Carioquíssima, “purgatório da beleza e do caos”, como diria Fernanda Abreu, é uma definição que, apesar de curta, dá conta, com maestria, da complexidade do Rio de Janeiro. Nos últimos anos, a descrição tem se encaixado perfeitamente na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, que se tornou um microcosmo da desordem urbana que aflige a cidade. No coração da Zona Sul, a uma quadra da praia e farta em comércio e hotéis — ali, fica a parte de trás do Copacabana Palace —, a via, uma das principais do bairro, reúne em seus 4km de extensão os mais diversos exemplos de desorganização: do trânsito à segurança pública, passando por população de rua e ocupação irregular das calçadas. Sem falar em dois episódios trágicos recentemente: a queda de uma marquise e o choque elétrico de uma turista chilena durante um temporal. Compartilhando experiências: Jovens do Rio contam como a violência de gênero está presente no cotidiano da geração Z: ‘A gente cresce escutando que precisa se proteger' Censo das estátuas do Rio: Das 376 personalidades homenageadas, só 6,9% são mulheres e 8,5% negros Avenida Nossa Senhora de Copacabana reúne exemplos de desordem urbana Trânsito caótico A equipe de reportagem do GLOBO percorreu a via de ponta à ponta, à tarde e à noite, na quarta e na quinta-feira passadas, e constatou que o único trecho onde há um mínimo de ordenamento é no início, no Leme, até pacato em relação ao restante. Os problemas, porém, já começam na esquina com a Avenida Princesa Isabel, onde veículos avançam o sinal, fecham o cruzamento e o trânsito dá um nó. O mesmo ocorre na altura da Rua Rodolfo Dantas, atrás do Copacabana Palace, sobretudo após as 17h. Trânsito caótico: veículos avançam o sinal e fecham cruzamento na Avenida Nossa Senhora de Copacabana Guito Moreto Outra questão que embola o tráfego são as paradas de veículos para embarque e desembarque e carga e descarga na pista da esquerda, restando apenas uma para carros comuns, já que as outras duas são exclusivas para ônibus e táxis com passageiros. Na quarta-feira, o GLOBO observou sete veículos parados, sendo cinco carros, uma moto e uma caminhonete, em um único quarteirão, entre as ruas Barão de Ipanema e Bolívar. A CET-Rio informa que equipes atuam diariamente na fluidez do trânsito e no monitoramento da via. A Guarda Municipal, por sua vez, disse que atua diariamente no bairro, onde já aplicou 14.127 multas este ano, com ações de fiscalização. A reportagem, porém, não viu nenhum agente da prefeitura. Trânsito caótico: paradas de veículos na pista esquerda da Avenida Nossa Senhora de Copacabana contribuem para a desordem Guito Moreto Ocupação irregular das calçadas O cenário caótico da pista de rolamento se repete nas calçadas. É comum se deparar com pessoas circulando com bicicletas e motos elétricas pelo passeio, os quais ainda são feitos de estacionamentos para esse veículos, que se acumulam em diversos trechos. Na altura da Rua Paula Freitas, por exemplo, há sempre algumas motos elétricas estacionadas em frente a uma imobiliária. Moradores dizem que já denunciaram diversas vezes à Central 1746, sem sucesso. Motos elétricas estacionadas na calçada da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, na altura da Rua Paula Freitas Foto de leitor A Guarda Municipal afirma que nenhum tipo de bicicleta ou moto elétrica pode circular pela calçada. Em caso de flagrante, esclarece, os agentes orientam os condutores. Se houver desobediência, o infrator pode ser conduzido para a delegacia da área. Os equipamentos devem ser estacionados em bicicletários. Na falta desses, não devem ocupar as calçadas. Podem ser amarrados em postes e grades, desde que não atrapalhem os pedestres, orienta o órgão. Pedestres dividem espaço com ambulantes em calçada na Avenida Nossa Senhora de Copacabana Guito Moreto A profusão de vendedores ambulantes, que dispõem os mais diversos produtos no chão das calçadas, também torna a circulação de pedestres uma árdua missão, sobretudo daqueles com dificuldade de locomoção, como cadeirantes e idosos com andadores. A partir da esquina com a Rua República do Peru, é possível encontrar desde livros a utensílios de casa de segunda mão e acessórios para celular. Os pontos mais críticos estão na altura da Siqueira Campos e da Santa Clara. Neste último, há mais de dez barracas disputando espaço. Já numa parte em frente a uma loja de departamento no número 749, resta apenas um corredor para os pedestres, que precisam passar entre camelôs e o abrigo do ponto de ônibus. — Tem camelô que fica bem na altura da faixa de pedestres, ocupando espaço. E, além deles, tem as bicicletas na calçada. É acidente toda hora. É tanta desordem que a gente acaba se sentindo impotente para reclamar de alguma coisa. Cada dia está pior — reclamou a moradora Samantha Helena Pecsen, de 28 anos, que é cadeirante. Ambulantes na esquina da Avenida Nossa Senhora de Copacabana com Rua Santa Clara Guito Moreto A Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop) garante que realiza rondas diárias de patrulhamento no combate aos ambulantes irregulares no bairro. Acrescenta que, na avenida, 35 carrocinhas itinerantes são autorizadas, além de três pontos fixos. Diz ainda que 552 multas a ambulantes ilegais foram aplicadas na região este ano. E orienta: o caminho para a regularização é o aplicativo Carioca Digital. Outra moradora, abordada pelo GLOBO em frente à Praça Serzedelo Corrêa, saiu em defesa da categoria. — É melhor eles estarem trabalhando do que roubando — disse, enquanto carregava o neto num carrinho de bebê. Comércio ambulante em frente à C&A, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana Guito Moreto Presidente da associação de moradores Sociedade Amigos de Copacabana, Horácio Magalhães atribui a sequência de desordem na avenida à falta de presença ostensiva da Guarda Municipal. — Já há algum tempo, a Guarda Municipal saiu do combate ao comércio ambulante e ao controle de tráfego. Você não vê mais agentes na rua. Daí essa situação este tipo de situação: um mar de camelôs nas calçadas e confusão nos cruzamentos. O que se vê são apenas ações pontuais, que não surtem efeito — pontua. — Agora, a prefeitura está dando uma nova função à Guarda Municipal, que é a segurança, mas a corporação não faz aquilo que deveria fazer em essência, que é cuidar do logradouro público. Moradores de rua e infestação de ratos Além da Serzedelo Corrêa, que fica no meio do caminho, a Nossa Senhora de Copacabana abriga duas praças: a do Lido, no início, e a Sara Kubitschek, no final. Esses espaços simbolizam um outro problema que preocupa moradores e transeuntes: a população em situação de rua, que se concentra nesses pontos de referência, mas está espalhada por toda a via. — É muito desagradável conviver com esse tanto de morador em situação de rua. Vivemos com medo. Não saio de casa com celular, e conto com a ajuda de Deus. Uma vez, um cracudo jogou uma pedra em mim. Outro dia, uma mulher puxou uma garrafa d'água da mão da minha filha à força. Há dez anos, isso aqui não era assim. Eu andava às 4h sozinha na rua. Agora, já estou aqui com receio — relatou a dona de casa Leila Carvalho, de 59 anos, que passeava com o cachorro na rua. População de rua se concentra nas praças da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, mas podem ser vistos por toda a via Guito Moreto A Sara Kubitschek, uma das mais afetadas pelo abandono, além da presença de moradores em situação de rua e usuários de drogas, vive uma infestação de ratos. Em menos de cinco minutos no local, a reportagem viu mais de cinco roedores circulando livremente. Há ainda problemas de conservação, com calçadas esburacadas, que se repete ao longo de toda a via, acúmulo de lixo e grades do entorno cortadas. O local abriga um restaurante, um bar, um hostel, uma igreja e um prédio comercial. Donos de negócios se dizem aflitos com a situação. — O que mais me atrapalha é a questão do forte cheiro de urina e de fezes na praça, que virou um banheiro público. Todos os dias, limpo cocô pelos cantos. Essa situação espanta clientes. Eu já tive algumas avaliações públicas no Google dizendo que a comida é deliciosa, mas que o ambiente fede. Dá vontade de chorar. O sentimento é de um fracasso total, porque você se esforça para fazer uma comida bacana, o cliente reconhece, mas aí um fator que depende de terceiros acaba impactando o seu negócio — lamentou. A Comlurb diz que mantém uma rotina diária de limpeza nas praças. Em relação à infestação de ratos, afirma que fará um trabalho de controle de vetores na Praça Sarah Kubitscheck. A Secretaria de Conservação, por sua vez, informa que fará reparos nas pedras portuguesas e nas grades danificadas no local esta semana. Em relação à população em situação de rua, a Seop informa que abordou 2.067 pessoas na via este ano. Destas, 35 aceitaram acolhimento da prefeitura, e cinco foram conduzidas à delegacia. A Secretaria municipal de Assistência Social diz que realiza abordagens sociais diárias em todo o bairro de Copacabana, incluindo orientação, escuta ativa e acolhimento, que, por força de lei, não é obrigatório. Quando o acolhimento é aceito, a pessoa é levada a uma unidade da secretaria, onde pode se alimentar, fazer sua higiene e dormir. Em seguida, é orientada a tirar documentos, encaminhada a serviços de saúde e incentivada a fazer cursos de capacitação e de inserção no mercado de trabalho. Debaixo da marquise de um imóvel que está para alugar no número 721, vivem ao menos três homens e um cãozinho. Um deles é Rafael Justino dos Santos, de 34 anos, que vivia com a mãe em Bonsucesso, mas foi parar nas ruas após a morte dela, há cerca de um ano. Ele, que já trabalhou como auxiliar de serviços gerais, lia um jornal ao ser abordado pela reportagem, e reclamou que falta estrutura nos abrigos municipais. — No momento, eu não tenho planos. Eu não vou para o abrigo porque não tem uma estrutura boa. Se quisessem realmente tirar a gente da rua, tinham que oferecer pelo menos um curso profissionalizante para a gente se desenvolver — queixou-se. Roubos e furtos de celulares Ponto de ônibus na Avenida Nossa Senhora de Copacabana: quem se arrisca a mexer no celular corre o risco de assaltos; número de roubos e furtos aumento na região em fevereiro Guito Moreto As mazelas da avenida vão além e alcançam a segurança pública. Quem precisa aguardar nos pontos de ônibus, por exemplo, teme os assaltos. A sensação encontra explicação nos dados. O Instituto de Segurança Pública aponta alta nos índices de roubos e furtos de rua na região. Na área da 12ª DP, os roubos de celulares dobraram de 7 para 15, em fevereiro deste ano, na comparação com o mesmo mês de 2025. Já os furtos desses aparelhos subiram 27%, de 118 para 150. Muitos que aguardam em pontos de ônibus na Avenida Nossa Senhora de Copacabana temem assaltos Guito Moreto — Muitas vezes, as pessoas estão com o celular na mão, passa alguém, puxa e vai embora. Uma vez, um garoto saltou do ônibus e furtou uma menina que estava aqui. Eu, graças a Deus, nunca fui vítima. Quando chego aqui, ponho a mochila para a frente e fico abraçada a ela. Sempre ando de mochila, porque acho mais seguro. E o celular fica lá embaixo, desligado. Aqui, tem que ter atenção no nível máximo — contou a cozinheira Francisca Alves, 55 anos, que pega ônibus na Praça do Lido. Questionada sobre a alta na criminalidade, a Polícia Militar disse que o comando do 19º BPM (Copacabana) atua por meio de seus setores de inteligência, identificando os horários de maior incidência criminal e ampliando a presença policial com abordagens e rondas realizadas por viaturas e motopatrulhas. Ao percorrer a avenida, a reportagem presenciou apenas duas viaturas paradas no final, e no mesmo quarteirão: nas esquinas com as ruas Almirante Gonçalves e Sá Ferreira. Três agentes do Segurança Presente também foram vistos caminhando na via.