Há não muito tempo, uma entrevista como esta dificilmente existiria. Uma diretora, mulher, aos 56 anos, vivendo uma fase de expansão criativa, acumulando projetos e ampliando território autoral, não era exatamente o roteiro principal de uma indústria que sempre priorizou homens e juventude. O audiovisual, como tantas outras áreas, foi, por décadas, um espaço onde mulheres iam amadurecendo à margem ou sendo lentamente deslocadas de cena. Hoje, a história que está sendo contada é diferente. Nomes como Chloé Zhao, Jane Campion, Kathryn Bigelow e, no Brasil, Anna Muylaert, Carla di Bonito, Gloria Pires, para ficar em algumas, mostram que o tempo vem criando camadas de complexidade e, sobretudo, proporcionando escolhas. É esse momento que vive Mini Kerti. Aos 56, ela atravessa um dos períodos mais criativos e intensos da sua carreira. Entre o documentário e a ficção, transita por projetos que vão de Dona Onete – Meu coração neste pedacinho aqui, vencedor de Melhor Direção no Festival do Rio, à série que acabou de estrear no Globoplay, Juntas e Separadas, um mergulho em amores, rupturas e vivências do universo feminino. Sem falar na celebração dos 35 anos da produtora Conspiração, da qual é uma das sócias. Mas, para além do volume de trabalhos, o detalhe está no tipo de relação que ela estabelece com eles. “Além da quantidade, tem a qualidade do que estou fazendo. São projetos que nasceram da minha vontade ou que chegaram no momento certo da minha vida”, diz. Agora, o denominador comum das narrativas está nas histórias de mulheres, de tempo, de transformação. Essa sintonia, nada casual, vem de um momento pessoal igualmente atravessado por mudanças, como a menopausa. Mini fala desse período como um novo ponto de partida, uma fase de desorganização e reinvenção. “É como se você tivesse que se achar de novo: quem é essa nova eu?”, diz. A resposta que vem se apresentando é de uma Mini zero contida. Pelo contrário. Há trabalho, há desejo, há curiosidade. E, talvez mais do que tudo, há uma nova liberdade. “Outro dia me perguntaram se eu estava amando. Eu disse: não, eu estou livre. Estou amando a minha liberdade.” E, desse lugar, ela segue contando histórias e redesenhando o que significa viver os 50+ atualmente. À Vogue, Mini fala sobre maturidade criativa, escolhas, corpo, trabalho e o prazer de continuar se surpreendendo. Vogue: Você está vivendo um momento muito fértil aos 56 anos. Como enxerga essa fase? Mini: Com certeza é um dos momentos mais intensos da minha vida. Sempre trabalhei muito, mas hoje não é só sobre quantidade. É sobre a qualidade dos projetos. O Dona Onete, por exemplo, nasceu de uma vontade minha, foi algo que eu quis desenvolver. Já o Juntas e Separadas chegou, mas tinha tudo a ver com o meu momento de vida. Foram trabalhos muito prazerosos. É um momento de muita alegria. Como foi atravessar o processo da menopausa? É um período parecido com a adolescência. Existe uma transformação hormonal muito forte e você precisa aprender a se relacionar com isso. Eu comecei a fazer muito exercício físico, entendi que era fundamental. Fiz reposição hormonal também. É como se você tivesse que se reencontrar: quem é essa nova versão de você? Tem um lado difícil, claro, mas também é uma possibilidade de reinvenção. Você pode resgatar partes suas que ficaram lá atrás. Eu sempre fui muito ligada ao corpo, já quis ser bailarina, e hoje retomei isso de alguma forma. A vida não é só sobre se você pode ou não reproduzir, é sobre viver. O que a maturidade trouxe para você na hora de escolher seus projetos? Eu ainda tenho dificuldade de dizer não (risos). Gosto de fazer coisas que nunca fiz. Agora estou trabalhando em um true crime, por exemplo, e estou achando ótimo. Mas, ao mesmo tempo, hoje consigo escolher melhor. Existe uma liberdade maior. E o que mais mudou com o tempo? A segurança. A maturidade traz repertório. Hoje eu consigo entender melhor qual é o caminho para contar uma história. Porque sempre existem muitos caminhos, e escolher faz toda a diferença. Mini Kerti nos bastidores de "Juntas e Separadas" Rachel Tanugi Você acha que mulheres contam histórias de mulheres de forma diferente? Acho que tem a ver com lugar de fala. De onde você olha, onde coloca a câmera. Em Juntas e Separadas, por exemplo, tem várias questões da menopausa, e eu tenho uma vivência que um homem não tem nesse campo. Hoje estou muito nesse lugar do feminino. É o Dona Onete, a série, o documentário da Preta… E é muito bom, porque existe uma identificação, uma empatia. Isso muda a forma de contar. Você está desenvolvendo um documentário sobre a Preta Gil. O que te move nesse projeto? Minha relação com a Preta foi muito forte. Eu dirigi os primeiros videoclipes dela, na produtora que ela criou. A Preta sempre foi uma força, uma mulher que amava a vida, generosa, livre. É uma história muito potente de ser contada — como artista, empresária, mulher. O que significa, para você, contar histórias de mulheres? Tem a ver com reconhecimento. Você olha para outra mulher e se vê ali, ou passa a admirar aquela história. A Dona Onete, por exemplo, é uma mulher da Amazônia, de 86 anos, e ainda assim existe identificação com mulheres de diferentes idades. Isso é muito bonito. Sem falar na oportunidade de reunir mulheres talentosas. Eu fiz um jantar lá em casa, tipo uma pré-estreia de Juntas e Separadas. Eram, sei lá, 20 mulheres de equipe? A produtora era mulher, a direção de produção era de mulher, a produção executiva é de mulher, a diretora de arte é mulher, o figurinista é mulher, a maquiadora é mulher... É assim, sabe? O que você mais gosta na sua profissão? Poder sair da minha bolha e mergulhar em outros mundos. Você encontra pontos em comum, cria conexão e depois compartilha isso com outras pessoas. Isso me dá muito prazer. E também poder falar de temas que antes eram silenciados, como a menopausa. Hoje você pode falar, compartilhar, e ver que não é só você que passa por isso. Como está a Mini mulher hoje, aos 56 anos? Estou trabalhando muito, esse é meu foco. Tenho duas filhas, e também vivi essa mistura da menopausa com a ideia do ninho vazio chegando e minha separação. Isso mexe com a gente. Mas hoje me sinto livre. Não estou namorando, estou vivendo, conhecendo pessoas. Estou na vida. Como você define esse seu momento? De realização, mas também surpresa. Eu quero continuar me surpreendendo. Buscando histórias, lugares, pessoas que não sejam o mais do mesmo. E o melhor da maturidade? Acho que é o autoconhecimento e a segurança nas escolhas. Você olha para trás e vê a estrada que construiu. Isso dá orgulho.