Marvin incorporou à sua rotina diária diversas técnicas para melhorar sua aparência CRÉDITO, @MARV.MAXED Marvin reflete sobre sua aparência e dá a si mesmo uma nota "7 de 10". Ele acha que, com um pouco de trabalho, poderia melhorar. "Não estou satisfeito com minha pele", comenta ele. "Podemos ver as olheiras e a linha da mandíbula poderia ser melhor. Se eu consertar tudo isso, serei 9 de 10." O jovem de 26 anos é adepto do looksmaxxing. Seu dia começa cedo, com intensos treinos na academia. Depois, ele volta para casa e começa sua rotina. Depois de tomar banho alternando água quente e gelada, ele limpa e massageia o rosto com um pepino congelado. Segundo ele, isso ajuda a reduzir os inchaços, a acne e fornece mais luminosidade à pele. Em seguida, ele faz exercícios para a mandíbula e outros músculos faciais. Marvin costuma publicar vídeos para seus 35 mil seguidores no TikTok. Ele ri enquanto descreve sua rotina diária: "Este é o Zygopush", explica ele, pressionando os polegares pouco abaixo das maçãs do rosto e massageando para cima, em direção às orelhas. Ele tenta fazer as bochechas se esvaziarem. "E este é o Hunter squeeze", destaca Marvin, pressionando as têmporas com os dedos indicadores e apertando os olhos. Ele afirma que este movimento fará seus olhos terem aparência mais afilada e penetrante. "Às vezes, as pessoas me veem e pensam: 'O que este homem está fazendo?'" Influenciador costuma publicar vídeos para seus 35 mil seguidores no TikTok. CRÉDITO, @MARV.MAXED Marvin está certo de que tudo isso o ajuda a atingir a aparência que deseja: bochechas afundadas, perfil esculpido, olhos afilados e mandíbula forte e bem definida. Para ele, um homem "atinge sua melhor versão" quando se aproxima desta aparência. E destaca que deixou de ser um "carpinteiro insatisfeito com seu trabalho das nove às cinco" e passou a ser um "empreendedor online". O mundo do looksmaxxing Bem-vindo ao mundo digital do looksmaxxing, onde cada vez mais jovens se dispõem a fazer tudo o que puderem para atingir o que eles consideram um rosto e um corpo perfeito e, com isso, uma vida ideal. Muitos deles incorporaram à sua rotina uma série de hábitos diários, que variam de treinos na academia e cuidados com a pele (conhecidos como softmaxxing) até o consumo de hormônios do crescimento e peptídeos não regulamentados. Entre os mais radicais (no que é conhecido como hardmaxxing), alguns chegam até a bater nos ossos do rosto (bone smashing) ou se submeter a cirurgias da mandíbula. Eles pretendem "ascender" na hierarquia da atração, atingindo uma aparência que lembra os neandertais. Se você não se encaixar neste ideal estético (ou, pelo menos, não tentar mudar sua aparência), correrá o risco de cair na categoria de pessoas pouco atraentes, "abaixo da nota 3", como chama Marvin. Para medir seu grau de atração, Marvin emprega um aplicativo de análise facial que examina suas fotografias e indica quais traços ele poderia melhorar. Este tipo de aplicativo acumula milhares de avaliações nas lojas digitais. Para alguns homens, o looksmaxxing funciona como uma espécie de manual, que define o que é um "homem de sucesso" e, sobretudo, os passos para chegar lá. Braden Peters é um dos maiores influenciadores do planeta. Ele é conhecido como "Clavicular". O jovem de 20 anos tem mandíbula muito marcada que, no jargão do looksmaxxing, seria um giga chad, ou seja, nota 10 de 10. Ele garante que sua aparência ofusca todos os seus conhecidos. Ele está tão acima na hierarquia da atração que eclipsa qualquer pessoa que esteja ao seu redor. Possível porta de entrada para um mundo mais obscuro "Clavicular" atribui sua aparência, entre outras coisas, a ter tomado testosterona desde os 14 anos de idade e batido nos ossos da mandíbula com um martelo para supostamente remodelar a parte inferior do rosto. Os profissionais de saúde desaconselham essas práticas. Seu conteúdo e de outros influenciadores similares retirou o looksmaxxing das subculturas de nicho da internet e o levou para um público maior. Mas alguns especialistas que estudam a chamada machosfera — uma subcultura ultramasculina que voltou às manchetes com o documentário do jornalista Louis Theroux Por Dentro da Machosfera, da Netflix — acreditam que o looksmaxxing possa ser a porta de entrada para um mundo mais obscuro. O termo surgiu originalmente em fóruns online de incels, homens jovens que se descrevem como "celibatários involuntários". Nesses fóruns, circula frequentemente uma retórica misógina que culpa as mulheres pela falta de relações sexuais dos homens. Braden Peters, "Clavicular", desfilou na Semana de Moda de Nova York, nos Estados Unidos, em fevereiro de 2026 CRÉDITO, VICTOR VIRGILE/GAMMA-RAPHO VIA GETTY IMAGES O jornalista Matt Shea produziu documentários e escreveu muito sobre os riscos da masculinidade tóxica. Ele explica que pessoas como o influenciador misógino Andrew Tate (entrevistado por ele), "Clavicular" e muitos outros criadores de conteúdo masculino compartilham a mesma ideologia e a usam para ganhar dinheiro. "Eles dizem aos homens jovens que são inúteis", afirma Shea, "e se apresentam como solução". "Eles vendem cursos para aumentar o seu 'valor de mercado sexual' [SMV, na sigla em inglês], que basicamente avalia o quanto você é atraente, segundo sua própria escala." Shea explica que, quanto mais alto esse SMV, mais probabilidade você teria, segundo esta lógica, de ter relações sexuais com uma mulher. Por isso, o looksmaxxing, até certo ponto, se transforma em uma maneira de subir na hierarquia da atração. Segundo este raciocínio, se, depois de todo esse esforço, uma mulher não se sentir atraída, de duas, uma: ou você não trabalhou o suficiente em si mesmo, ou a culpa é delas. "E aqui é que isso se torna perigoso", segundo Shea. Satisfeito com a aparência '80% do tempo' Percorrendo a internet, fica claro que nem todos os looksmaxxers concordam com esta ideologia. Muitos deles afirmam não se identificar com essas mensagens misóginas. Leander só aceitou conversar com a BBC depois de deixar claro que não queria ser associado à cultura incel. Como Marvin, ele se considera softmaxxer e afirma que tenta melhorar sua aparência para se sentir bem consigo mesmo. Em 2023, depois de uma ruptura amorosa, ele começou a pesquisar sobre looksmaxxing nas suas redes sociais e desenvolveu sua própria rotina. Além de ir à academia cinco vezes por semana, ele também mergulha o rosto regularmente em água gelada para "reduzir o inchaço". Leander tenta dormir de costas e, embora diga aceitar a masturbação, eliminou totalmente a pornografia. "A pornografia se normalizou tanto entre muitos homens que acaba distorcendo totalmente sua percepção e a atração em relação às mulheres", explica ele. Leander afirma que está tentando melhorar a aparência para aumentar sua autoestima CRÉDITO, LEANDER Leander não se avalia em uma escala de 1 a 10, como Marvin. Mas ele afirma que, agora, se sente satisfeito com sua aparência "80% do tempo". Ele não quer parecer "arrogante", mas, para ele, se alguém não for "convencionalmente atraente", não há muito que o softmaxxing possa fazer a respeito. Se você pertencer a esta categoria (que ele chama de "não convencionalmente atraente" ou, segundo Marvin, abaixo de 5 de 10), Leander afirma que "pode entender por que isso pode empurrar alguém para o mundo incel", mesmo que ele não aprove. Já Tom Thebe não se considera mal posicionado em relação à sua aparência. Ele sempre se interessou por fitness e por se ver bem, mas só começou a se envolver em looksmaxxing quando começou a perder o cabelo, com 21 anos de idade. "Foi um golpe forte para minha confiança", explica o jovem, agora com 23 anos. "Eu sentia que estava fora de controle, assustado. E também faz você parecer mais velho, o que ninguém quer." Tom Thebe vem tomando peptídeos CRÉDITO, @TOM.THEBE Thebe pesquisou diferentes tratamentos e começou a tomar finasterida e minoxidil, para combater a queda de cabelos. Ambos são medicamentos legalmente aprovados, vendidos no Reino Unido com receita médica. Ele acredita que os remédios fizeram muita diferença e conta que, a partir dali, começou a se interessar pelo looksmaxxing. Agora, além da academia e de uma boa rotina de cuidados com a pele, Thebe toma injeções de peptídeos — cadeias curtas de aminoácidos ou pequenas proteínas produzidas naturalmente pelo corpo, que desempenham funções fundamentais na saúde da pele, no sistema imunológico e nos hormônios. Nos últimos meses, os peptídeos inundaram as redes sociais e até as geladeiras de muitos influenciadores. Thebe conta que toma GHK-Cu para melhorar a pele e estimular o crescimento dos cabelos e Melonatan 2 para fortalecer o bronzeado. A maioria desses peptídeos não regulamentados passou apenas por testes em animais, não em seres humanos. Isso significa que eles não são considerados seguros, nem eficazes. A Agência de Saúde e Regulatória de Medicamentos do Reino Unido (MHRA, na sigla em inglês) emitiu alertas sobre o seu consumo e aconselha as pessoas a não fazer uso deles. Thebe pesquisou diferentes tratamentos e começou a tomar finasterida e minoxidil, para combater a queda de cabelos. CRÉDITO, @TOM.THEBE Tom Thebe vive em Manchester, no Reino Unido. Ele oferece conselhos nas redes sociais sobre como melhorar a aparência. Ele pensa em lançar seu próprio negócio de assessoria, mas não se considera um looksmaxxer extremo. "O problema surge quando jovens de 18 anos observam as pessoas batendo nos ossos do rosto ou praticando looksmaxxing extremo", segundo Thebe. "Isso certamente pode prejudicar sua percepção de como deveriam se ver." "Dentro do looksmaxxing, existe todo um espectro", explica a pesquisadora Anda Solea, da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido. Ela estuda como a cultura incel pode se infiltrar facilmente na sociedade. De um lado, segundo ela, está o aspecto positivo dos homens se preocuparem com sua saúde e se manterem em forma. "Mas o problema começa quando isso passa a ser tudo o que importa e você começa a colocar sua saúde em risco para melhorar sua aparência", prossegue ela. Solea alerta que o conteúdo observado pelos jovens nas suas redes sociais, parcialmente impulsionado pelos poderosos algoritmos, pode levá-los a cantos mais obscuros da machosfera, onde se diz que eles devem praticar o looksmaxxing ou "serão objeto de ridicularização". Se, depois de todos esses esforços para melhorar sua aparência, esses homens perceberem que as mulheres continuam não se sentindo atraídas por eles, "eles começarão a odiar as mulheres porque a culpa é delas de não os quererem?", questiona ela. É neste momento que alguns podem perceber que o looksmaxxing não é para eles. Mas as experiências de Marvin, Leander e Thebe mostram que a motivação para praticar o looksmaxxing pode ter origem tanto na forma como um homem se vê a si mesmo, quanto em como ele acredita ser visto pelos demais. Com colaboração de Elena Bailey.