Mariana Becker relembra machismo na carreira: 'Tinha que ser muito mais competente do que um homem'

É preciso acelerar as agulhas de tricô porque faz frio em Mônaco, e o presente prometido para o neto da faxineira do prédio, uma manta, não pode ficar de lado”. A tricoteira em questão, Mariana Becker, de 54 anos, vai conciliar agora o novelo com o trabalho pesado de comentarista de automobilismo da TV: sua vigésima temporada na cobertura da Fórmula 1 teve início há duas semanas, com o GP da Austrália, no circuito de Melbourne. Após cinco anos na Band, a gaúcha está de volta à Globo, casa na qual descobriu a paixão pelo automobilismo, em 2007. Foi um início difícil, de muitas voltas, até conquistar o respeito de colegas famosos como o locutor Galvão Bueno. Ao olhar para o retrovisor de sua carreira, Mariana percebe que venceu, sabendo acelerar e frear na medida certa. “Eu me sentia como um soldado raso trabalhando com generais. No início, foi difícil me aceitarem. Aos poucos, Galvão foi descobrindo coisas em mim, e eu fui vendo coisas legais nele. Achava que era um cara muito difícil, mas comecei a gostar. A turma (da transmissão) ia jantar, demorava muito, e eu não podia acordar tarde no dia seguinte. Num determinado horário, eu me despedia, e o Galvão dizia: ‘Se você não ficar, não deixo você falar amanhã’. Respondia: ‘Você não deixa eu falar mesmo... Não vai fazer diferença’. A gente começou a se dar bem”. Galvão comemora a volta da apresentadora à emissora. “Trabalhamos juntos por anos e ela criou um ambiente fantástico na Fórmula 1, a estrela era ela. Competência total, vai brilhar ainda mais.” Atual narrador da Fórmula 1 da Globo, Everaldo Marques a considera uma referência. “É respeitada pelos pilotos e adorada pelo público. Sua volta é um golaço.” Mariana Becker em entrevisa comenta sobre machismo, gafes e hobby Globo/ Bob Paulino Mariana já tinha 10 anos de jornalismo quando entrou para o mundo de pneus e parafusos, interesse iniciado no Rally dos Sertões, competição brasileira de longa duração que exige muito preparo dos competidores. Ela participou três vezes da prova, pilotando e mostrando na telinha sua experiência para o público. Não era, portanto, uma novata quando, em 2007, chegou ao grid, causando surpresa no circo da Fórmula 1. “Tinha que ser muito mais competente do que um homem. Mais do que mandar tudo às favas, me dava aquela vontade de insistir”, lembra. “Precisei estudar para dominar o assunto. Estudo até hoje. O machismo é a diminuição da importância do que você apura, ou está no olhar condescendente de quem está explicando alguma coisa pra você. Os pilotos sempre me respeitaram. O machismo vinha das equipes e também, dos colegas de profissão: ‘Você conseguiu porque é loura e de olhos verdes’, entende?” Caçula de cinco filhos de um médico ginecologista, José Alberto, e uma professora de inglês, Roseli, Mariana cresceu em Porto Alegre. Tornou-se uma moça destemida, mas também um tanto desajeitada, o que lhe rendeu vexames públicos. Certa vez, louca para urinar, apertou um botão, imaginando que silenciaria seu áudio, mas na verdade estava ligando o equipamento: “Vou fazer xixi”, anunciou para todo o Brasil. Também já deu uma mancada ao entrevistar o piloto finlandês Valtteri Bottas. Acreditando que ele era o vencedor da prova, perguntou-lhe, ao vivo, qual era o segredo para tal façanha. “Não venci a prova”, disse ele, deixando a loura sem ação. O repertório vai além: “Sou a rainha de passar perrengues em público. Uma vez, no Grande Prêmio da Espanha, tropecei nos meus cabos, caí de quatro, e minha calça rasgou de cima a baixo, na frente de todos os repórteres”, conta. “Avistei uma bandeira que era metade do Brasil e metade da Áustria. Pronto, amarrei na cintura e fui andando. Houve uma ainda pior. Tinha trabalhado o dia inteiro na chuva. Voltei pro hotel, tirei a roupa molhada e botei pra secar. No dia seguinte, vesti a calça já seca. Estava andando no paddock e sentindo algo na perna me incomodando. Era a calcinha do dia anterior que estava presa na perna da calça. Então, quando alguém vem com o papo de diva, eu digo que não, diva não anda de bunda de fora nem arrasta calcinha por aí (risos)”, conta ela. Fora a competência para trocar pneu, a profissão deu à jornalista a fluência em cinco idiomas. Além do português, fala francês, italiano, espanhol e inglês. E arranha um pouquinho de japonês, pois já esteve 17 vezes no Japão (no dia 29, estará lá mais uma vez para o Grande Prêmio). Viajar pelo mundo é seu prazer maior. Sonha conhecer a Sibéria, a Escócia e a Papua-Nova Guiné. Entre tantas idas e vindas, tem endereço fixo, um apartamento na parte alta de Mônaco, a poucos metros da praia, onde o mar gelado a espera por volta das seis da manhã para umas braçadas. Separada há dois anos, não se sente sozinha. “Tenho um pet, o Alfredo. E uma gaivota, que todos os dias vem na minha janela”, comenta. Sobre o retorno, avalia: “Fico ansiosa para ver o que vai acontecer ao longo dessa temporada de Fórmula 1. Por isso, faço tricô”.