A Amazônia é um bioma moldado pelos seus rios, abrigando a maior bacia hidrográfica do planeta e concentrando a maior disponibilidade de água doce da Terra. Mas a maior reserva dessa riqueza toda está “escondida” embaixo do solo. Com 1,35 milhão de quilômetros quadrados, quase o tamanho do estado do Pará, o Sistema Aquífero da Grande Amazônia (Saga) é quatro vezes maior que o bem mais famoso Aquífero Guarani, no Sul do país, e representa 84% dos recursos hídricos amazônicos. Aquíferos são formações rochosas que armazenam e podem suprir água. Uma camada geológica que faz a função de uma esponja. O Saga foi descoberto há 20 anos, em uma pesquisa de doutorado de André Montenegro Duarte, orientado por Francisco de Abreu, do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Pará (UFPA). Até então, acreditava-se que o maior sistema de água subterrânea da Amazônia estaria restrito ao território de Alter do Chão. Mas o Saga se estende da Cordilheira dos Andes até a Ilha do Marajó, passando por Acre, Amazonas, Roraima e Pará (75% do sistema está em território brasileiro). Segundo Abreu, a descoberta aconteceu graças à sua motivação de entender o quanto as águas subterrâneas representam na disponibilidade hídrica local. — Quando olhamos o ciclo hidrológico da Amazônia, tem água subterrânea, superficial e aérea (nuvens). Queríamos saber o quanto cada um desses representa percentualmente, e o André chegou aos números: 84% das águas da Amazônia são subterrâneas. Isso nos surpreendeu. A água que você não vê representa quase tudo — explica Francisco de Abreu. Capaz de abastecer o mundo por 250 anos Segundo os cálculos, o Saga contém mais de 150 quatrilhões de litros de água, em uma vazão de 162 mil quilômetros cúbicos, suficientes para abastecer a população mundial por 250 a 300 anos. O aquífero alcança 3.200 metros de profundidade. Desde que foi descoberto, mesmo enfrentando a falta de investimentos, os pesquisadores avançaram em estudos sobre a caracterização das suas bacias sedimentares, como as de Acre, Solimões, Amazonas e Marajó, além de mapeamentos geográficos e análise de qualidade. A conclusão é que, no geral, a água do sistema é de boa qualidade para o consumo humano. O Saga funciona como um pulmão para os milhares de rios da Amazônia, o que garante o abastecimento de diversas comunidades e municípios, e da floresta. — As raízes das árvores buscam água do aquífero. É um reservatório que está sempre fornecendo — resume Francisco de Abreu. — O Saga é um elemento de equilíbrio para todo o funcionamento da Amazônia. A relação entre o sistema aquífero e a cobertura vegetal tem importância que supera os limites da Amazônia. Através do processo conhecido como “rios voadores”, corredores de umidade impulsionados pela Floresta Amazônica chegam ao Centro-Sul do país, proporcionando os ciclos de chuva nessa região. Ao final, essa é a água que abastece barragens para geração elétrica e plantações e cultivos do agronegócio. Segundo os estudos de Francisco de Abreu, a evapotranspiração das árvores da Amazônia garante uma transferência de umidade correspondente a oito quatrilhões de litros de água por ano. Desmatamento pode afetar o sistema Sem aquífero, não tem floresta. E vice-versa. Por isso, o avanço do desmatamento, além de deficiências no saneamento básico, o que pode contaminar águas subterrâneas, é ameaça grave para o Saga. — Essa água tem importância estratégica fundamental para o Brasil. Mas, se tirar a floresta, pode ter interferência grave no processo — afirma o geólogo. Sem árvores, explica o cientista, a chuva não penetra no solo com facilidade. Além de gerar enchentes, a água da precipitação não abastece da mesma forma esse “mar subterrâneo” . — Graças à abundância de árvores da floresta, a água se infiltra até o subsolo, garantindo a vazão dos rios nos períodos de seca. O avanço do desmatamento deixa o Sistema Aquífero Grande Amazônia sob risco, por diminuir a capacidade de infiltração da água. A abundância de água vista tanto na superfície, quanto no céu e nas áreas subterrâneas, porém, não é capaz de evitar situações de risco social, como os problemas de fornecimento de água potável na Ilha do Marajó, lembra Abreu. Essa situação ilustra, diz o pesquisador, a desigualdade no usufruto dos recursos naturais do país — Como pode o Marajó ter problema de abastecimento de água potável? É um paradoxo, um absurdo. O Saga é muito importante na manutenção do ciclo hidrológico do Brasil, sustenta o agro, a geração de energia. Mas o que os amazônidas recebem em contrapartida por manter esse sistema funcionando? Nada. Meu sentimento é que o Brasil olha para a Amazônia como um grande almoxarifado, e só vem buscar o que precisa — protesta Francisco de Abreu.