Lançamento suspenso acende alerta sobre o uso de IA em livros e como as editoras lidam com a tecnologia

Há meses, especula-se que um romance de terror bastante comentado, “Shy girl”, tenha sido escrito com a ajuda de inteligência artificial. O livro foi autopublicado em fevereiro de 2025 e rapidamente conquistou os fãs de terror. A editora Hachette o publicou no Reino Unido e planejava lançá-lo nos EUA. Mas, no início deste ano, Max Spero, fundador e CEO da Pangram, um programa de detecção de IA, decidiu testar o texto completo de “Shy girl”. Os resultados indicaram que o livro foi 78% gerado por IA. Kamel Daoud: atração da Flip, autor de romance sobre conflito na Argélia critica intelectualidade decolonial e relata perseguição em seu país Ao contrário de 'Hamnet': Pesquisa diverge de filme e afirma que William Shakespeare não era um marido tão ruim quanto se acredita Nos meses que se seguiram ao lançamento de “Shy girl” no Reino Unido, mais leitores expressaram suas suspeitas on-line de que a autora havia se baseado em IA, citando metáforas sem sentido e frases estranhas e repetitivas. Em resposta às perguntas do New York Times sobre as alegações de uso de IA em “Shy girl”, a Hachette informou ao jornal que cancelou os planos de lançar o romance nos EUA e que descontinuará sua edição no Reino Unido. Em um e-mail enviado ao NYT, a autora de “Shy girl”, Mia Ballard, que mora na Califórnia, negou ter usado inteligência artificial para escrever o livro. A decisão de cancelar a publicação veio após uma análise longa e minuciosa, disse o porta-voz da Hachette, observando que a empresa valoriza a criatividade e exige que os autores atestem a originalidade de seu trabalho. “Shy girl” parece ser o primeiro romance comercial de uma grande editora a ser retirado de circulação devido a indícios de uso de IA. Seu cancelamento é um sinal de que a escrita por IA não está apenas aparecendo em e-books baratos autopublicados, mas também se infiltrando em obras de ficção publicadas por editoras tradicionais. Capa de 'Shy girl' Divulgação O caso demonstra o quão despreparados muitos no mundo editorial estão para lidar com a ascensão da IA. Isso também sinaliza o início de uma nova era incerta para o mundo dos livros, já que editores e leitores se perguntam cada vez mais se a prosa que estão lendo foi escrita por um humano ou por uma máquina. Alguns executivos do mercado editorial temem que pouco possa ser feito para deter a incursão da IA. — É como com o plágio, você está à mercê do autor — disse Morgan Entrekin, editor da Grove Atlantic. — Precisamos confiar em nossos parceiros. Por enquanto, as disrupções mais óbvias da IA estão atingindo o setor de autopublicação, onde autores afirmam que o ecossistema foi inundado por conteúdo gerado por IA. Mas alguns no setor acreditam que é apenas uma questão de tempo até que mais livros escritos com IA passem despercebidos pelos editores. — Não é apenas inevitável — disse Thad McIlroy, consultor da indústria editorial. — Estamos no meio disso. É quase impossível mensurar a quantidade de textos gerados por IA que estão sendo publicados, mas há evidências de que a tecnologia levou a um aumento significativo na produção de livros. No ano passado, mais de 3,5 milhões de livros foram autopublicados, um aumento em relação aos 2,5 milhões de 2024, segundo a Bowker, empresa que coleta dados do setor editorial. As editoras tradicionais lançaram mais de 642 mil livros no ano passado. Tuhin Chakrabarty, professor de ciência da computação na Universidade Stony Brook, usou o Pangram para verificar mais de 14 mil romances autopublicados na Amazon em busca de textos escritos por IA. O programa constatou que quase 20% dos romances foram substancialmente escritos por IA. Analisando romances lançados entre 2024 e 2025, ele observou aumento de 41% em relação ao ano anterior na quantidade de romances que continham grande quantidade de texto gerado por IA. Há pouco consenso sobre o que deve ser feito para verificar se os livros contêm texto gerado por IA não divulgado. Agentes e editores argumentam que as editoras precisam declarar explicitamente suas expectativas em relação à IA, para evitar confusão ou mesmo fraude por parte de autores que não são transparentes sobre sua dependência da tecnologia. A Penguin Random House, a maior editora dos Estados Unidos, criou diretrizes para estabelecer parâmetros sobre o uso de IA para autores e ilustradores, que refletem suas cláusulas contratuais que estipulam originalidade. Representantes de outras grandes editoras, incluindo HarperCollins, Simon & Schuster e Macmillan, recusaram-se a dar detalhes sobre suas políticas de IA, além de mencionar as cláusulas de originalidade em seus contratos editoriais.