A retórica embolorada do mandatário brasileiro

“Mais que uma ação, a Revolução é uma linguagem”, escreveu François Furet, pensando concretamente na Revolução Francesa, mas produzindo uma definição de alcance geral. Na era moderna, poucos revolucionários souberam operar tão bem essa transformação na linguagem quanto os representantes da cultura política marxista-leninista. A transformação comunista do significado das palavras foi consagrada na literatura por George Orwell, com a ideia de novilíngua . Do ponto de vista da ideia comunista, explicou também Alain Besançon, as palavras referentes a valores e princípios – justiça, liberdade, humanidade etc. – mantêm com as antigas “apenas uma relação de homonímia ”. Mas, no terreno da corrupção da linguagem, os comunistas foram além. Para utilizarmos o vocabulário clássico da teoria da comunicação, eles não se contentaram em agir sobre a mensagem e o código, dedicando-se também a manipular o receptor e o contexto. Desenvolveram, assim, uma notável sensibilidade para alterar o discurso conforme a audiência, exibindo aquilo que também Orwell chamou de duplipensar . Com efeito, ao longo da história do movimento comunista, o pragmatismo tático de suas lideranças frequentemente se expressou por meio de uma espécie de língua bífida: um discurso destinado ao público externo e outro, bem distinto, reservado ao círculo interno do poder. Ainda que adaptado às particularidades sociopolíticas nacionais, o Descondenado-em-chefe – que hoje ocupa ilegitimamente a Presidência do país após o golpe de Estado jurídico aplicado pelo STF em Jair Bolsonaro – é um representante dessa tradição, assimilada dos intelectuais marxistas que o ajudaram a fundar seu partido, o Partido dos Trabalhadores. Versado no mesmo tipo de pragmatismo tático de Lenin, Gorbachev, Fidel Castro e outros, o marido da Janja acrescenta ao seu modus operandi político características pessoais macunaímicas que facilitam o emprego da língua bífida. Na relação com os EUA e o presidente Donald Trump, o mandatário brasileiro tem recorrido ao seu talento na arte do duplipensar para manter simultaneamente um duplo registro discursivo. Por um lado, falando para plateias internacionais e em contextos institucionais formais, adotou um tom mais ameno e conciliador desde o momento de distensionamento das relações bilaterais. Mas, quando está entre plateias mais domesticadas e tradicionalmente ligadas à sua base política, como agora no Fórum Celac-África , o Descondenado-em-chefe usa Donald Trump como Judas em sábado de aleluia. Para o petista, malhar o presidente americano lhe permite revolver sensibilidades políticas arraigadas no imaginário político da esquerda lationamericana, reforçando, junto à sua base política, a imagem de líder histórico da “luta contra o imperialismo”. Os arquivos da KGB mostram que, desde 1961, o Terceiro Mundo – e a América Latina em particular – virara um alvo estratégico da propaganda antiamericana idealizada pela agência. Com Kruschev e seus chefes de inteligência (sobretudo Alexander Shelepin e Yuri Andropov), a inteligência soviética começou a apoiar intensamente os movimentos anticolonialistas e de “libertação nacional”, identificando os EUA como o grande representante dos poderes colonialistas do Ocidente. Esse pretexto anticolonialista – e, por consequência, antiamericano – continua sendo um tópos sempre à mão da retórica socialista latinoamericana. Ele esteve por trás da fundação do Foro de São Paulo, lá no começo dos anos 1990, e continua sendo reativado agora, no momento em que essa entidade está sendo demolida pelo governo Trump e o seu Escudo das Américas. O fato de que o Descondenado-em-chefe insista nesse discurso embolorado, mostra apenas que, em termos intelectuais, a esquerda latinoamericana não passa de um cadáver político insepulto desde o fim da Guerra Fria... Leia também: "Liberdade de imprensa sob ataque" , reportagem publicada na Edição 314 da Revista Oeste O post A retórica embolorada do mandatário brasileiro apareceu primeiro em Revista Oeste .