Jornal O Globo
Um ecossistema digital formado por redes sociais, fóruns e aplicativos de mensagem tem difundido e naturalizado um vocabulário associado a visões de mundo misóginas, marcado por ideias de hierarquia de gênero, controle e desvalorização das mulheres. Expressões desse universo — disseminadas por influenciadores e comunidades on-line — circulam sem restrição e vieram à tona em casos recentes de feminicídio, como nas mensagens enviadas pelo tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, réu pela morte da mulher, a soldado Gisele Santana, em 18 de fevereiro. 'Na China não deve ter esse problema': Lula diz que brasileiros gastam muito com cachorro Depoimento: Tenente-coronel agrediu esposa dentro do quartel-general da PM em SP, dizem policiais Segundo o inquérito, ele usava termos como “macho alfa” e “fêmea submissa”, comuns em conteúdos que circulam em grupos de Telegram e Discord, além de vídeos no YouTube, TikTok e Instagram e podcasts ligados à chamada “machosfera” ou “manosfera”. Especialistas pontuam que o material é amplificado pelos algoritmos, reunindo de conteúdos mais populares a discursos radicais, nos quais mulheres são descritas como “interesseiras” e alguém que “perde valor” após múltiplos relacionamentos. Em casos extremos, há a defesa de que sejam “obedientes e submissas”, a naturalização de relações desiguais e críticas a leis de proteção, como a Maria da Penha. Esse tipo de discurso aparece de forma recorrente em materiais voltados a homens de diferentes idades, que tratam de relacionamentos amorosos sob a lógica de disputa, hierarquia e desempenho. Neles, mulheres são frequentemente classificadas, avaliadas e reduzidas a atributos físicos ou comportamentais, enquanto homens são incentivados a adotar posturas de domínio. A circulação massiva desses conteúdos, muitas vezes impulsionada por recomendações automáticas das plataformas, contribui para ampliar seu alcance para além de grupos restritos. Machismo viral Editoria de arte Termos depreciativos Um dos expoentes desse segmento é Raiam Santos, que soma mais de 2,5 milhões de seguidores e ganhou notoriedade com conteúdos sobre relacionamentos. Em seus vídeos, critica o feminismo, associa métodos contraceptivos a uma “masculinização” feminina e utiliza termos depreciativos como “mulher de quilometragem alta” e “fêmea”. Também promove estratégias para ampliar o alcance de suas falas, incentivando a circulação de cortes em redes como TikTok e Instagram, por meio de grupos organizados. Procurado, afirmou que suas declarações são descontextualizadas e reiterou que repudia qualquer forma de violência, dizendo não ter vínculo com grupos ou correntes ideológicas associadas à “manosfera”. Outro nome que ganhou tração nos últimos anos é Renato Amoêdo, o “Trezoitão”, que produz conteúdos sobre bitcoin e a ideologia redpill, associada à percepção de que a sociedade moderna favorece mulheres em detrimento dos homens. Em vídeos que acumulam milhares de visualizações, ele já criticou a Lei Maria da Penha e fez afirmações sobre papéis nas relações, incluindo a ideia de que mulheres devem obedecer aos maridos e que sua fidelidade diminuiria ao longo de sucessivos relacionamentos. Procurado, disse que suas falas foram distorcidas ou retiradas de contexto, embora constem em conteúdos publicados por ele. Entre os mais jovens, termos como “chad” (homens considerados atraentes e confiantes), “beta” (usado de forma pejorativa para homens vistos como submissos) e “moggar” (superar alguém, especialmente na aparência) têm se popularizado. No TikTok, são comuns vídeos que ensinam “como se tornar um chad” ou montagens com imagens de artistas e modelos acompanhadas de frases desse universo, reforçando padrões de comportamento e aparência. Com forte presença digital, Gabriel Breier se autointitula “machista” e publica vídeos nos quais afirma que a mulher “não nasceu para trabalhar, nasceu para ter filho” e chama de “vadias” aquelas que defendem o aborto. Ele não respondeu ao contato da reportagem. Em grupos de Telegram e Discord, os discursos são mais explícitos. Ali atuam comunidades de incels (“celibatários involuntários”), além de redpills e MGTOW (“Men going their own way” — “homens seguindo o seu próprio caminho”, em tradução livre), vertentes do masculinismo surgidas em fóruns como 4chan e Reddit no início do século e hoje espalhadas pela internet. Os MGTOW defendem que homens deixem de se relacionar com mulheres; os redpills falam em uma suposta “pílula da verdade” sobre relações; e os blackpills radicalizam ao afirmar que homens considerados feios não teriam chance com mulheres, independentemente de renda ou atos. Funil para o extremismo Segundo o cientista social Leandro Louro, pesquisador da UFRJ, a expansão desse tipo de conteúdo ocorre em meio ao avanço de discursos extremistas e à dificuldade de regulação das redes: — É como um funil: quando a pessoa é capturada pelo algoritmo, passa a consumir conteúdos cada vez mais radicais, chegando à misoginia aberta e até à apologia à violência. Reportagem do GLOBO identificou, em grupos públicos no Telegram, mensagens que zombam de vítimas de estupro, culpam mulheres por casos de violência doméstica e feminicídio e defendem agressões. Esses espaços são acessíveis por links e reúnem usuários que usam pseudônimos. O caso da soldado Gisele foi discutido nesses grupos, com integrantes afirmando que ela teria sido “vítima da hipergamia” e reproduzindo a ideia de que mulheres seriam “interesseiras”. Em outros exemplos, há frases como “ser pai de mulher é maldição” e sugestões de violência física. — O movimento incel começou como um espaço para lidar com frustração amorosa, mas acabou se tornando uma cultura marcada por misoginia e misantropia — diz Louro. Para o professor Renato Levin-Borges, que pesquisa discursos extremistas nas redes, essas ideias atravessam diferentes faixas etárias e reforçam noções como “alfa” e “beta”, além da ideia de inferioridade feminina: — Há, nesses grupos, a ideia de que mulheres são interesseiras, e entre jovens cresce uma visão determinista de fracasso nas relações — afirma. Críticas a novas leis Nos chats, propostas de regulação das redes são criticadas. Nas últimas semanas, usuários passaram a atacar o influenciador Felca, associado ao debate que levou à sanção do ECA Digital, que criou regras para proteger crianças e adolescentes no ambiente digital. Para especialistas, a nova legislação pode ajudar a conter a disseminação de conteúdo misógino, mas é insuficiente. Aprovado na terça-feira pelo Senado, o projeto de lei que equipara misoginia a racismo também vem sofrendo ataques e alimentando fake news. — O debate é deslocado para a liberdade de expressão, quando se trata de discurso de ódio. É preciso avançar na tipificação do masculinismo que coloca a mulher como inferior — opina Levin-Borges.
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