O uso de medicamentos conhecidos como “canetas emagrecedoras” tem crescido rapidamente no Brasil, e médicos relatam ouvir de pacientes queixas de efeitos colaterais menos conhecidos. Segundo o Conselho Federal de Farmácia (CFF), a procura por esses fármacos aumentou 88% em 2025. Embora sintomas gastrointestinais sejam os mais comuns, especialistas alertam para reações menos frequentes — e, em alguns casos, ainda pouco compreendidas — que vão de alterações no hálito a distúrbios neurológicos e visuais. Ozempic X Mounjaro: Quais são as diferenças entre as duas canetas emagrecedoras? Ozempic: 8 medicamentos com semaglutida já estão em análise, diz Anvisa Indicadas originalmente para o tratamento do diabetes tipo 2, substâncias como semaglutida e tirzepatida passaram a ser amplamente utilizadas para perda de peso. Com isso, novos relatos clínicos têm surgido, ampliando o debate sobre segurança e monitoramento. Entre os efeitos mais relatados estão os gastrointestinais, como sensação de estômago cheio, náuseas, vômitos e alterações no trânsito intestinal. — Boa parte das pessoas que usam semaglutida e tirzepatida vai enfrentar algum tipo de efeito gastrointestinal, como sensação de estômago cheio, náusea, vômito e constipação, que é o mais comum, mas também pode ocorrer diarreia — explica Paulo Miranda, médico endocrinologista e coordenador da Comissão Internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Segundo ele, esses sintomas podem ser reduzidos com a introdução gradual da medicação. — A principal forma de reduzir esses efeitos é iniciar com doses baixas e aumentar gradativamente, conforme a tolerância do paciente — afirma. Galerias Relacionadas Apesar de frequentes, esses não são os únicos efeitos observados. Casos mais raros, como pancreatite e alterações visuais associadas à neurite óptica isquêmica anterior (Naion), também vêm sendo investigados. — Ainda há conflitos nos estudos. Alguns sugerem maior frequência desses eventos em pacientes que usam as medicações, enquanto outros não confirmam. Como são eventos raros, a ciência muitas vezes não consegue entregar respostas claras — diz Miranda. Estalar as articulações faz mal à saúde? Veja o que dizem os especialistas Outro efeito que tem chamado atenção é o formigamento ou alterações de sensibilidade na pele, conhecido como disestesia. De acordo com Maria Edna de Melo, coordenadora da Comissão de Advocacy da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), o sintoma tem sido identificado com mais frequência nos consultórios, embora ainda sem explicação definida. — É uma sensação de pele dolorosa que pode acontecer no corpo todo. Em geral, é autolimitada e se resolve em poucos dias, mas pode causar desconforto importante — afirma. Ela destaca que o quadro pode exigir ajuste de dose. — Se impactar a rotina ou durar muitos dias, é caso de pensar em redução da dose ou até suspensão — orienta. Nos adolescentes, os episódios de vômito tendem a ser mais comuns do que em adultos, segundo a especialista. Além dos efeitos sistêmicos, alterações na saúde bucal também têm sido relatadas. O chamado “bafo de Ozempic”, termo popularizado nas redes sociais, descreve episódios de mau hálito associados ao uso dessas medicações. De acordo com o dentista Leonardo Acioli, a queixa tem se tornado mais frequente nos consultórios. — Nos últimos meses, temos recebido cada vez mais pacientes relatando alterações no hálito durante o uso dessas medicações — diz. Galerias Relacionadas Especialistas apontam que o problema não é um efeito direto da droga, mas consequência de alterações no organismo. O retardo do esvaziamento gástrico, por exemplo, favorece a fermentação dos alimentos, aumentando a produção de gases. A redução da saliva (xerostomia) e o refluxo também contribuem para o quadro, além da cetose, comum em dietas restritivas ou perda de peso acelerada, que pode gerar odor característico. Apesar dos relatos, a frequência exata desses sintomas ainda não é bem estabelecida em estudos clínicos, o que indica possível subnotificação. Para reduzir os efeitos colaterais, especialistas recomendam medidas como hidratação adequada, reeducação alimentar — com redução de gorduras e frituras —, fracionamento das refeições e reforço na higiene bucal, incluindo escovação, uso de fio dental e limpeza da língua. — O ponto central é sempre indicar a medicação quando o benefício supera os riscos e garantir acompanhamento médico para ajustar doses e manter a qualidade de vida — conclui Miranda.