Jornal O Globo
O vídeo do assalto a um taxista em Bento Ribeiro, na Zona Norte do Rio, por dois adolescentes chamou a atenção não só pela pouca idade dos ladrões, mas também pelo desabafo de um deles, registrado durante a ação: "Não gosto de fazer isso, meu negócio é traficar, mas se eu não roubar eu vou morrer". Por trás das imagens que viralizaram nas redes, está uma família angustiada. Em entrevista ao GLOBO, o irmão Z., de 16 anos, e X. de 14 — apreendidos pela Polícia Civil entre terça e quarta-feira —, revela a trajetória de abandono escolar e a rápida entrada dos adolescentes no mundo do crime. Clientes atingidos: Para dispersar curiosos, PM usa spray de pimenta em ação em shopping da Zona Norte; vídeo Novo polo gastronômico: Ilhas da Barra se reúnem para buscar melhorias estruturais e fomentar turismo Segundo Messias Ruyval, de 19 anos, que é militar do Exército e irmão mais velho dos dois adolescentes, o caminho para a criminalidade começou cedo para Z.. Quando tinha 13 anos, o jovem decidiu abandonar os estudos, na 7ª série do ensino fundamental. — Meus irmãos escutaram muita música de apologia ao tráfico, drogas e crimes. Daí o mais velho começou a ter amizades erradas, com pessoas erradas, parou de estudar e se deixou levar por essa vida — diz ele. Ele conta que Z. fugiu de casa aos 14 anos e permaneceu durante um mês em uma comunidade na Praça Seca, na Zona Sudoeste. Sem informações sobre o paradeiro do filho, a mãe chegou a espalhar fotos do adolescente em grupos de redes sociais na esperança de encontrá-lo. — Minha mãe ficou desesperada porque pensava que ele tinha sido sequestrado — recorda Messias. Defesa de mudança nas leis: Pai de adolescentes que assaltaram taxista defende redução da maioridade penal A localização de Z. foi facilitada devido aos cabelos ruivos e cacheados. O jovem foi reconhecido por um policial durante uma operação na comunidade onde estava escondido. O agente, que conhecia o pai dos meninos, entrou em contato com a família, que decidiu ir buscar o adolescente por conta própria. — Meus pais fizeram de tudo para resgatá-lo. Buscaram ele na comunidade, arriscaram a vida conversando com o pessoal do movimento de lá para liberar o meu irmão. Mas ele já estava muito envolvido. Mesmo voltando para casa, ele não parou — conta o irmão. Messias relata que a família temia pela própria segurança por conta das ações do adolescente, que já traficava e roubava, como sofrer represálias na própria casa. Desde que Z. foi embora pela segunda vez para viver em comunidades do Rio, as aparições em casa se tornaram esporádicas, apenas para “buscar uma muda de roupa ou passar a noite”. Há cerca de quatro meses, a família recebeu a notícia de que o adolescente havia sofrido um grave acidente, enquanto pilotava uma moto roubada a mais de 100 km/h durante uma perseguição policial na Avenida Brasil, após praticar um assalto. — Nessa época ele estava traficando em uma favela próxima à Avenida Brasil e morando com uma namorada, e, pelo que a polícia nos contou, a queda durante a fuga foi tão forte que o capacete até rachou no meio. Ele se quebrou todo, mas sobreviveu por sorte — relembra Messias. Após sair do hospital, no dia 22 de novembro passado, Z. foi apreendido e levado para uma instituição de detenção para menores infratores, de onde foi liberado no dia 23 de dezembro. A trajetória do garoto acabou influenciando o irmão mais novo, X., que até então apresentava um perfil oposto. De acordo com o irmão mais velho, ele era um menino estudioso e introspectivo, que passava a maior parte do tempo jogando no celular e assistindo a animes. O cenário mudou repentinamente há duas semanas. — O X. tirava notas dez na escola, era bem inteligente. Mas nessa idade eles não pensam bem. Quando o cara começa a ganhar dinheiro nessa vida, coloca um cordão de ouro, tira uma onda, isso chama aatenção das mulheres e faz o ego e o orgulho crescerem muito rápido. Aí já era, os estudos ficam para trás — lamenta o irmão. Aventura no metrô: Cantor cola iPhone em vagão para gravar vídeo de divulgação de música e acaba tendo que mobilizar segurança da concessionária Relembre o caso Z. e X. entraram no radar da polícia após assaltarem um taxista na Rua Henrique Ferreira, em Bento Ribeiro, na Zona Norte do Rio, na última segunda-feira (23). A ação, ocorrida por volta das 13h, foi registrada por uma câmera interna do veículo e viralizou nas redes sociais. No vídeo, depois que o taxista lhe entrega seu celular, Z. afirma que prefere o tráfico ao roubo, mas que comete este tipo de crime para não morrer. A pouca idade da dupla também chamou a atenção. O primeiro a ser apreendido foi o caçula, X., encontrado por policiais civis na terça-feira, escondido no sótão da casa da família, em uma comunidade na Praça Seca. Já Z. foi capturado no dia seguinte, em uma favela em Guadalupe, na Zona Norte. Para tentar escapar do reconhecimento, o jovem havia tingido o cabelo e as sobrancelhas de preto. Com ele, os agentes encontraram o celular do taxista e a arma falsa utilizada durante o assalto. Segundo a Polícia Civil, ambos permanecem à disposição da Justiça. Adolescentes assaltaram taxista com um simulacro de pistola, segundo a Polícia Civil Reprodução/Instagram Messias, que chegou a ser confundido e ameaçado por perfis falsos no Instagram, por conta da semelhança física com Z., contou que se surpreendeu com a proporção que o caso tomou. — O pessoal não sabe das coisas, vê um vídeo e já querem sair falando, então estavam achando que eu era ele — disse. A confusão motivou o irmão mais velho a postar um vídeo no Instagram para esclarecer o mal- entendido. Ao GLOBO, Messias reforçou que espera que os irmãos consigam sair da vida do crime, mas ponderou que "a família está a cada dia com menos esperança". Initial plugin text
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