Motociclista faz travessia de barco da América do Sul para a América do Norte A meta é chegar ao MetLife Stadium, nos Estados Unidos, antes do dia 19 de julho, e assistir à final da Copa do Mundo de 2026. Mas, para isso, o motociclista Ednilson Ruiz Vieira da Maia, conhecido como Beda Motero, terá que percorrer milhares de quilômetros entre Sorocaba, no interior de São Paulo, e Nova Jersey, estado vizinho a Nova York, sobre duas rodas. A saga do viajante de moto, hobby que ele alimenta desde 2003, teve início no dia 12 de novembro de 2025. De lá para cá, Beda já passou por nove países: Paraguai, Argentina, Chile, Peru, Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica e Nicarágua. Os seis primeiros foram cruzados a bordo da fiel escudeira: uma moto Yamaha Crypton 115 cilindradas. Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp Juntos, Crypton e Beda conheceram vários pontos turísticos ao longo do caminho, como Foz do Iguaçu (PR), ainda no Brasil; o Deserto do Atacama e a Mão do Deserto, no Chile; as Linhas de Nasca, no Peru; dois pontos que marcam a metade do mundo, no Equador; e o Cerro Chapecoense (onde caiu o avião com o time de Santa Catarina em 2016), a Comuna 13, a Piedra del Peñol e museus do narcoterrorista Pablo Escobar, na Colômbia. Veja o trajeto completo abaixo. Trajeto começou em Sorocaba (SP) e terminará no Alasca, nos EUA Beatriz Santos/TV TEM Enquanto estava no Peru, quase chegando ao Equador, Beda viveu o principal perrengue da viagem até aqui: um carro em alta velocidade se chocou com a moto dele e capotou quatro vezes na estrada, dando perda total, no dia 25 de dezembro de 2025. O brasileiro quebrou uma das mãos e a parte da frente da moto ficou danificada. Como o acidente ocorreu no Natal, ele só conseguiu ir ao hospital no dia 3 de janeiro de 2026, quando já estava em Guayaquil, no Equador. Foram nove dias pilotando a moto com uma das mãos quebradas, mas, mesmo assim, ele não recuou. "A ideia não era voltar. Coloquei um gesso na mão e segui rota, tomando remédio para a dor e cuidando do ferimento. Esse, para mim, foi o maior perrengue: estar em um país tão longe de casa e em um acidente tão grave. Graças a Deus ninguém morreu, mas foi um acidente muito grave", conta o motociclista, de 47 anos. Brasileiro cruza o continente americano de moto para assistir à final da Copa do Mundo Arquivo pessoal Viagem de 'baixo custo' Embora esteja viajando sozinho, o trajeto pela Rodovia Pan-Americana, que liga o Ushuaia, na Argentina, ao Alasca, nos EUA, não é de todo solitário. Afinal, o sorocabano vive encontrando amigos pelo caminho e, como já teve uma "moto-pousada" em casa e recebeu viajantes do mundo todo de graça, essas pessoas o estão hospedando de volta desta vez. "É uma reta só, mas, quando cansa, eu paro, monto a minha barraca e faço a minha comida. Tem uma 'cozinha' na moto. Ou, então, aproveito que os amigos estão retribuindo esse favor. Então, eu acabo gastando menos com hospedagem e comida. Às vezes, pago para comer em algum restaurante alguma comida local que eu não conheço ou que não é tão comum no Brasil", relata. Durante os preparativos para a jornada de "baixo custo" (como ele mesmo define), Beda calculou que gastaria de R$ 60 mil a R$ 70 mil ao todo, mas, agora que a viagem está em andamento, admite não saber quanto já desembolsou: "Não tenho nem ideia por causa da correria e, provavelmente, nem vou saber, porque não estou fazendo a conta de gastos. Não sei se já passou ou se vai passar". Para cobrir os custos, o motociclista vendeu motos e outras coisas da casa, fez rifas e tem contado com a ajuda de pessoas que o conhecem e acompanham a viagem de perto. LEIA MAIS: Motoqueiro que ajudou Jesse e Shurastey no início de viagem pretendia encontrá-los no Alasca: 'Grande amizade' Camarim específico, água de coco e ar-condicionado: como foi a gravação do filhote do interior de SP que interpretou Shurastey em cena de filme 6 mil m de altitude, frio de -12°C, mal estar e insônia: os desafios enfrentados pelos brasileiros que escalaram a 'montanha mais bonita do mundo' Veja fotos da viagem do motociclista pelas Américas Do Atlântico ao Pacífico No fim de fevereiro, Beda precisou desligar o motor da moto e fazer a travessia de barco da América do Sul para a América do Norte pelo Canal do Panamá, uma das maravilhas da engenharia moderna, que conecta os oceanos Atlântico e Pacífico, na companhia de um amigo de Itaqui (RS) que encontrou em Medelín, na Colômbia. Isso porque o Estreito de Darién, uma região de floresta densa e pântanos de 100 quilômetros entre a Colômbia e o Panamá, que interrompe a Rodovia Pan-americana, é conhecido como o trecho mais perigoso das Américas e não deve ser atravessado por terra. A região é controlada por grupos armados, sendo rota de migração ilegal, tráfico de drogas e violência. "Eu tinha as opções de fazer a passagem por avião, de Bogotá até a Cidade do Panamá, ou fazer de barco, que era mais econômica. Como eu estou viajando com pouco recurso, optei pela travessia de barco. Este foi o ponto alto da viagem. Estando no barco, consegui descer e visitar povoados do Caribe", explica. No total, foram 19 (longos!) dias de viagem de barco até Puerto de Carti, no Panamá. Uma vez na América Central, Beda retomou o trajeto de moto e, no meio do caminho, fez pausas para conhecer os vulcões da Costa Rica e uma fazenda que produz tabaco para charuto na Nicarágua. As praias de Belize, além de El Salvador, Honduras e Guatemala, também estão no roteiro. Beda fez a travessia de barco da América do Sul para a América do Norte pelo Canal do Panamá Arquivo pessoal Os anfitriões Se tudo se desenrolar conforme o planejado, a chegada ao México, um dos três países-sede da Copa do Mundo deste ano, ao lado de Canadá e Estados Unidos, deve ocorrer em abril. No país da América do Norte, o brasileiro vai se dedicar a conhecer Monterrey, Mérida e Cidade do México, passando pelo estádio BBVA, pirâmides, sepulturas de atores do seriado "Chaves", arenas de touradas e fábricas de tequila. Em seguida, no mês de maio, Beda entrará nos Estados Unidos e seguirá direto para o estádio em Nova Jersey que será o palco da decisão do campeonato mundial. Ao longo do caminho, pretende passar pelos pontos turísticos da cenográfica Rota 66, Texas, Hollywood e Miami. Nos EUA, Beda seguirá para o estádio em Nova Jersey que sediará a final da Copa do Mundo Cesar Greco É nesta etapa da viagem que começa a busca por apoio para, mesmo sem ingresso, conseguir assistir à final da Copa do Mundo in loco. "Eu queria muito ver os jogos da Copa, principalmente a final, mas é muito caro", reforça. O motociclista, que é corintiano de coração, mas também cultiva um carinho pelo Juventus da Mooca, tem boas expectativas para a atuação da Seleção Brasileira na competição e sonha em ver o atacante Neymar liderando a equipe rumo ao hexa. "Acho que o Brasil tem tomado algumas lições ultimamente e creio que vai desempenhar, vai dar o sangue. Acredito que podemos ter mais uma taça para o Brasil. Gostaria muito de ver o Neymar na Copa. Ele é um jogador que impõe respeito. Só de os outros jogadores virem ele, já impõe respeito. Acredito que ele não vai estar presente, mas gostaria muito de ver o Neymar jogar, porque nunca vi ao vivo." Initial plugin text Assim que acabar a Copa do Mundo, Beda seguirá viagem pelos EUA com destino ao Alasca, onde a moto ficará estacionada durante o inverno norte-americano. Durante o trajeto, ele também passará pelo Canadá, mas a rota pelo país mais ao norte do continente americano ainda não foi definida. Mesmo assim, o ponto-chave da visita ao Canadá será a Floresta de Placas, que abriga mais de 100 mil placas de veículos, cidades e objetos pessoais deixados por viajantes do mundo todo. Na atração turística, que fica em Watson Lake, Yukon, Beda quer fixar a placa de sua moto ao lado da placa do Fusca dirigido por Jesse Koz e o cão Shurastey, que morreram em um acidente de trânsito nos Estados Unidos, no dia 23 de maio de 2022. O sorocabano era amigo da dupla e pretendia encontrar os dois no Alasca antes da tragédia. Beda com Jesse e Shurastey, que morreram em um acidente de trânsito nos Estados Unidos, em 2022 Ednilson Ruiz Vieira da Maia/Arquivo pessoal Paixão pela estrada Os planos para a volta para casa ainda são incertos, mas a ideia é retornar a Sorocaba de avião em agosto. Por fim, Beda pretende voltar ao Alasca mais uma vez durante o verão para buscar o veículo, completando mais uma de suas já tradicionais viagens sob duas rodas. "Eu tirei habilitação de moto já para viajar. Eu via as pessoas viajando de moto e falei: 'Bom, eu quero isso para a minha vida'. Aí, em 2003, eu fui tirar a habilitação já para isso. Fui viajando de uma cidade para outra, depois de um estado para outro e, em 2014, saí do Brasil pela primeira vez. Já rodei mais ou menos uns 700 mil quilômetros de moto." A paixão pelas viagens de moto se tornou ainda mais intensa depois que o sorocabano precisou enfrentar um dos períodos mais obscuros de sua vida. Ele estava na Bolívia quando recebeu a notícia de que a mãe havia morrido de câncer, e precisou voltar para casa. Um mês depois, também foi diagnosticado com a doença - no caso dele, nos testículos. "Eu descobri em 2016 e fiz a cirurgia em 2017, mas ele [o câncer] voltou em 2018, só que no peritônio, que é uma pele que envolve os órgãos. Fiz quimioterapia até 2019. Depois, perguntei para o médico se podia andar de moto e, como ele disse que sim, fiquei 100 dias fora. Fui para Brasília (DF), Pará, Guianas e Venezuela. Aí, desci pela BR-319, que é uma das piores do mundo. Passei por São Paulo, fiz exames, e desci direto para a Argentina e o Uruguai. Só aí voltei para casa", lembra. Na época, Beda, que é divorciado e não tem filhos, trabalhava como vigilante armado, mas precisou ficar anos parado por conta do tratamento da doença. Uma vez recuperado, passou a atuar como auxiliar mecânico de torno por um ano com um único objetivo: guardar dinheiro para continuar viajando. Com o tempo, o motociclista começou a ficar conhecido no meio e passou a contar com patrocinadores, dando início ao estilo de viagem que ele faz até hoje: sempre de moto e com a ajuda dos outros. Objetivo de Beda é retornar a Sorocaba de avião em agosto Arquivo pessoal Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM