A proliferação de serviços de inteligência artificial pode parecer assunto distante da gestão de recursos hídricos, mas a demanda de infraestrutura impulsionada pela IA aproxima os dois temas: muitos data centers que processam serviços como o ChatGPT precisam de água, seja para resfriar chips ou, indiretamente, para lhes fornecer energia. O assunto vem ganhando força neste ano após cientistas da Universidade da Califórnia divulgarem uma estimativa preocupante. Segundo eles, o pedido a um chatbot para escrever um e-mail de cem palavras consome 500ml de água doce. Os chips tipicamente usados em IA, os graphics processing units (GPUs), são muito sedentos, porque operam com alta densidade de processamento, consumindo muita eletricidade e se aquecendo rápido. Sistemas de circulação de água que os resfriam precisam ter grande capacidade de fluxo e, se a energia que eles consomem sai de hidrelétricas, é preciso contabilizar ainda a água que dá força ao sistema. A estimativa de que uma mera consulta ao ChatGPT beba meio litro de água levou em conta só data centers instalados nos EUA, mas levantou preocupação global. A consultoria Datareportal estima que há cerca de 1 bilhão de usuários de IA no mundo. Se cada um enviar três pedidos por dia a um chatbot, em 24 horas são consumidos 750 bilhões de litros, o bastante para abastecer a cidade de São Paulo por um ano. O questionamento sobre a pegada hídrica da IA só bateu às portas do Brasil, porém, quando o governo instituiu o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), por meio de medida provisória. Essa iniciativa, que reduz impostos para atrair infraestrutura de computação em nuvem, passa agora por revisão no Congresso Nacional e deve virar lei. O argumento para abrigar aqui esses enormes galpões de máquinas com luzes piscantes ligadas 24 horas por dia é que no Brasil a água é recurso abundante, e a matriz energética é renovável (sobretudo hidrelétrica), o que reduz a emissão de CO2. Cientistas, porém, questionam se isso garante que a pegada ecológica dessa indústria será necessariamente baixa no país. Meio ambiente à parte, há também a queixa de que data centers geram pouco emprego e vão ensejar disputas fundiárias nas periferias urbanas. — A proliferação de data centers não traz nenhum ganho para o país. O que a gente está fornecendo é energia barata, território e água — diz Julia Catão, coordenadora do programa de consumo sustentável do Instituto de Defesa de Consumidores (Idec). — A matriz hidrelétrica do Brasil é, em tese, limpa, mas só é renovável até certo ponto. Por causa de estiagens relacionas à crise do clima, no ano retrasado, por exemplo, a Usina de Itaipu produziu 20% menos energia. 'Não são vilões' Empresas de tecnologia, porém, argumentam que a vinda de uma indústria com alta demanda energética ao Brasil ajudaria a desenvolver a energia limpa, que nos períodos de pico é limitada pelo chamado curtailment. Essa é a expressão que o Operador Nacional do Sistema Elétrico usa quando tem de interromper a produção de plantas solares e eólicas, caracterizadas por flutuações na geração. O corte é feito por proteção contra sobrecarga. — Hoje, nós temos um excedente de oferta que poderia ser utilizado por data centers, o que geraria riquezas para o país — diz Alexandre Kontoyanis, diretor de Educação da Associação Brasileira de Data Center (ABDC). Segundo a entidade setorial, a pegada hídrica para resfriar chips tem uma escala menor no Brasil. Como a energia aqui é mais barata do que nos EUA, em muitos casos é mais custo-efetivo para empresas usar ar-condicionado, em vez de água, para controle térmico. — Data centers não são esses vilões do consumo de água na nossa realidade. Eu diria que o consumo de água de um data center é irrelevante nos maiores polos, incluindo São Paulo, Rio e Nordeste — diz Kontoyanis. Segundo ele, as instalações mais novas têm sido projetadas em modelo de "circuito fechado", no qual um volume fixo de água circula várias vezes no sistema, aquecendo-o e resfriando-o sucessivamente, e precisam de menos água para operar. A adoção desse modelo é prometida pela empresa chinesa ByteDance, dona do site TikTok, que investiu na construção de um data center com de 200MW de capacidade de processamento em Caucaia, no Ceará. A empresa busca comprar energia de uma instalação solar próxima, além disso, para assegurar que seu consumo de energia elétrica emita pouco CO2. Esse projeto, alocado em estado nordestino, com recursos hídricos escassos, contará com mais cinco instalações e recebeu aporte de R$ 580 bilhões. Pelo tamanho e pela localização, a iniciativa se tornou o grande campo de batalha entre as forças pró e contra o Redata no país. A ABDC divulga a estimativa de que em 2022 cerca de 0,003% da água doce consumida no Brasil foi destinada para data centers. Esse percentual deve subir para 0,008% em 2029. Se concretizado, isso representará um uso menos intensivo do que o do setor de metalurgia, por exemplo, que consome 0,5% da água do Brasil. 'Quintal' das Big Techs Há debate sobre esses números, porém, porque o país ainda carece de estudos independentes sobre o tema, sejam eles contrários ou favoráveis ao Redata. Um contraponto aos dados da ABDC é o relatório "Não somos quintal de data centers", do Idec, que aponta falta de transparência do setor de tecnologia quando o assunto é água. A iniciativa Nordeste Potência, ligada ao Instituto ClimaInfo, é outra que tem questionado ideia de atrair infraestrutura de TI ao país. A intenção de usar energia solar para alimentar data centers também precisa de cautela, afirmam ativistas. Segundo Cecília Oliveira, coordenadora do projeto, a limpeza de placas fotovoltaicas consome muita água, e as plantas solares do Nordeste estão concentradas em regiões onde o estresse hídrico de base já é maior. Áreas com acesso a água costumam ser alvo de disputas por terra também. — A política econômica do Brasil para data centers vem sendo pensada como inovação tecnológica, mas precisa ser tratada também como política ambiental, hídrica e de direitos humanos — diz a especialista. — A versão atual do texto do Redata não traz preocupação com transparência sobre o consumo de água e energia e não tem uma avaliação entre impactos cumulativos nessas duas frentes. O projeto de lei está agora parado no Senado. Parlamentares são pressionados por dois lados. Enquanto entidades da sociedade civil pedem cautela, a indústria pede celeridade, para não perder a janela de investimento.