No Dia da Poesia, celebrado neste sábado, a atriz e escritora surda Juliana Rodrigues, moradora de Vila Isabel, mostra que poesia também se constrói com mãos, rosto, corpo e olhar. Tricampeã de batalhas de slam em Libras, ela transforma a Língua Brasileira de Sinais em linguagem artística e estreou nos palcos com “Onde o vento faz a curva”, em cartaz até o próximo dia 29 no Sesc Tijuca. Do barulho da Avenida Brasil ao canto das aves: Fazendinha urbana inicia visitas gratuitas na Zona Norte Estreia: Primeiro festival de artes da Ilha da Gigoia terá poesia, música e outras manifestações culturais Em cena, Juliana amplia o entendimento do que é poesia e também do que pode ser um teatro mais inclusivo. A artista de 31 anos vive sua primeira experiência profissional como atriz e manipuladora da boneca protagonista de uma montagem não verbal, em que a expressão corporal e a visualidade ocupam o centro da narrativa. O espetáculo da Cia. Teatral Milongas acompanha Maya, uma menina surda que, guiada pelos ensinamentos da avó e pela companhia de um tatu-bola, atravessa descobertas e desafios ligados à crise climática. Tecidos, estruturas móveis, ventiladores e jogos de luz criam paisagens que vão da floresta à aridez e à tempestade. Em cena, Hugo Souza, Jhonatas Narciso e Tatiane Santoro assumem múltiplos papéis e dão vida a objetos e criaturas, em um espetáculo em que a acessibilidade não é recurso, mas princípio. Juliana Rodrigues leva expressão corporal e apuro visual ao palco em espetáculo no Sesc Tijuca Divulgação/ Roberto Carneiro Para Juliana, estar no palco é mais do que uma estreia. É também uma forma de representar a cultura surda com autenticidade. Removida quatro dias após abrir: Artista compra banca de jornal em Ipanema para fazer eventos culturais, é obrigada a mudar de ponto e estrutura acaba recolhida pela prefeitura — É muito importante ter uma pessoa surda na dramaturgia de uma peça, porque isso traz representatividade e mostra novas formas de comunicação e arte no teatro. A estreia vem depois de meses de preparação. Entre novembro do ano passado e fevereiro deste ano, Juliana mergulhou em ensaios para aprender uma nova linguagem cênica: a manipulação de bonecos. — Foi um grande desafio, principalmente aprender a manipular a boneca no palco. Mas também foi uma experiência muito especial. O teatro visual, com poucos sinais e muita expressão corporal, permite transmitir imaginação, alegria, medo e humor para o público — diz. Se hoje ela leva essa linguagem ao teatro, foi na poesia que encontrou, primeiro, um espaço de pertencimento e criação. A surdez de Juliana foi identificada ainda na primeira infância, após a família perceber que ela não reagia a estímulos sonoros como outras crianças da mesma idade. Nos primeiros meses de vida, ela enfrentou episódios recorrentes de inflamação no ouvido e passou por tratamentos médicos, fatores que, segundo avaliação à época, podem ter contribuído para a perda auditiva, embora não haja uma confirmação definitiva sobre a causa. Regras para uso de patinete: Prefeitura lança decreto para regulamentar transporte A aproximação com o slam em Libras começou em 2022, em Brasília, durante o Festival Despertacular, quando participou de uma oficina com os professores surdos Edinho e Nayara. — Foi ali que eu descobri algo muito especial. Desde a infância, eu já gostava de fazer performances e imitar pessoas. Naquele momento, percebi que a poesia estava nas minhas mãos como ouro — conta. No mesmo ano, participou da primeira batalha de slam em Libras — e venceu. Depois, vieram outras duas vitórias no Rio, em 2024 e 2025, durante o Congresso Internacional do Instituto Nacional de Educação de Surdos (Coines). Em ambas as ocasiões, também saiu em primeiro lugar. Foi nesse percurso que Juliana percebeu que a poesia em Libras podia ir além da performance e se tornar uma ferramenta de reflexão sobre temas sensíveis. Entre os assuntos que já levou ao palco estão a violência doméstica e a violência sexual contra crianças, adultos e idosos. Cinema em alta: Novos cineclubes, festivais, mostras e debates põem a sétima arte em evidência na Zona Sul — Quando apresentei uma poesia em Libras sobre violência doméstica, percebi que estava transmitindo sentimentos, reflexões e uma mensagem para o público. Depois, levei outros temas sociais para o palco. Ali entendi que a poesia em Libras também pode ser uma forma de denúncia e sensibilização — afirma. Para quem nunca assistiu a um poema em Libras, Juliana explica que a construção vai muito além das mãos: — Nas mãos, aparecem os sinais que formam as palavras e as imagens. No rosto, as expressões mostram emoção e intensidade. O olhar direciona a atenção, e o corpo cria ritmo, espaço e forma visual. A poesia em Libras acontece no corpo inteiro. Tese de doutorado sobre Copacabana dá origem a livro: 'O calçadão é um milk-shake cultural' Ela também diferencia a criação poética em Libras de uma tradução de poemas escritos em português: — A poesia em Libras é criada diretamente na língua de sinais. Já a tradução é um poema que foi escrito em outra língua e interpretado para a Libras. É uma construção diferente. Além da performance, Juliana levou sua produção artística para a literatura. Em 2023, durante o Trabalho de Conclusão de Curso em Pedagogia Bilíngue, desenvolveu uma pesquisa sobre alfabetização, letramento visual e literatura surda. Desse processo nasceu o livro infantil “A sereia surda e a Libras no fundo do mar”. — Eu quis criar uma história que valorizasse a língua de sinais e a cultura surda. A ideia surgiu da importância da alfabetização visual para crianças surdas — conta. Hoje, além de atriz em formação, escritora e performer, Juliana é formada em pedagogia bilíngue e atua como auxiliar educacional. No dia a dia, trabalha com crianças ouvintes e também ensina Libras básica, aproximando o idioma de novos públicos desde cedo. — Ser pedagoga bilíngue é trabalhar com duas línguas: a Libras, que é a minha primeira língua, e o português. Na prática, isso envolve promover acessibilidade e inclusão e valorizar a cultura surda — diz. A trajetória de Juliana também passa por museus e espaços culturais da cidade. Ela já atuou em ações educativas e de acessibilidade no Museu do Universo e no Museu de Arte do Rio e em atividades em locais como Parque Lage e Museu de Arte Moderna (MAM), além de rodas de conversa e apresentações de poesia em Libras. Moradora de Vila Isabel, ela vê na Zona Norte um território importante da própria formação artística: — Vila Isabel tem uma relação relevante com a minha trajetória. Foi um espaço onde tive oportunidade de apresentar minha arte e desenvolver minha expressão em poesia em Libras. Se, por um lado, a presença de artistas surdos nos palcos ainda é pequena, por outro Juliana percebe avanços e faz questão de lembrar que acessibilidade cultural vai muito além da presença eventual de intérpretes de Libras: — Acessibilidade cultural não é só ter intérprete. Envolve comunicação acessível, estrutura adequada, formação de profissionais e participação de pessoas surdas e PcDs na organização e na programação. A acessibilidade precisa ser contínua. Nas redes sociais, onde reúne mais de 20 mil seguidores, Juliana transformou o Instagram em uma extensão desse trabalho. Ali, compartilha poesias em Libras, bastidores do teatro, reflexões sobre cultura surda e momentos do cotidiano. O retorno, segundo ela, já aparece também na plateia. — Tenho percebido mais pessoas surdas indo ao teatro para me assistir. Isso é muito significativo para mim, porque mostra que a acessibilidade e a representatividade estão crescendo — afirma. No Dia da Poesia, a artista resume o que defende em cena e fora dela: — A Libras é uma linguagem artística capaz de emocionar, provocar reflexão e transformar olhares. A poesia em Libras valoriza a cultura surda e mostra que a arte pode ser diversa, visual e acessível. O espetáculo “Onde o vento faz a curva” tem sessões às sextas-feiras, às 11h e às 15h; e aos sábados e domingos, às 16h. Os ingressos custam R$ 20 (inteira) para o público comum, R$ 18 para conveniados e R$ 14 para habilitados Sesc e são gratuitos para o público do PCG, com retirada na bilheteria da unidade, sujeita a lotação. As sessões de sábado contam ainda com audiodescrição, com disponibilidade de dez aparelhos para o público cego ou com baixa visão. Initial plugin text