Aprovação rápida do acordo com UE coloca Mercosul no foco

A aprovação, em tempo recorde, pelos parlamentos de Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina do acordo de livre comércio com a União Europeia (UE) colocou o Mercosul no centro das atenções. Negociações avançam em ritmo acelerado com Canadá, Emirados Árabes, Japão, Indonésia e Vietnã, que buscam fechar acordos com o bloco sul-americano. Em Buenos Aires, fontes diplomáticas confirmaram que estão sendo dados passos no caminho de um acordo de livre-comércio com o Reino Unido e até mesmo a China. Acordo histórico: Com aprovação do Paraguai, Mercosul ratifica acordo comercial com a UE Alerta: Acordo Mercosul–UE pode ter ganhos neutralizados por exigências e salvaguardas europeias, alerta entidade do agronegócio Ao mesmo tempo, cresce a lista de países que buscam ingressar no bloco. O tema ainda não chegou às altas esferas do poder no Brasil, mas há movimentos em camadas inferiores que promovem a volta da Venezuela ao Mercosul. A ideia foi lançada nas redes sociais pelo presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que, na reta final de seu mandato e sem possibilidade de reeleição, também prega a incorporação de seu país ao Mercosul como membro pleno — status superior ao de membro associado, que tem desde 2004. Segundo interlocutores oficiais, há um movimento recente de aproximação de países que, diante do ambiente regional e global fragmentado, passaram a olhar para o bloco como espaço de estabilidade política e de coordenação mais estruturada. Janaína Figueiredo: O pior momento de Lula e Milei A avaliação é que esse movimento aparece em diferentes frentes. O Panamá, que está caminhando para se tornar um país associado ao bloco, tem participado no mais alto nível de forma recorrente das cúpulas recentes do Mercosul. A Bolívia tornou-se membro pleno e está na fase final desse processo. Na região, o Brasil defende a incorporação da Guiana e, em termos gerais, o Itamaraty é amplamente favorável a uma ampliação do bloco — O Mercosul representa uma opção dinâmica, que oferece muitas vantagens. A rápida aprovação do acordo com a UE indicou o compromisso do bloco com sua abertura ao mundo — explica a embaixadora Gisela Padovan, secretária para a América Latina e o Caribe. Ruídos no bloco O tratado com a UE criou o maior acordo de livre-comércio do mundo, reunindo países que, juntos, têm cerca de 720 milhões de habitantes e um Produto Interno Bruto (PIB) combinado superior a US$ 22 trilhões. Negociado por quase três décadas, o acordo foi assinado em 17 de janeiro pelos órgãos executivos de cada bloco. E, nos países do Mercosul, a chancela do Legislativo ocorreu em apenas dois meses. Editoria de Arte Outras fontes do governo Lula consideram que o Mercosul passou a ser visto como um polo de atração porque preserva uma institucionalidade mais robusta do que outros mecanismos regionais. O bloco dispõe de tratado formal, secretariado e uma estrutura consolidada no campo comercial. Também mantém uma dimensão política acumulada ao longo dos anos. Esse movimento ocorre em paralelo a uma região que hoje se sente pressionada e intimidada politicamente. A avaliação no governo é que cresce entre vários países a percepção de que é preciso preservar algum espaço próprio de articulação diante de agendas externas cada vez mais presentes. Como pano de fundo destas articulações há a nova postura do governo americano sob a presidência de Donald Trump, que explicitamente resgatou a Doutrina Monroe — postulado criado nos EUA há 200 anos e que definia os países das Américas como esfera prioritária de influência da política externa, defendendo inclusive a interferência militar nessas nações se necessário. A operação das Forças Armadas dos EUA que capturou o então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e o levou para a prisão em território americano se insere neste contexto. Na Argentina, fontes do governo Javier Milei confirmam que o país está alinhado com seus sócios do Mercosul em matéria de negociações comerciais, mas fazem um alerta: a proximidade da Casa Rosada com a Casa Branca poderia provocar ruídos dentro do bloco. Por enquanto, as negociações do Mercosul com países como o Canadá avançam sem sobressaltos. A expectativa entre os negociadores é que um acordo de livre-comércio seja assinado até meados deste ano. — Os dois lados estão muito interessados, e as conversas estão progredindo de forma acelerada — disse uma fonte diplomática em Buenos Aires. Outras incorporações ou retornos, como seria o caso da Venezuela, suspensa do bloco em 2016 por não cumprir sua cláusula democrática, devem demorar mais tempo. Em sua conta na rede social X, Petro escreveu, em 14 de março passado: “Pediremos que seja levantada a suspensão da Venezuela no Mercosul e nós, como Colômbia, faremos o pedido de entrar como membro pleno”. Em paralelo, foi criada no Parlamento do Mercosul, que se reuniu recentemente na província argentina de Córdoba, uma comissão para promover uma reaproximação com a Venezuela. A comissão é liderada pelo legislador paraguaio Rodrigo Gamarra. Em declaração ao jornal La Nación, o legislador argentino peronista Gabriel Fuks afirmou que “na medida que a Venezuela recompôs o vínculo com os Estados Unidos é razoável uma aproximação ao Mercosul”. Aval de Trump A dúvida que existe em Buenos Aires e Assunção, onde os governos nacionais são aliados incondicionais do presidente americano Donald Trump, é se ambos não esperariam ter um sinal verde da Casa Branca para avançar numa eventual reaproximação da Venezuela ao bloco. Uma fonte argentina foi taxativa: — Se Trump quiser, Milei vai apoiar. A decisão será do presidente americano. Em Brasília, a resposta dada por fontes do governo é que nem Colômbia nem Venezuela fizeram, ainda, pedidos formais. O cenário, acrescentou a fonte, não é o mesmo de 2024, quando Brasil fechou a porta do Brics para a Venezuela. — Em todo o caso, o problema será de Argentina e Paraguai. Será que vão mudar de posição agora que a Venezuela tem o apoio dos EUA? — perguntou a fonte. O Brasil foi o maior entusiasta defensor da incorporação da Bolívia como membro pleno, enfrentando resistências de argentinos e paraguaios. Com a mudança de governo no país, todos estão satisfeitos.