O Brasil é uma potência hídrica sem igual. Seu território detém 12% de toda a água doce de superfície no mundo. Mas diferentes estudos e situações já vividas no cotidiano de grande parte da população deixam evidente que, mesmo com toda essa riqueza, por diversos motivos, o país não está livre do estresse hídrico. Pelo contrário. No futuro, a escassez de água pode se agravar. Então, como preservar o nosso maior bem? Avanço populacional nas grandes cidades, uso desordenado da água por setores da indústria, desperdício, mudanças climáticas e desmatamento estão entre fatores que colocam em risco a saúde hídrica do país. Um estudo recente do Instituto Trata Brasil alerta que diferentes cidades podem enfrentar racionamento de água de até 12 dias por ano até 2050. O cenário ainda é mais grave nas regiões mais secas, como o Nordeste, onde a falta do recurso pode ultrapassar os 30 dias anuais. O mesmo instituto detectou, em outra pesquisa, que o Brasil desperdiça 40% de sua água tratada antes de o recurso chegar às torneiras, devido a vazamentos e falta de investimento nas redes de distribuição. Concessionárias de diferentes estados vêm investindo em tecnologias para reduzir o problema. A Águas do Rio, por exemplo, instalou em sua rede 200 válvulas inteligentes que ajustam automaticamente o fluxo de água conforme a variação da demanda, evitando desperdício. Imagem de uma válvula inteligente sendo colocada por equipes da Águas do Rio Reprodução O Trata Brasil chama atenção para a urgência de toda a sociedade abraçar o consumo racional da água, adotando medidas de cotidiano que podem até parecer irrelevantes, mas quando se pensa em populações de milhões de pessoas, podem causar enorme impacto positivo. — Precisamos reduzir o consumo médio da população, principalmente nas regiões mais críticas — diz Luana Pretto, presidente executiva do instituto. — Seja na redução do tempo no banho, no desligar a torneira na hora de escovar os dentes ou no cuidado com o número de dias em que lava roupa. Para a especialista, também é preciso investir na reutilização da água. Segundo ela, “o esgoto tratado pode ser uma fonte para diferentes usos”. Em outubro do ano passado, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) informou que está estudando usar água de esgoto tratado para aumentar a oferta. A ideia é refinar a água processada nas estações de tratamento e devolvê-la aos mananciais usados no abastecimento. Algumas cidades já usam água de esgoto tratado na lavagem de áreas públicas. Mas o processo tem potencial em outros setores também. O governo federal vem investindo em tecnologia de tratamento do esgoto domiciliar, escolar e comunitário para o reaproveitamento na agricultura familiar. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) anunciou que vai injetar R$ 21 milhões na instalação de 41 unidades do sistema de Saneamento Ambiental e Reúso de Água (Sara), que se somarão às 372 já implantadas ou em processo de implantação no Nordeste. Cada unidade beneficia até cem famílias. Sistema Sara, do governo federal, promove reuso da água de esgoto tratado Reprodução A produção agrícola, em pequena e larga escala, vem sendo afetada por mudanças no padrão de chuvas, que ficaram menos frequentes e mais concentradas em diferentes regiões. O setor, que consome cerca de 50% da água tratada do país para irrigar lavouras, vem empregando estratégias para um uso mais sustentável dos recursos naturais. As iniciativas associam ciência e tecnologia para otimizar a utilização dos recursos hídricos. — O setor tem um papel estratégico na promoção do manejo sustentável da água, especialmente porque grande parte da produção agrícola depende diretamente da gestão adequada desse recurso — afirma Jordana Girardello, assessora da Comissão Nacional de Irrigação da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A insegurança hídrica nas cidades brasileiras é resultado de períodos anuais de chuvas mais curtos e, muitas vezes, insuficientes, explica o geógrafo Yuri Salmona, fundador do Instituto Cerrados. O aumento populacional nos grandes centros urbanos e o desmatamento, sobretudo em áreas de mananciais, também explicam essa nova realidade. Recentemente, devido aos baixos níveis das reservas de água no Sistema Cantareira, em decorrência da escassez de chuvas, foi preciso transpor água da Bacia do Rio Paraíba do Sul, manancial que é a espinha dorsal do abastecimento do Estado do Rio. — As mudanças climáticas trazem eventos extremos, como períodos de seca mais extensos e intensos. Isso vem ocorrendo no Cerrado, conhecido como o coração das águas do Brasil, por abastecer oito das 12 bacias hidrográficas do país — aponta Salmona. — Anos atrás, havia períodos mais intensos de chuva, com mais oportunidades de infiltrar essa água nos reservatórios e nos mananciais. O pesquisador defende a necessidade de ações que contenham o desmatamento e promovam manejo adequado da cobertura vegetal. Florestas saudáveis preservam o regime de chuvas pela evapotranspiração das árvores e promovem a infiltração da água no solo, alimentando lençóis freáticos e mantendo a vazão dos rios. Por isso, Salmona ressalta a importância da criação de áreas protegidas e o uso responsável dos recursos hídricos pelo agronegócio. — Os moradores dos centros urbanos devem saber de onde vem a água que consomem. É preciso entender que o desmatamento que acontece em Goiás, por exemplo, afeta a disponibilidade de água em São Paulo e altera o ciclo de chuva no país.