarem indícios de alteração do local do crime". Familiares relataram à polícia que o relacionamento entre os dois era conturbado. Em depoimento, a mãe de Gisele afirmou que a filha era proibida pelo marido de usar batom, salto alto e perfume. Mensagens divulgadas pela defesa da família mostram que a soldado temia as crises de ciúmes do marido. “Qualquer hora ele me mata”, escreveu ela a uma amiga, segundo os advogados. A decisão de investigar a morte ocorreu após um laudo necroscópico, realizado após a exumação do corpo, apontar lesões no rosto e no pescoço da vítima. Segundo peritos, há sinais de que Gisele desmaiou antes de ser baleada na cabeça e que não apresentou defesa. O tenente-coronel afirmou que, naquele dia, acordou por volta das 7h e foi até onde Gisele dormia. Segundo ele, os dois estavam passando as noites em quartos separados há cerca de oito meses. — Eu falei para ela: "Olha, depois daquela conversa que a gente teve ontem, eu acho melhor a gente se separar mesmo". Ela levantou um pouco exaltada, me empurrou para sair do quarto e bateu a porta com muita força — afirmou. Ele contou que então foi tomar banho e, quando estava dentro do banheiro, ouviu um disparo. Diz também que naquele momento saiu do banheiro e viu Gisele no chão com uma poça de sangue em volta da cabeça. — Botei uma bermuda, peguei o celular e saí do banheiro. A primeira coisa que eu fiz foi abrir a porta do apartamento. Quis deixar 100% aberta para dar toda a transparência e dali liguei primeiro para os bombeiros, depois para o Samu e depois para a polícia — disse. Uma vizinha do casal, no entanto, afirmou à polícia que acordou às 7h28 depois de ouvir um estampido único e forte vindo do apartamento. De acordo com o portal g1, a primeira ligação dele foi para a PM, registrada às 7h57. Minutos depois, às 8h05, ele ligou para o Corpo de Bombeiros. As equipes chegaram ao local às 8h13. Questionado sobre o depoimento da vizinha, ele afirmou que não são sabe "se ela estava sonolenta e viu o horário errado". — Você acredita no que ela fala ou no que eu estou falando? — perguntou o tenente-coronel durante entrevista ao apresentador Eleandro Passaia, do programa Balanço Geral, da TV Record. — Não tenho porque mentir. Não sei se ela estava sonolenta e viu o horário errado. Nao posso falar pelas outras pessoas. Posso falar por mim. Suspeitas Os socorristas conseguiram reanimar a policial no local. Enquanto tentavam salvá-la, relataram que o marido permaneceu ao telefone com superiores e não demonstrava desespero. Um dos socorristas relatou em depoimento ter estranhado a cena e decidiu fotografá-la. Segundo ele, a arma estava encaixada na mão de Gisele de uma forma incomum para casos de suicídio. Outros elementos também chamaram a atenção. O sangue já estaria coagulado e o cartucho da bala não foi encontrado. Embora o tenente-coronel tenha afirmado que estava no banho no momento do disparo, ele estaria seco e não havia água no chão do apartamento. Às 8h55, Gisele foi retirada do prédio ainda com vida, em uma maca. O tenente-coronel aparece sentado no corredor. Testemunhas relataram que, nesse intervalo, ele teria tomado banho, mesmo após orientação de policiais para que não o fizesse. Policiais militares que participaram da ocorrência também afirmaram que o oficial voltou com forte cheiro de produto químico. Durante a entrevista à TV Record, ele alegou que a morte da mulher havia feito a pressão dele chegar a 18 por 20 e que, durante a ocorrência, "alguém" sugeriu que ele tomasse um banho quente. Limpeza do apartamento De acordo com testemunhas, três policiais militares foram ao imóvel horas após a ocorrência para limpar o local — o que pode ter comprometido a preservação da cena. Conforme apurou o G1, as agentes chegaram ao prédio às 17h48 do dia 18 de fevereiro, mesmo dia em que Gisele foi baleada, e entraram no apartamento acompanhadas por uma funcionária do edifício. O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto alegou que o apartamento já estava liberado pela perícia e que a limpeza foi ordenada pelo "comandandate" dele na PM para preservar a família de Gisele, que buscaria pertences dela no imóvel. — O meu comandante, para preservar a família da Gisele que ia lá retirar roupas dela, pensando no bem estar dos pais dela, cordialmente, pediu para que fossem lá fazer a limpeza — alegou o tenente-coronel.