Celular perto da cabeça pode causar câncer? Entenda se há riscos na radiação

A relação entre o uso de celulares e o risco de câncer é uma dúvida que atravessa décadas e continua presente no imaginário popular. A preocupação surgiu nos anos 1990, quando os aparelhos começaram a se popularizar em escala global. Desde então, manchetes alarmistas, correntes de WhatsApp e boatos ganharam força, alimentando receios sobre os efeitos da radiação emitida pelos dispositivos. O tema, no entanto, já foi alvo de extensas pesquisas conduzidas por instituições científicas internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e universidades de prestígio, incluindo Harvard. Até o momento, não há comprovação de que os celulares provoquem tumores cerebrais ou outros tipos de câncer. Ainda assim, a dúvida persiste e frequentemente ressurge em debates públicos. Celular no sutiã aumenta o risco de câncer de mama? A ciência responde Canal do TechTudo no WhatsApp: acompanhe as principais notícias, tutoriais e reviews Saiba-mais taboola Mulher dormindo ao lado de celular Reprodução/Freepik Qual é o melhor celular custo-benefício de 2025 pra quem tira muita foto? Descubra no Fórum do TechTudo. Para esclarecer a questão, o TechTudo ouviu especialistas de referência em oncologia e saúde pública, que explicam de onde veio a associação entre celular e câncer, como funciona a radiação emitida pelos aparelhos, o que a ciência já comprovou e quais são os reais riscos do uso inadequado. Confira a seguir. Celular perto da cabeça pode causar câncer? Entenda se há riscos na radiação De onde vem a associação entre celular e câncer? Como funciona a radiação emitida pelos celulares? O que diz a ciência sobre a relação entre celular e câncer? Dormir com o celular perto da cabeça faz mal? Boas práticas de uso saudável do celular Conclusão De onde vem a associação entre celular e câncer? A associação entre o uso de celulares e o risco de câncer surgiu quando os aparelhos começaram a se difundir nos anos 1990. À época, havia pouco conhecimento sobre os efeitos da radiação de radiofrequência, e o temor se instalou na sociedade, muitas vezes amplificado por manchetes sensacionalistas. A falta de clareza técnica favoreceu que a preocupação se consolidasse no imaginário coletivo e continuasse circulando até hoje em fake news e mensagens em aplicativos. A oncologista clínica Camilla A. F. Yamada, coordenadora do Comitê Técnico-Científico de Neuro-Oncologia da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) e líder de Neuro-Oncologia da Beneficência Portuguesa de São Paulo, lembra que esse debate se intensificou à medida que a telefonia móvel ganhou escala. "O medo se iniciou com a utilização de celular em larga escala. O IARC, agência ligada à OMS responsável por classificar agentes cancerígenos, incluiu os celulares em 2011 no grupo 2B, ou seja, como ‘possivelmente carcinogênicos’. Isso significa que havia evidência limitada em humanos e inadequada em animais. Não há, até hoje, evidência conclusiva de que o uso de celulares cause câncer", afirma Camilla. Na mesma linha, a médica Andreia Melo, chefe da Divisão de Pesquisa Clínica e Desenvolvimento Tecnológico (DIPETEC) do Instituto Nacional de Câncer (INCA), ressalta que a comparação inicial com outras formas de radiação confundiu o debate. "Talvez a preocupação tenha vindo do conhecimento de que algumas ondas eletromagnéticas, como a radiação ultravioleta, podem provocar tumores. No entanto, a onda emitida pelos celulares não possui energia suficiente para causar dano ao DNA. Portanto, não provoca câncer", assegura. Onda emitida pelos celulares não tem energia suficiente para causar dano ao DNA, afirma médica do INCA Mariana Saguias/TechTudo O oncologista Gustavo Matos, especialista em tumores cerebrais do Hospital Sírio-Libanês em Brasília, acrescenta que havia uma percepção equivocada sobre a natureza da radiação. "Como os sistemas de comunicação operam por radiação eletromagnética, considerou-se que poderia haver potencial de causar câncer. Entretanto, a frequência utilizada, que é a radiofrequência, não é ionizante e o potencial de lesar DNA é insignificante da forma que é utilizada", completa. Na visão do neurocirurgião funcional Dr. Bruno Burjaili, formado por Oxford e pela University of Florida e integrante do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês, o medo inicial tinha lógica no campo teórico. Afinal, os telefones são usados junto à cabeça e isso levantou questionamentos. Mas, após décadas de estudos, não foi identificado qualquer aumento no risco de tumores cerebrais, benignos ou malignos, em adultos ou crianças. Como funciona a radiação emitida pelos celulares? A principal dúvida gira em torno do tipo de radiação envolvida. Diferentemente da radiação ionizante — como raios-X, tomografias ou partículas liberadas em acidentes nucleares —, os celulares emitem radiação de radiofrequência, que é não ionizante. Isso significa que ela não tem energia suficiente para romper ligações químicas ou causar mutações genéticas no DNA. Segundo a oncologista Camilla Yamada, esse é o ponto-chave para entender a segurança dos aparelhos: “A natureza da radiação emitida pelos celulares é diferente e considerada muito menos nociva”. Em comparação, exames médicos que utilizam radiação ionizante, como a radioterapia, têm potencial de induzir câncer. Mesmo em contato direto, celulares não provocam efeitos capazes de danificar tecidos vitais Mariana Saguias/TechTudo A Dra. Andreia Melo, do INCA, reforça: “A onda emitida pelos celulares não provoca ionização, não possuindo energia suficiente para causar dano ao DNA. Portanto, não provoca câncer”. Ou seja, o celular não se comporta como fontes realmente perigosas de radiação. O Dr. Gustavo Matos complementa explicando que a radiação dos celulares, por mais tempo de exposição que se tenha, não alcança o limiar energético necessário para causar lesões no material genético. O máximo efeito observado é um leve aquecimento localizado, que não tem capacidade de gerar mutações. O Dr. Bruno Burjaili concorda e acrescenta um detalhe importante: esse aquecimento pode gerar apenas desconforto temporário, como uma sensação de calor na orelha após uma ligação longa. “Mesmo em contato direto, não há efeito significativo capaz de danificar tecidos vitais”, explica. Ele menciona que apenas em cenários extremamente específicos — como um paciente sem parte do osso craniano — haveria um risco teórico de maior exposição, mas sem comprovação prática. O que diz a ciência sobre a relação entre celular e câncer? Nas últimas décadas, dezenas de estudos foram conduzidos para avaliar a possível associação. Os maiores deles, organizados pela OMS e publicados em revistas científicas de alto impacto, não encontraram aumento na incidência de tumores cerebrais relacionados ao uso de celulares. Uma pesquisa publicada pela Universidade de Harvard em 2024, por exemplo, analisou dados populacionais ao longo de décadas e concluiu que não há ligação entre a radiação dos celulares e o câncer. O mesmo resultado foi reforçado em análises divulgadas pelo The Guardian e por instituições médicas nos Estados Unidos. Pesquisas de longo prazo realizadas em diversos países analisaram o impacto do uso intenso de celulares e não encontraram aumento de casos de tumores cerebrais ou de outros tipos de câncer associados à radiofrequência Freepik Para Camilla Yamada, a classificação de 2011 da IARC foi cautelosa, mas a ausência de novas evidências desde então fortalece a conclusão de que não há risco comprovado. Gustavo Matos complementa: “Já existem estudos, o maior deles organizado pela OMS, que analisou dados de exposição a radiofrequência tanto por celulares quanto por antenas de transmissão. A conclusão foi clara: não houve aumento da incidência de tumores cerebrais”. Andreia Melo vai além e afirma categoricamente: “Não faz sentido acreditar nesse medo hoje. O uso de celular não provoca câncer”. A especialista lembra que, diante do volume de pesquisas e da consistência dos resultados, insistir nesse mito só contribui para desinformação. Bruno Burjaili também reforça que a ciência já é bastante sólida sobre o tema. Para ele, a única consequência demonstrada da radiação de celulares é o leve aquecimento local, sem efeito biológico relevante. “Mesmo com proximidade à cabeça, a energia emitida não se compara em nada com a de raios-X ou outras fontes ionizantes”, explica. Dormir com o celular perto da cabeça faz mal? Se não há risco comprovado de câncer, ainda assim há razões para cautela. A oncologista Camilla Yamada destaca que o maior perigo está no superaquecimento dos aparelhos, especialmente quando carregam debaixo do travesseiro. Isso pode gerar acidentes elétricos e queimaduras. Além disso, o uso excessivo à noite prejudica a qualidade do sono e aumenta a dependência digital. Andreia Melo, do INCA, alerta para o impacto no descanso: “Se a pessoa desperta toda vez que há uma mensagem ou aviso no celular, isso compromete o sono e, consequentemente, a saúde”. Ela destaca que noites mal dormidas elevam o risco de diversas doenças crônicas. Dormir com o celular embaixo do travesseiro ou muito próximo à cabeça não aumenta o risco de câncer, mas pode gerar superaquecimento do aparelho, acidentes elétricos e prejudicar a qualidade do sono Reprodução/Freepik O Dr. Gustavo Matos concorda e acrescenta que o risco mais concreto está em panes do aparelho, que podem causar superaquecimento. Já do ponto de vista biológico, não há motivo para preocupação com radiação. Para Bruno Burjaili, o impacto mais sério está fora do campo oncológico. “O risco definitivamente comprovado é o de acidentes automobilísticos provocados pela distração no uso do celular”, lembra. Além disso, o acesso abusivo a redes sociais, especialmente na infância, tem sido amplamente estudado, com consequências nocivas para a saúde mental e o desenvolvimento. Boas práticas de uso saudável do celular Mesmo sem comprovação de risco de câncer, os especialistas defendem hábitos de uso prudente. Camilla Yamada recomenda limitar o tempo de exposição, especialmente em crianças, além de preferir viva-voz ou fones de ouvido com fio para longas chamadas. Andreia Melo amplia a discussão e lembra que a prevenção do câncer está mais ligada a escolhas de vida: alimentação saudável, atividade física, não fumar, evitar álcool, manter vacinas em dia e realizar exames de rastreamento. “Esses fatores são muito mais relevantes do que a exposição ao celular”, afirma. Especialistas alertam que os impactos mais preocupantes do uso excessivo de celulares hoje estão relacionados à dependência digital, ao estresse e ao excesso de telas, e não a uma ligação com o câncer Reprodução/Freepik Já Gustavo Matos sugere medidas ligadas ao bem-estar cotidiano: reduzir o tempo de tela, sobretudo à noite, cuidar da postura do pescoço para evitar problemas ortopédicos, e limitar o volume em fones de ouvido para proteger a saúde auditiva. Ele também recomenda criar momentos sem celular, como refeições e convivência familiar. Bruno Burjaili acrescenta que, mesmo sem provas de riscos graves, é possível adotar cuidados simples: preferir mensagens de texto e áudio, usar viva-voz e fones, e evitar longas chamadas com o aparelho encostado diretamente na cabeça. Ele destaca ainda que os dispositivos Bluetooth emitem radiação dezenas de vezes mais fraca que a dos celulares. Conclusão Mais de três décadas após a popularização dos celulares, a ciência segue firme em afirmar: não há evidência de que o uso dos aparelhos cause câncer. As ondas emitidas são de baixa energia, incapazes de danificar o DNA ou provocar mutações genéticas. Isso, no entanto, não significa que o celular seja inofensivo. Há riscos reais, como problemas no sono, acidentes por distração e impactos na saúde mental decorrentes do uso excessivo. O caminho, defendem especialistas, não é o alarmismo, mas sim a informação: usar com moderação, adotar hábitos saudáveis e priorizar a qualidade de vida. Com informações do Havard, INCA, OMS, Sírio Libanês e The Guardian Veja também: Seu celular pode estar sendo rastreado! Saiba como descobrir e se proteger Seu celular pode estar sendo rastreado! Veja como descobrir e se proteger! Veja mais no TechTudo