Em um momento de efervescência na carreira, Lorena Comparato transita com desenvoltura entre o riso e o abismo. Conhecida por dar vida à expansiva Gláucia em "Rensga Hits", a atriz também se lança a personagens densas e controversas, como no filme "Uma Garota de Classe", em que interpreta Elize Matsunaga, evidenciando um percurso que se constrói justamente na recusa à zona de conforto. Paula Cohen fala sobre trajetória entre teatro, cinema e direção: 'Sou uma devota do ofício de atuar' Luisa Perisse revela como construiu sua identidade na comédia: 'Desde cedo, quis traçar meu próprio caminho' Mais do que acompanhar as transformações do mercado, Lorena parece interessada em tensioná-lo, seja ao escolher papéis que exigem mergulho, seja ao assumir múltiplas funções nos bastidores. O resultado é uma trajetória que reflete inquietação, rigor e uma busca constante por sentido naquilo que faz. "Sinceramente, se você quiser me elogiar como atriz é só você me chamar de camaleônica que você conquista meu coração", diz ao GLOBO. Para Lorena, a alternância entre comédia e drama não é ruptura, mas continuidade. "Eu encaro essa mudança de registro como algo natural na minha trajetória. [...] A comédia exige um rigor técnico enorme, de tempo, escuta, precisão e isso me prepara muito pro drama [...] mas não consigo ver a minha comédia sem drama e o meu drama sem comédia. Essa complexidade humana me atrai", afirma. O motor, segundo ela, está no risco: "Acho que a atuação perde a graça quando deixa de provocar risco." Lorena Comparato vive fase intensa e fala sobre construção de uma carreira versátil Divulgação Jeff Porto Essa disposição para o desafio se estende também à forma como ocupa o audiovisual. Além de atuar, Lorena escreve, produz e traduz, um acúmulo que, longe de dispersá-la, amplia sua compreensão do processo. "Ter esse posicionamento de artista polvo me faz ter uma visão muito mais ampla de todo o processo criativo. Quando eu entro num projeto, não tô pensando só na minha personagem, mas no todo", destaca. Essa perspectiva impacta diretamente suas escolhas. "Passei a escolher projetos com mais critério, pensando não apenas no papel, mas na história que tá sendo contada [...] e no impacto que aquilo pode gerar", acrescenta. Se, por um lado, a demanda por artistas versáteis parece crescer, por outro, a atriz não romantiza o cenário. "Ainda vejo um mercado muito seletivo, preconceituoso e em crise. [...] vejo mais uma supervalorização das celebridades e da fama, do que propriamente do talento e merecimento", analisa. Para ela, destacar-se vai além da multiplicidade de funções: "O artista que se destaca hoje é aquele que tem repertório, pensamento crítico, ética de trabalho e consistência. Não adianta só ter visibilidade, é preciso ter conteúdo." Lorena Comparato vive fase intensa e fala sobre construção de uma carreira versátil Divulgação Jeff Porto Com formação sólida no teatro — "minha base, minha casa e pra onde eu sempre tento voltar" —, Lorena construiu um repertório que atravessa linguagens. No palco, aprendeu "presença, escuta, a amar o risco"; nas telas, desenvolveu precisão e economia. "Eu não separo essas experiências, elas se alimentam o tempo todo", resume. Essa integração aparece na forma como compõe personagens e também na maneira como se relaciona com o público, seja ao vivo ou mediada pelas câmeras. No cinema, a experiência de viver uma figura real e controversa como Elize Matsunaga amplia o debate sobre representação feminina. "Histórias como a de Elize Matsunaga são fundamentais porque quebram a lógica simplista de mulheres boas ou más. Mulheres são complexas, contraditórias [...] Quando o cinema se propõe a olhar pra figuras femininas controversas sem maniqueísmo, ele amplia o debate", diz, ressaltando o papel da arte como espaço de reflexão. Essa investigação de zonas desconfortáveis também marca sua relação com "Bonitinha, mas Ordinária", de Nelson Rodrigues. "Fazer uma peça de Nelson Rodrigues sempre exige coragem", revela. Sobre sua personagem, Maria Cecília, completa: "Ela é um mergulho profundo pra mim na sexualidade, na mentira e na liberdade [...] é preciso atravessar lugares desconfortáveis sem suavizar". A experiência, de acordo com Lorena, exige não apenas técnica, mas maturidade emocional. Lorena Comparato vive fase intensa e fala sobre construção de uma carreira versátil Divulgação Jeff Porto Nos bastidores, produzir se tornou tanto necessidade quanto aprendizado. "Produzir me ensinou muito a raça do que é criar", relata Lorena. Ao assumir funções além da atuação, ela passou a dimensionar o esforço coletivo por trás de cada obra. "Você passa a entender cada vez mais o tamanho do esforço coletivo necessário pra que uma obra exista", detalha. Ainda assim, reconhece o desafio de equilibrar funções: "Produzir e atuar junto, exige ainda mais fisicamente, emocionalmente e, especialmente, mentalmente." A crença na criação coletiva atravessa toda a fala de Lorena. "Eu acredito profundamente na criação coletiva. Gosto de escutar, provocar, ser provocada e construir junto. A troca é o que faz o trabalho crescer", pontua. Ao mesmo tempo, valoriza a importância de direção e estrutura: "Já aprendi com o tempo que precisamos sempre de um norte [...] pois sem essas pessoas as muitas vozes se perdem." Entre diferentes formatos — televisão, teatro e cinema —, Lorena rejeita fórmulas rígidas. "Talvez o que mude seja a dosagem de intensidade [...] mas a essência eu acho que é a mesma", ressalta, comparando a transição entre linguagens ao domínio de idiomas distintos. O preparo técnico, nesse sentido, é central: "Sou uma atriz que gosta de saber de luz, voz, câmera, caracterização, figurino, pra melhorar o meu trabalho." Ao olhar para a própria trajetória, Lorena enfatiza a impermanência como aprendizado essencial. "Tudo passa. [...] A carreira não é linear. Vamos ter pausas, 'entressafras', muitos 'nãos', frustrações, mas isso não significa fracasso", comenta. Para as novas gerações, a artista reforça a importância de rede, ética e persistência. "Ninguém constrói nada sozinho. As relações, as parcerias e a empatia são tão importantes quanto o talento", avalia. Esse entendimento acompanha uma fase de intensa produção. Lorena se prepara para a nova temporada de "Impuros" e integra o elenco do longa "O Advogado de Deus", além de investir em projetos autorais, como o curta "Teia", desenvolvido com a Cia de 4. Também se divide entre o audiovisual e o desejo de retorno aos palcos, enquanto amplia sua atuação nos bastidores como produtora e criadora. Com projetos que atravessam diferentes plataformas e formatos, Lorena projeta um futuro de expansão, sem abrir mão de suas origens. "Quero conquistar isso, trabalhando no mercado internacional, mas sem deixar jamais o nosso Brasil", declara. Entre desejos e planos, o norte permanece o mesmo. "Mais do que um papel específico, desejo continuar aprendendo, errando, evoluindo e criando obras que atravessem a mim e ao público de verdade. Pra mim, sucesso é continuar apaixonada pela arte e curiosa pelo que ainda não sei", conclui.