Morreu neste sábado (21), aos 91 anos, Juca de Oliveira. O ator e dramaturgo marcou a história do teatro e da TV brasileira. Juca de Oliveira foi internado no hospital Sírio Libanês, em São Paulo no dia 13 de março com pneumonia que foi agravada por uma condição cardíaca. O hospital não deu mais detalhes sobre o quadro. Juca completou 91 anos já internado, no dia 16 de março. Nos mais de 60 anos de carreira deu vida a personagens inesquecíveis. Deixou a cidade de São Roque, no interior de São Paulo, onde nasceu, para fazer o Ensino Médio na capital paulista. Como não sabia que profissão escolher fez um teste vocacional, que deu dois resultados. "E nesse teste vocacional eles disseram que eu não deveria fazer nem engenharia, nem medicina, e que eu deveria fazer direito. Pra meu espanto, que eu devia fazer teatro", contou Juca no Memória Globo de 2010. Ele cursou direito, arte dramática e trabalhou em banco. Tudo ao mesmo tempo. "Chega um belo dia, eu tive que optar, eu tinha que optar por alguma coisa. E, como eu tinha me apaixonado desesperadamente pelo teatro, eu resolvi optar pelo teatro". Juca integrou o histórico Teatro Brasileiro de Comédia e ajudou a construir um dos movimentos mais importantes da cultura no país. Nos anos 1960, ao lado de nomes como Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal, Paulo José e Flávio Império, Juca de Oliveira comprou este espaço, que se tornou um símbolo de resistência cultural: o Teatro de Arena. Mais do que um palco, o Arena era um lugar de ideias — e Juca de Oliveira, uma das vozes mais importantes desse movimento. Em depoimento ao Memória Globo, contou que ele e Gianfrancesco Guarnieri receberam a informação de que estavam sendo procurados. O Brasil vivia o regime militar. Os dois partiram para um auto exílio na Bolívia. Resolveram voltar quando o pai de Guarnieri foi preso e descobriram que afinal não estavam sendo procurados. "Então, essa viagem apocalíptica, extraordinariamente sofrida e angustiante foi provavelmente em vão desde o começo". De volta ao Brasil, em 1968 começou sua gestão como dirigente do sindicato dos atores. No mesmo ano, alcançou reconhecimento no teatro interpretando o cozinheiro Peter na peça "A cozinha". No cinema, foi um dos protagonistas do filme "O Caso Dos Irmãos Naves", baseado na história real de dois irmãos que foram presos e obrigados a confessar um crime que nem existiu. Mas foi na televisão, em mais de 30 novelas e minisséries, que Juca de Oliveira construiu personagens que marcaram gerações. A estreia na Globo foi em 1973 na novela "O semideus". Três anos depois, Juca de Oliveira brilhou no papel de João Gibão, que revela ter asas de anjo e voa pela cidade em cena marcante de "Saramandaia". "Era um cabo de aço, um guindaste que me pegava por aqui e eu ficava voando. O espírito de trabalho era muito bom, porque nós estavávamos fazendo pela primeira vez o realismo fantástico". Em "O clone", de 2001, deu vida ao doutor Albieri, um personagem que discutia ciência, ética e os limites da vida. Também encarnou vilões como Santiago, pai da malvada Carminha em Avenida Brasil, de 2012, e Natanael, em "O outro lado do paraíso", seu último papel em novelas há oito anos. Entre uma novela e outra, Juca de Oliveira nunca abandonou sua grande paixão: o teatro. Atuou em mais de 60 montagens e escreveu 11 textos alternando comédia, como o espetáculo "A flor do meu bem-querer", e críticas social, como "Mãos limpas". Juca nunca perdeu de vista o papel transformador da arte na sociedade. "O teatro tem como sua função social melhorar o homem. Torná-lo mais afetivo, mais generoso, mais solidário". O velório foi restrito a parentes e amigos em São Paulo. O enterro será neste domingo (22), às 11h, em um cemitério da zona oeste da cidade. "Ele é um homem das artes, né, profudamente comprometido com o teatro, com a literatura. Eu tive a honra de ser confrade dele na Academia Paulista de Letras, e era fascinante as reflexões que ele fazia sobre os grandes textos brasileiros, sobre os grandes escritores, além de ser um ator extraordinário", diz Gabriel Chalita, advogado, membro da Academia Paulista de Letras. "Meu pai era uma pessoa muito alegre, ele aproveitou muito a vida, e acho que ele partiu da melhor forma possível. Ele sempre brincava assim: 'Eu quero encontrar meus amigos lá, o Jô tá me esperando, o Paulo José, tá todo mundo ali me esperando e eu tô indo'", relembra Isabella Faro de Oliveira. Juca de Oliveira: ator e dramaturgo marcou a história do teatro e da televisão brasileira Jornal Nacional