Jornal O Globo
Depoimentos de policiais militares que conviviam com a soldado Gisele Alves Santana, morta após ser baleada na cabeça em seu apartamento no Brás, traçam um retrato de violência e controle exercido pelo seu marido, o tenente-coronel Geraldo Neto, inclusive dentro do Quartel-General da Polícia Militar de São Paulo. Relatos colhidos pela Polícia Civil indicam que o oficial, hoje réu por feminicídio e fraude processual, teria agredido a esposa em dependências da corporação antes mesmo de se casarem. Leia mais: Tenente-coronel excluía contatos do celular da esposa e borrifava o próprio perfume na farda dela 'Macho alfa' e 'fêmea beta obediente': as conversas que incriminam o tenente-coronel acusado de matar Gisele Santana De acordo com testemunhas lotadas no Departamento de Suporte Administrativo do Comando Geral (DSA/CG), um dos episódios de violência física ocorreu em um corredor entre a reserva de armas e a seção de logística. Na ocasião, o tenente-coronel teria segurado Gisele com força pelos braços e a prensado contra a parede durante uma discussão. Outra policial afirmou ter ouvido de colegas que câmeras de segurança da unidade chegaram a registrar o oficial com as mãos no pescoço da soldado, em uma manobra descrita como sufocamento. Os depoimentos revelam que o oficial utilizava sua alta patente para exercer uma vigilância ostensiva sobre a rotina profissional da vítima. Policiais relataram que Geraldo Neto frequentava o setor de Gisele quase diariamente, muitas vezes sem aviso prévio. Ele era visto escondido atrás de estruturas do prédio para ouvir conversas alheias e monitorar quem interagia com a esposa. O controle se estendia à escala de serviço: o tenente-coronel frequentemente se escalava para os mesmos horários de Gisele e chegava mais cedo ao quartel apenas para observar sua chegada. Segundo os relatos, a soldado — descrita como extrovertida — mudava completamente de postura na presença do marido, tornando-se tensa e silenciosa. O domínio também alcançava a vida privada, com restrições ao uso de maquiagem, escolha de roupas e controle rigoroso de redes sociais. Tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto é conduzido por agentes após ter a prisão preventiva decretada durante investigação sobre a morte da soldado Gisele Alves Santana, em São Paulo Reprodução/TV Globo Crises de ciúme Um dos episódios mais graves de descontrole teria ocorrido durante um café no departamento. Após uma sargento elogiar a beleza de Gisele, o tenente-coronel iniciou um interrogatório agressivo para descobrir quem teria feito o comentário original. Ele chegou a perseguir a sargento pelo quartel e precisou ser contido fisicamente por outros policiais. Os documentos apontam que antes do casamento, em junho de 2023, o próprio Comandante-Geral da PM teria intercedido após uma discussão acalorada do casal na guarda do quartel. Na época, Geraldo Neto foi temporariamente proibido de entrar no edifício. Entretanto, após o casamento, ele retomou as visitas frequentes, embora Gisele tivesse pedido para que ele parasse de frequentar seu local de trabalho. Apesar dos relatos de agressões físicas e do envolvimento direto da cúpula da PM na época, não há registros de que o oficial tenha respondido a processos administrativos internos por esses episódios antes do crime.
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