Se uma imagem definiu a temporada de desfiles de verão 2026, que se encerrou em outubro, foi a da modelo Awar Odhiang caminhando em um grande círculo, batendo palmas e erguendo os braços antes de se encontrar com Matthieu Blazy para um abraço ao final do desfile da Chanel. Era a esperadíssima estreia do franco-belga na casa, então as atenções estavam voltadas a esse momento, mas não foi isso que levou a imagem a viralizar. Havia ali uma alegria efusiva que não vemos sempre em grandes momentos da moda. Tanto Odhiang quanto Blazy estavam se divertindo na passarela, sem se preocupar com chão ou pose. Essa energia otimista vem atingindo a moda como uma onda, acompanhada de uma boa dose de descontração. Campanha de verão 2026 da Chanel David Sims/Divulgação (DIOR), Launchmetrics Spotlight e Divulgação Três meses após o desfile, a maison divulgou a primeira campanha sob o olhar do novo diretor criativo. Fotografada na Villa La Pausa, residência de Coco Chanel na Riviera Francesa, tem modelos pulando na cama com cabelo espetado para cima, subindo em árvores, correndo, sorrindo. Alguns takes estão ligeiramente fora de alinhamento – em um deles, metade de uma bolsa está cropada para fora. Para bom entendedor, a mensagem de Blazy já estava dada: sob o seu comando, a Chanel vai mostrar a sua faceta mais leve, mais espontânea e mais divertida. Simultaneamente, na Dior, a primeira campanha de Jonathan Anderson chegou com um ar mais “imperfeito”. Nas imagens, há sutilezas como um rodapé levemente descascado, paredes com um tiquinho de sujeira, um sofá recoberto por um lençol cinza. Em ambas as marcas, há uma nova linguagem mais naturalista que se aproxima da “vida real” – mesmo que elas tenham sido pensadas pelos profissionais mais renomados da indústria. Campanhas de verão 2026 da Dior David Sims/Divulgação (DIOR), Launchmetrics Spotlight e Divulgação Revistas Newsletter Para Costanza Pascolato, esse movimento pode se relacionar, em parte, com a cultura da performance das redes sociais e com a sofisticação da inteligência artificial. “No conjunto da obra do contemporâneo, o ‘ser natural’ é o mais elegante, especialmente quando todo o resto é tão fabricado. As imagens não podem mais ser tão artificiais como já foram. Primeiro, porque a vida não é assim, segundo, porque ninguém acredita, já que tudo pode ser feito com inteligência artificial”, diz a colunista da Vogue. A capa de março da Vogue britânica com a modelo Bhavitha Mandava ilustra a nova energia da moda Divulgação A jornalista e consultora Camila Yahn também acredita que esse movimento seja reflexo do tipo de imagens que passamos a receber. “É um excesso visual. Temos os filtros, mas, além disso, os celulares têm ferramentas que hoje permitem que a gente edite muito uma foto antes de postar. E a inteligência artificial, por sua vez, também enaltece essa beleza perfeita e até um pouco surreal. Eu vejo a forma como a moda está se comunicando como a antítese disso”, diz. Referências à natureza dominaram os desfiles de verão 2026 da alta-costura: SCHIAPARELLI David Sims/Divulgação (DIOR), Launchmetrics Spotlight e Divulgação Além disso, Jorge Grimberg, comunicador e jornalista, entende que existe uma saturação da vida online. “Há um cansaço muito grande da pressão que as pessoas têm tanto em performar uma vida em que ninguém acredita mais quanto em consumir conteúdo nessa velocidade que está sendo proposta. Há uma saturação enorme das redes, sim, como um comportamento coletivo, mas sair delas ainda é um privilégio para poucos”, diz. Referências à natureza dominaram os desfiles de verão 2026 da alta-costura: DIOR David Sims/Divulgação (DIOR), Launchmetrics Spotlight e Divulgação Não é por acaso que, na temporada de verão 2026 da alta-costura, em janeiro, três dos principais nomes do evento – Schiaparelli, Dior e Chanel – apresentaram desfiles que se conectavam com o mundo “real” ao fazer alusão à natureza tanto nas roupas desfiladas quanto nas cenografias e nas temáticas das coleções. O fascínio dos estilistas em trazer esse universo para o centro da passarela reflete os anseios da sociedade atual. Propor estéticas mais próximas do cotidiano e agregar elementos inspirados na natureza a roupas tão elaboradamente artesanais são formas de reaproximação do que é real e guiado por cuidado e pensamento, em vez de prompts ou métricas. A moda, assim como outras manifestações artísticas, precisa de tempo e toque humano, e não apenas de comandos do computador. Referências à natureza dominaram os desfiles de verão 2026 da alta-costura: DIOR David Sims/Divulgação (DIOR), Launchmetrics Spotlight e Divulgação “Estamos em busca dos fatores que nos fazem humanos. A inteligência artificial não pode experimentar as sensações que a natureza proporciona, né? O vento na cara, a água no rosto, os efeitos dos cogumelos”, diz Jorge. Aliado a tudo isso, há uma qualidade que é intrínseca e exclusiva ao ser humano e que as maisons vêm explorando: a espontaneidade. “Isso a IA ainda não sabe – ainda não”, diz Camila. “Ela pode saber emular a perfeição, mas os melhores aspectos da humanidade, que são a espontaneidade, a alegria, a leveza, ela ainda não consegue transmitir. Hoje, as marcas não conversam só com os seus clientes, elas falam com gente do mundo todo, e essa é uma maneira muito mais palatável e íntima de se comunicar com quem está do outro lado da tela”, completa. Referências à natureza dominaram os desfiles de verão 2026 da alta-costura: CHANEL David Sims/Divulgação (DIOR), Launchmetrics Spotlight e Divulgação A moda é uma indústria de sonhos que reúne pessoas criativas, sensíveis, inteligentes e conectadas ao zeitgeist – nunca fez muito sentido ela ser blasé. Ainda bem que grandes marcas e seus criadores parecem agora dispostos a quebrar paradigmas sobre o que elas – e o luxo – devem ser. Em uma entrevista recente a Cathy Horyn, do The Cut, Blazy disse: “Acho que a maneira de ser moderno hoje em dia é ressignificar palavras que são descartadas. ‘Doce’, ‘incrível’, ‘alegria’, ‘poesia’. Um dos meus estilistas favoritos é Rick Owens. Ele criou um mundo extraordinário. Mas esse não pode ser o único caminho. Ser radical não significa apenas ser duro. Talvez a doçura também possa ser radical” Referências à natureza dominaram os desfiles de verão 2026 da alta-costura: CHANEL David Sims/Divulgação (DIOR), Launchmetrics Spotlight e Divulgação