Para jovens da geração Z, nascidos entre meados dos anos 1990 e 2010, a violência contra a mulher é um tema constante, que atravessa o cotidiano de diferentes formas: de experiências pessoais e histórias de família a casos que estão no noticiário, como o estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em Copacabana, em janeiro. Ouvidos pelo GLOBO, cinco alunos de um projeto social na Mangueira, na Zona Norte do Rio, com idades entre 19 e 22 anos, contam como essa realidade impacta suas rotinas e perspectivas. Crueldade: seis homens são presos e dois menores apreendidos por agressão a capivara no Rio ‘Vamos digitalizar o Rio Rotativo, usando a plataforma do Jaé’: Eduardo Cavaliere diz que vai mirar no combate à desordem urbana e na conclusão de projetos prometidos Gabriela da Silva, de 22 anos, não consegue pensar em violência sem se lembrar do que viveu por quatro anos. Teve um momento em que não conseguiu mais esconder o que acontecia dentro de casa. Ao chegar à creche do filho, então com 2 anos, foi chamada pelas professoras. O menino havia contado, aos prantos, o que presenciava com frequência: “O papai bate na mamãe, e ela chora”. Gabriela da Silva, de 22 anos, tenta reconstruir sua vida após sair de um relacionamento abusivo Márcia Foletto/Agência O Globo Além da agressão física Criada no Morro da Providência, no centro do Rio, Gabriela tinha apenas 17 anos quando começou o relacionamento com o ex-companheiro, cerca de dez anos mais velho. O que parecia, no início, uma relação comum, se transformou em um ciclo de violência física, moral, psicológica e patrimonial. Após o episódio na creche, buscou ajuda no Centro Especializado de Atendimento à Mulher (Ceam), da prefeitura, onde recebeu uma cartilha sobre os diferentes tipos de violência. Ali, se deu conta de que havia vivido quase todos, com exceção do abuso sexual. — Antes de sofrer violência, eu associava a palavra apenas à agressão física. Depois entendi que tem uma camada muito mais profunda do que eu imaginava — afirma. Jovens do Rio contam como a violência de gênero está presente no cotidiano da geração As ameaças se intensificaram, Gabriela procurou a delegacia e obteve uma medida protetiva. Quando lê sobre o aumento dos casos de violência contra a mulher, ela ainda sente um nó na garganta ao se dar conta de que poderia ter sido uma das vítimas com desfecho trágico. Hoje, estudante de Fisioterapia, começa a reconstruir a vida após romper esse ciclo de abusos. — Quando vejo um caso de violência, lamento pela vítima, mas a sensação de que poderia ser eu é muito angustiante — conta. Antes mesmo de entender o que era violência, Maria Clara Torres, de 20 anos, já via dentro de casa o impacto dessa covardia na vida de mulheres próximas. Criada pelos avós em Piedade, na Zona Norte do Rio, cresceu cercada por relatos de agressões e submissão na própria família, o que a fez associar, por muito tempo, a figura masculina à possibilidade de hostilidade, criando um receio em relação à intimidade e à confiança. Maria Clara Torres, de 20 anos, afirma que o amor não era parte da rotina de suas avós, vítimas de violência doméstica Márcia Foletto/Agência O Globo A estudante de Administração ressalta que as consequências não ficam restritas a quem sofreu diretamente as agressões, mas atravessam gerações, influenciando a forma como filhas e netas constroem vínculos afetivos. Ao lembrar das histórias que ouviu dentro de casa, percebe como a violência acabou retirando das mulheres de sua família a possibilidade de experimentar relações baseadas em cuidado e reciprocidade. — Minhas avós passaram a vida vivendo dessa maneira. Eu sinto que elas não tiveram a oportunidade de amar e serem amadas. O amor não era parte da rotina — lamenta. O medo A sensação de estar em alerta constante faz parte da rotina de Júlia Santos, de 21 anos, moradora da Mangueira. Mesmo sem ter vivido diretamente um episódio de violência, ela afirma que cresceu cercada por avisos sobre os riscos que as mulheres enfrentam. A ideia de que é preciso estar sempre atenta acaba sendo transmitida dentro da família, muitas vezes como forma de proteção. Com o tempo, esse cuidado se transformou em um estado permanente de vigilância. Júlia Santos, de 21 anos, afirma que cresceu ouvindo que precisava se proteger dos homens Márcia Foletto/Agência O Globo Ao sair de casa, a estudante de Administração diz que costuma observar o ambiente ao redor, prestar atenção em quem está por perto e evitar situações que possam representar algum perigo. Para ela, esse tipo de comportamento é algo que muitas mulheres aprendem desde pequenas. — A gente cresce escutando que precisa se proteger dos homens. Isso faz com que a gente crie uma defesa o tempo todo — afirma. Na avaliação da jovem, a frequência com que casos de violência contra mulheres aparecem no noticiário também reforça essa sensação de vulnerabilidade, ao mesmo tempo que ajuda mulheres a reconhecerem situações de abuso e a falarem sobre o assunto. A reflexão também aparece entre os homens dessa geração. Para jovens de pouco mais de 20 anos ouvidos pelo GLOBO, os casos que se repetem e ganham as redes sociais expõem comportamentos e valores que ainda fazem parte da forma como muitos meninos são educados. Nascido e criado no Morro da Mangueira, Nathan Lessa, de 20 anos, acredita que muitos episódios de violência têm origem em atitudes que costumam ser tratadas como pequenas ou insignificantes no cotidiano. — A violência contra a mulher começa em atitudes menores, como gritar, desrespeitar ou tratá-las como se fossem inferiores. A gente, como homem, deveria aprender desde cedo a tratar uma mulher com respeito — afirma. Nathan Lessa, de 20 anos, acredita que a internet e as redes sociais ajudaram a ampliar a visibilidade dos casos, mas também abriram espaço para a circulação de discursos misóginos Márcia Foletto/Agência O Globo Misoginia nas redes Na avaliação do estudante de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), apesar de o debate ter ganhado mais espaço nos últimos anos, ainda existe resistência por parte da sociedade em reconhecer práticas machistas que continuam sendo reproduzidas. Ele observa que a internet e as redes sociais ajudaram a ampliar a visibilidade dessas agressões, mas também abriram espaço para a circulação de discursos misóginos. Já para Douglas Henrik, de 19 anos, a indignação cresce a cada novo episódio que aparece no noticiário. Para ele, a repetição das histórias acaba criando a impressão de que a violência contra mulheres se tornou algo comum. Morador de Nova Iguaçu, ele também aponta falhas nas medidas de proteção que deveriam garantir mais segurança às vítimas. Douglas Henrik, de 19 anos, afirma que tragédias poderiam ser evitadas se as medidas de proteção às mulheres fossem mais rápidas e eficazes Márcia Foletto/Agência O Globo — Muitos casos acontecem por falta de agilidade do sistema. Em muitos deles, as mulheres chegam a denunciar, mas não há uma resposta rápida o suficiente, e só quando a tragédia acontece é que decidem agir — conclui. Os cinco jovens foram ouvidos pelo GLOBO após um debate sobre violência de gênero promovido pela Sony Music na semana passada. Bruna Araújo, diretora de People Experience da empresa, afirma que o evento faz parte de uma série de ações voltadas à conscientização e ao combate à violência de gênero: — A gente entende que informação e formação de consciência são fundamentais para as transformações culturais, especialmente entre jovens. *Estagiária sob supervisão de Leila Youssef