Depois de 'O testamento', Preta Gil, Tom Jobim e sobrevivente da 'Casa da morte' são temas dos próximos docs da TV Globo e Globoplay

Se Anita Harley, principal acionista das Casas Pernambucanas, era conhecida como “a discreta dama do varejo”, agora não é mais. Vai entrar para a memória coletiva como a protagonista involuntária de “O testamento: O segredo de Anita Harley”, que, desde a estreia no Globoplay em 23 de fevereiro, não saiu do primeiro lugar do segmento séries e documentários. A história real da disputa por seu bilionário patrimônio desde que ela entrou em coma, após um AVC, ganha projeção também na TV Globo hoje, com a exibição do primeiro episódio da série documental na “Tela Quente”, após o BBB 26. Patrícia Kogut: 'O testamento — O segredo de Anita Harley', no Globoplay, é convite à maratona A excentricidade dos envolvidos (a secretária Cristine, a ex-funcionária Suzuki e seu filho Arthur e o advogado Daniel Silvestri), as inacreditáveis reviravoltas do caso e a repercussão em memes nas redes sociais lembram, de certa forma, a “Vale o escrito”, outra série de sucesso que reuniu esses ingredientes ao escancarar os bastidores do jogo do bicho. Muitas semelhanças, porém, não são mera coincidência. As duas produções foram feitas pela mesma turma, agora totalmente focada no Núcleo de Documentários dos Estúdios Globo. Pedro Bial é o diretor; Monica Almeida, a diretora artística; e Fernanda Neves, a diretora de produção. A nova configuração já tem um cronograma com sete produções ainda para 2026. Uma delas é sobre Preta Gil, que morreu de complicações de câncer, em julho do ano passado. A direção é de Monica e de Sandra Kogut. — Quando ficou doente, Preta me chamou e falou que queria fazer um documentário sobre o processo de cura — conta Monica, amiga de longa data da artista. — A gente foi filmando, filmando, e o tom mudou. Estamos fazendo as vontades dela. É muito emocionante. O próprio Bial também está debruçado sobre a “monumentalidade” de Tom Jobim, cujo centenário de nascimento é comemorado em janeiro do ano que vem, para uma série em que a intimidade vai ser o fio condutor. — Estas grandes biografias da cultura brasileira funcionam — diz o jornalista e documentarista. — Quem nos chamou para fazer a do Tom foi a Dora, neta dele. É uma coisa de família, de permanência dele. Além de ter sido, para alguns, o maior compositor popular da História, era uma pessoa deliciosa, engraçadíssima, com um senso de humor absurdo. Há ainda filmes sobre Inês Etienne Romeu, única sobrevivente da Casa da Morte, centro de tortura clandestino da ditadura militar em Petrópolis (RJ), e outro sobre Dona Vitória, moradora de Copacabana que gravou, da janela de casa, a ação de traficantes, contribuiu para a prisão de dezenas deles. na trilha do mercado A nova dinâmica de trabalho de Pedro e Monica organiza um roteiro que existe desde o início do programa “Conversa com o Bial”, em 2017. Por falar no late show, ele volta em episódios semanais em julho. — Pedro, Monica e o time de autores começaram, lá atrás, a fazer documentários de uma maneira muito orgânica — diz Fernanda, referindo-se a produções, como o próprio “Vale o escrito” e “Xuxa: o documentário”, filmadas de forma esporádica.— Mas não havia um grupo dedicado só a isso. A turma estava na trilha do mercado, ainda que de forma intuitiva algumas vezes. Mais barato de ser produzido do que ficção e com histórias reais que muitas vezes desafiam o criador mais imaginativo, o gênero documental é um dos que mais cresce, em termos de produção, favorecido por inovações tecnológicas de captação e pela ascensão das plataformas de streaming — que precisam de catálogo sempre renovado. — O documentário, antigamente, era meio associado à coisa chata — diz Bial. —As pessoas começam a assistir, veem que pode ser bom e quebram a resistência. No cinema, ficava muito restrito, muito nichado. No streaming, estamos falando de milhões, de dezenas de milhões de pessoas. Isso forma público. Embora concorde que o ritmo de produção das plataformas possa levar a pasteurização do formato, Bial diz que a atenção do Núcleo quanto a isso é total. — Quando a forma vira fórmula, acabou. Não caímos nas armadilhas, não — diz o jornalista, ex-Globo Repórter, que chegou a trabalhar com Eduardo Coutinho por lá, quando o programa tinha alguns dos maiores documentaristas do Brasil na folha de pagamento. Tocando no assunto que costuma deixar a comunidade criativa de cabelo em pé, Bial dá um alento (pelo menos aos documentaristas): — A inteligência artificial vai poder, parece, fazer tudo; mas um documentário, não.