Dia da Água: Falta de chuvas leva setor agrícola a buscar irrigação 'inteligente'

O setor agrícola consome metade da água tratada no Brasil. O recurso extraído da natureza alimenta lavouras em todo o país, que tem cerca de oito milhões de hectares irrigados em seu território. Mas esse montante deve aumentar, e muito, no futuro. Entidades ligados ao agro estimam que, em 2040, o Brasil deve ter mais de 12 milhões de hectares de plantação irrigados. Para evitar cenários de estresse hídrico, a indústria vem aplicando diferentes tecnologias que otimizam o uso da água na produção. Dia da Água: Como podemos evitar racionamentos no Brasil? Oceano amazônico: Maior aquífero do mundo está debaixo da floresta Entre as medidas nesse sentido estão o manejo inteligente dos sistemas de irrigação, o uso de aparelhos para monitoramento climático e de umidade do solo, além da adoção de práticas de agricultura de precisão, que permitem aplicar a água na quantidade certa e no momento necessário para cada cultura em cada tipo de solo. Em tempos de mudanças climáticas, com alterações no padrão de chuvas e uso frequente dos corpos de água superficiais e do lençóis freáticos, a nova ordem é preservar os recursos hídricos. Usar apenas o necessário. — Para a agricultura de precisão, mapeamos o terreno todo para sabermos com exatidão quanto de adubo iremos colocar em cada propriedade. Já o manejo de sistemas de irrigação, com equipamentos para medir a umidade do solo, mostra a quantidade exata de água necessária para o estágio de crescimento daquela planta. Isso nos ajuda a entender como desenvolver as plantações com uso mais eficiente dos nutrientes e recursos naturais — explica Jordana Girardello, assessora da Comissão Nacional de Irrigação da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Aventura na selva: Colombiano atravessa Floresta Amazônica nadando em rio De acordo com a especialista, a reservação de água, especialmente por meio de pequenas barragens e outras estruturas nas propriedades rurais,é outra estratégia fundamental. A medida permite acumular água durante os períodos de maior intensidade de chuvas, para que o recurso possa ser utilizado de forma planejada nas temporadas de estiagem ou seca. — Esse manejo hídrico garante segurança para as atividades rurais. A lógica é promover uma gestão mais equilibrada do recurso — argumenta Girardello. A produção brasileira sempre se apoiou no regime de chuvas do país, mas, com o desmatamento e as mudanças climáticas, não se pode mais confiar na precipitação para enriquecer as lavouras. Estima-se que áreas irrigadas produzam de duas a três vezes mais do que no “sequeiro”, como é chamado o cultivo que depende somente das chuvas. E, hoje, apenas pouco mais de 3% das lavouras brasileiras contam com sistemas de irrigação. 'É preciso disseminar boas práticas', diz pesquisador A perspectiva, portanto, é ampliar a área irrigada do Brasil. Ambientalistas, contudo, veem com preocupação essa tendência, que pode contribuir para o esgotamento de lençóis freáticos essenciais para a manutenção dos rios. De acordo com o pesquisador Lineu Rodrigues, da Embrapa Cerrados, não falta no país tecnologia para realizar esse avanço utilizando água de forma consciente. Mas ele diz que são necessárias mais políticas públicas para disseminar o uso dessas boas práticas em todo o Brasil. — Temos, por exemplo, sensores que monitoram a umidade do solo e enviam informações minuto a minuto para o produtor. Desse jeito, não tem “achismo”, acaba o uso da água sem necessidade — diz Rodrigues. — Mas é preciso disseminar a adoção dessas boas práticas e dos equipamentos de ponta pelo país. Isso vai alavancar o setor de forma consciente. O governo federal tem diferentes programas de incentivo à irrigação sustentável no país, sob o guarda-chuva do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR). O Sistema Brasileiro de Manejo da Irrigação (SBMI), por exemplo, é um software desenvolvido para otimizar o uso da água na agricultura, indicando quando e quanto irrigar. Utilizando dados climáticos e de solo, a ferramenta, que pode ser acessada on-line, calcula a necessidade hídrica das culturas. Além disso, o Plano Nacional de Irrigação prevê ações de capacitação e assistência técnica voltadas a pequenos e médios produtores rurais. Aumentar a produtividade da terra com irrigação sustentável pode, ao menos em tese, contribuir para reduzir a pressão sobre o desmatamento, já que diminuiria a necessidade de aumentar a área da plantação. De acordo com o pesquisador Danilton Luiz Flumignan, da Embrapa Oeste, a irrigação inteligente exige menos volume de água que é retirado dos corpos hídricos (superficiais ou subterrâneos). — Aqui se tem uma relação ganha-ganha. A racionalização é boa para a sociedade, devido à economia de água, mas também para o produtor. Bombeando menos água, os custos com energia elétrica podem ser significativamente diminuídos — destaca ele.