Diretor da MotoGP elogia etapa de Goiânia, admite problemas e projeta crescimento no Brasil: 'Ainda há ajustes a fazer'

Diretor esportivo da Dorna Sports (agora chamada de MotoGP Sports Entertainment Group após a compra pela Liberty Media), Carlos Ezpeleta destacou o sucesso de público no retorno da categoria ao Brasil, mas com ressalvas. Sobretudo pelas chuvas que alagaram partes do autódromo nos últimos dias e atrasaram o cronograma da sexta-feira. Segundo ele, o autódromo está 90% pronto, e os outros 10% serão ajustados no segundo ano do evento cujo contrato vai até 2030. Alguns pontos de infraestrutura e rede hoteleira também precisam ser melhorados. Desde o ano passado, a Dorna, promotora mundial da MotoGP há mais de 30 anos, passou para o controle da Liberty Media, que agora detém quase 90% das ações. O Brasil faz parte do plano expansionista da empresa americana, dona da Fórmula 1. Atualmente, são 22 corridas, sendo 14 na Europa. Como está sendo a experiência da MotoGP em Goiânia? A verdade é que está sendo uma semana super positiva, estamos muito contentes. Vim aqui pela primeira vez há dois anos e a estratégia local de fazer crescer a cidade com um evento tão importante nos encantou desde o início. Para muitos europeus, a cidade é desconhecida, mas gostamos muito desde o começo. O paddock também gostou muito da cidade, da segurança e da energia. Tivemos alguns problemas com a chuva, mas acreditamos que estarão resolvidos no próximo ano e esperamos que o tempo melhore no fim de semana. No geral, está sendo um fim de semana muito bem-sucedido e os pilotos gostaram muito da pista. Quais pontos positivos e negativos você destacaria após essa primeira experiência? O primeiro GP em um país é sempre complicado, porque o nível da MotoGP é muito alto. O nível de detalhe de uma pista é enorme, com diferenças de centímetros e milímetros, drenagem e pintura especial. O trabalho feito foi muito rápido, em apenas um ano, e tanto a MotoGP e a FIM quanto a equipe do Brasil devem estar contentes. Ainda há ajustes a fazer, principalmente finalizar obras e aspectos estéticos. Já a experiência do fã, a promoção da corrida e os eventos fora do circuito estão no mais alto nível. Quais melhorias estão previstas para o circuito? Claramente tivemos muitas complicações. Também acredito que todos sabem que a chuva que tivemos não é normal, e, na terça-feira, foi muito, muito forte. Todos estamos conscientes disso, e há um plano muito simples para resolver isso para o próximo ano, então estamos tranquilos. Cerca de 90% já está feito, só falta terminar o que restava, algo que já sabíamos desde o início que não daria tempo para o primeiro ano, como limpeza, drenagens, ajustes finais. E para a infraestrutura? O evento continuará crescendo ano a ano. Por exemplo, o plano é aumentar a capacidade de público. Era muito importante que a experiência neste primeiro ano fosse muito boa. E não é só assistir à corrida. É o acesso, o trânsito, os estacionamentos, a fan zone, os eventos no centro da cidade. Com a experiência deste ano, no próximo pode haver 10% a mais de capacidade, depois mais, e assim o evento cresce. Estamos discutindo com o governo local a ampliação da capacidade hoteleira, porque é um evento muito grande que atrai muitas pessoas e precisamos de mais hotéis na cidade. Que nota você dá para o evento no Brasil? Ainda é cedo para uma nota final, e temos uma forma de avaliar diferentes áreas. Mas a experiência global tem sido muito positiva. A promoção e a experiência dos fãs foram excelentes, com eventos na cidade e no estádio. No primeiro ano, nunca é perfeito, especialmente em circuitos novos. Há problemas com drenagem e asfalto novo, principalmente em países tropicais como o Brasil, onde o calor faz a água emergir do solo. A entrada da Liberty na MotoGP visa à expansão mundial da categoria. Qual é a importância do Brasil nessa estratégia? O Brasil sempre foi um mercado referência no motorsport. Queríamos voltar há anos e encontramos em Goiânia e Goiás o parceiro perfeito. Uma cidade espetacular, com um circuito muito próximo, uma cidade com muita energia que abraçou a MotoGP. Para um esporte global, ter o Brasil no calendário é muito importante. Tanto pelo mercado de motos, que cresce muito, quanto pelo interesse do público. É um mercado que consome automobilismo e gosta de corridas de motos. E não há melhor maneira de crescer em um mercado do que ter um Grande Prêmio. Vendo as estatísticas das motos aqui no Brasil, me disseram que uma em cada quatro motos vendidas no Brasil é comprada por uma mulher. É uma estatística super importante para nós, porque estamos crescendo muito nosso público feminino e isso é uma maneira muito boa de atrair novos fãs. Existe a possibilidade de mais corridas no Brasil? No momento, não. Nosso objetivo é expandir para outros mercados, então não está no radar ter duas corridas no Brasil no curto prazo. Será um super evento neste fim de semana, está esgotado, mas também precisamos continuar construindo ano a ano. O foco é consolidar o evento atual. Há planos para expansão na América Latina? Sim. Buenos Aires já está confirmado. Amanhã viajamos para Buenos Aires para nos reunir com o governo da cidade e acreditamos que também será um grande evento no próximo ano, provavelmente em uma época similar à do Brasil. Também há conversas com países da América Central. Existe grande interesse pela MotoGP na região. Acreditamos que a MotoGP, pelo tipo de corrida que é, pela energia, pela emoção, pela personalidade do esporte e pelas raízes latinas que temos, tem muito a se conectar com o público deste continente. Quais outros mercados estão no radar? Já temos novos eventos e não podemos adicionar muitos de uma vez, pois cada evento exige grande envolvimento. Estamos conversando com países da América Central, Sudeste Asiático, além de China, Índia e Estados Unidos, onde queremos crescer. Há muito interesse, mas novos eventos levam tempo para acontecer e queremos que os atuais continuem crescendo. Nosso negócio envolve mídia, patrocínio e promoção de corridas. Podemos ter ideias, mas precisamos convencer governos, então não é algo que se planeja rapidamente. Levará tempo para trazer novas corridas. A MotoGP pretende seguir o modelo da Fórmula 1 com séries e conteúdo? A Liberty trouxe uma experiência valiosa da F1, mas cada esporte é diferente. Somos um esporte com valores próprios. Há caminhos para atrair novos fãs, mas o que fizermos deve ser autêntico à MotoGP. O mercado de streaming mudou muito e está saturado. Estamos explorando possibilidades, mas repetir o impacto da F1 é muito difícil.