Com o crescimento das cidades na região da Mata Atlântica, tornou-se fundamental o monitoramento da qualidade das águas nos rios do bioma litorâneo, que se estende do Sul ao Nordeste do Brasil. Há mais de dez anos, a organização ambiental SOS Mata Atlântica realiza esse trabalho, acompanhando a melhora ou a deterioração de diferentes corpos d’água. Na última sexta, a ONG divulgou os resultados da mais recente pesquisa, conduzida em 128 rios localizados em 86 cidades de 14 estados. No geral, as notícias não são boas, mas, ainda assim, é possível destacar exemplos positivos. De acordo com a última análise do programa Observando os Rios, em meio ao saneamento básico insuficiente e ao desmatamento histórico de áreas de nascentes na Mata Atlântica, somente cinco dos 128 rios e corpos d'água monitorados apresentam boa qualidade. Ainda segundo a ONG, um sexto do total, ou seja, 30 desses ecossistemas, apresentou condições ruins ou péssimas. Saneamento é vida Segundo a SOS Mata Atlântica, o investimento no tratamento de efluentes, além de sistemas alternativos e soluções baseadas na natureza, é o caminho para melhorar esse quadro. Alguns bons exemplos já podem ser observados. Em Ilhabela, no litoral de São Paulo, a mobilização da população levou ao aumento da conexão de imóveis à rede de saneamento, elevando, assim, a qualidade do córrego Itaguaçu/Itaquanduba. Já no Morro do Querosene, na capital paulista, um tanque de evapotranspiração (modelo que usa solo, plantas e microrganismos para filtrar e decompor resíduos) melhorou o tratamento de esgoto lançado na natureza. Esse foi um dos seis projetos comunitários selecionados em um edital recente da ONG, em parceria com a Hein.ken O Rio Betume, em Pacatuba, Sergipe, apresentou melhora e passou da classificação regular para boa, enquanto o Rio Capivari, em Florianópolis, Santa Catarina, passou de ruim para regular. Em ambos os casos, novas estruturas de saneamento contribuíram. Coleta de amostra no Rio Tietê para análise promovida pela ONG SOS Mata Atlântica Divulgação / Leo Barrilari Mas o quadro geral preocupa. Os resultados levam em conta parâmetros físicos, químicos e biológicos, além de características da água como espuma, odor e turbidez. Entre os rios monitorados, 78% receberam a classificação regular. Foram identificados apenas cinco pontos com boa qualidade, além de 25 com qualidade ruim e cinco em situação péssima. Assim como nas outras edições da pesquisa, nenhum ponto atingiu a classificação “ótima”. De acordo com a ONG, rios em qualidade boa e ótima abrigam vida aquática equilibrada e são os únicos totalmente adequados para o abastecimento e a produção de alimentos. Para Gustavo Veronesi, coordenador da causa Água Limpa da Fundação SOS Mata Atlântica, é preciso considerar que já se passaram seis anos da promulgação do Marco Legal do Saneamento Básico. A legislação estabeleceu metas de melhorias e acelerou a concessão de serviços de saneamento pelo país. Até 2033, 90% de todo o esgoto do país precisa ser tratado, e um dos impactos mais esperados é a limpeza dos rios. — A sensação é que estamos avançando pouco — afirma Veronesi, que destaca a relevância do recorte da Mata Atlântica nesse tipo de levantamento. — O bioma é importante porque pega muitas grandes cidades brasileiras, muito populosas, especialmente no Sudeste. ‘Rios escondidos’ Além da falta de saneamento básico, o desmatamento de matas ciliares e de áreas de nascentes é outro problema grave. Apesar de haver leis ambientais que obrigam o poder público a proteger esses territórios, existe um passivo histórico no país, especialmente na Mata Atlântica, que resguarda apenas 24% da cobertura florestal original, em meio ao crescimento desordenado de áreas urbanas. — Muitas vezes, a gente nem sabe que um rio passa na nossa cidade, porque ele corre escondido, sem proteção das margens. Sem preservação, não vai ter solução — explica Veronesi. Diretora de Políticas Públicas da SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro afirma que os dados do relatório refletem as escolhas políticas que afetam a saúde dos rios. Ela destaca as pressões recorrentes para flexibilizar leis de preservação ambiental, como o Código Florestal e a Lei da Mata Atlântica, como outro problema. — Persiste um modelo de desenvolvimento que trata a natureza como obstáculo, quando, na verdade, é a base da segurança hídrica do país. A privatização de companhias de saneamento, frequentemente apresentada como solução definitiva, não pode substituir políticas públicas integradas, planejamento de longo prazo, fiscalização e avanços institucionais que reconheçam a água como direito — diz a diretora. Sistemas alternativos nas periferias Em 2023, a SOS Mata Atlântica e a Heineken lançaram um edital que aporta até R$100 mil em seis projetos voltados à implementação de soluções baseadas na natureza, ações de mobilização e educação ambiental em São Paulo. O "Descontaminação do Córrego da Fonte – Peabiru" concluiu a instalação de um tanque de evapotranspiração para tratamento de esgoto em três residências no Morro do Querosene, o que reduziu significativamente o mau cheiro no entorno do córrego Peabiru. Além disso, foi implementado um jardim de chuva complementar, estrutura de drenagem sustentável. A próxima etapa será uma exposição cultural sobre a história da iniciativa, com foco na mobilização da comunidade. Já o projeto A Gente da Água, do Instituto de Projetos e Pesquisas Socioambientais OSC (Ipesa) em parceria com a Waterlution, promoveu uma campanha de conscientização, que uniu oficinas com estudantes, festival cultural, plantio de jardim de chuva e produção de um filme em comemoração ao Dia Mundial da Água, contemplando os córregos Ypuera e dá Jóia, da Bacia do Pinheiros, na região do Butantã Em desenvolvimento, há projetos que vão criar: escada hidráulica vegetada para aumentar a infiltração da água da chuva na Vila Madalena; estruturas vegetadas na raia da USP, para purificar a água; e sistema de drenagem sustentável no Parque da Jóia. Para Gustavo Veronesi, esses projetos mostram o poder da mobilização comunitária e abrem o leque de ideias para soluções alternativas, que podem ser aplicadas principalmente em áreas remotas, como comunidades rurais ou periferias que costumam sofrem com a falta de atuação do poder público, ou até mesmo em municípios mais pobres. — Fazer infraestrutura pesada, encanamentos e abrir Estações de Tratamento de Esgoto é um trabalho oneroso e lento. Precisamos também de sistemas alternativos, porque as realidades são distintas no país. Se correr atrás apenas de um modelo único de tratamento, jamais chegaremos à meta de universalização do saneamento básico — explica o coordenador. O programa Observando os Rios surgiu no início da década de 1990, quando a SOS Mata Atlântica se engajou na mobilização pela despoluição do rio Tietê, reunindo 1,2 milhão de assinaturas em um abaixo-assinado que exigia a recuperação do rio. O resultado foi o lançamento do Projeto Tietê, que foi acompanhado pela ONG através de análises da qualidade da água. Em 2015, a metodologia foi ampliada para os 17 estados abrangidos pela Mata Atlântica, e o programa passou a se chamar Observando os Rios. Atualmente, 2.200 voluntários participam desse monitoramento.