É #FAKE que há 'epidemia de micropênis' em crianças
Jornal O Globo

É #FAKE que há 'epidemia de micropênis' em crianças

Circulam nas redes sociais vídeos virais sobre uma suposta “epidemia de micropênis” em crianças, situação em que o órgão não apresentaria desenvolvimento adequado. As gravações chegam para todos os públicos, direto no celular, com informações erradas ou distorcidas, e, ainda assim, promovem uma corrida aos consultórios médicos não só para entender essa condição, como também para buscar tratamento a partir apenas de uma percepção visual. Essas publicações ainda incentivam o uso de testosterona. É #FAKE! Mentira das redes sociais: É #FAKE que aplicar perfume no pescoço faz mal à tireoide Tecnologia: É #FAKE que 'Lei Felca' causará bloqueio de iPhones Por que é falso? O movimento de desinformação tem sido tão grande, numa onda que vem desde o ano passado, que na última quarta-feira (25), a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Pediátrica (CIPE) divulgaram uma nota conjunta em que manifestam preocupação diante desse cenário, o que inclui recomendações inapropriadas de tratamento hormonal em crianças, um dos pontos centrais em alguns dos vídeos que viralizaram. Não há evidências científicas de aumento de casos de "micropênis" em crianças ou adultos no Brasil. Assim, é falsa a “epidemia de micropênis”. "As aludidas informações não seguem a medicina baseada em evidências, desrespeitam princípios fundamentais da profissão e podem induzir famílias ao erro, levando a diagnósticos incorretos e tratamentos desnecessários, colocando saúde das crianças sob riscos graves. Estão sendo divulgados conteúdos repetitivos e enganosos que incentivam pais e responsáveis a medirem o pênis de crianças em casa, induzindo-os a um falso diagnóstico de 'micropênis'", diz um trecho da nota conjunta. — O que está acontecendo é, na verdade, uma epidemia de desinformação. Vemos informações equivocadas pelas redes socias, e isso gera uma ansiedade muito grande nos pais. Essa patologia é uma condição muito rara — destaca ao GLOBO Rodrigo Trivilato, urologista titular da Sociedade Brasileira de Urologia, especialista em Urologia Infantil e Cirurgia Reconstrutiva e médico assistente na residência de Urologia da Universidade Federal de Goiás. Em consultório, os especialistas notam o aumento da procura por parte dos pais de um diagnóstico de caso de micropênis. Para essa condição ser atestada é preciso haver investigação que vai além da medição do órgão genital. A percepção visual errada e a aferição caseira sem a técnica correta — esta que deve ser feita por profissionais de saúde especializados — têm gerado dúvidas nos responsáveis pelos pacientes. #NÃO É BEM ASSIM: GTA VI não será comercializado no Brasil após implementação da 'Lei Felca' O que dizem os especialistas Os especialistas têm optado por atendimento didático e acolhedor aos pais que chegam assustados com a possibilidade dessa condição nos filhos. Antes do exame físico, que é a medição dentro do protocolo médico, é importante falar sobre o histórico de saúde do menino, entender se o encaminhamento foi feito a partir da suspeita do pediatra que o acompanha, saber se já houve investigação prévia e desmistificar e desconstruir o que foi passado nos vídeos. Nestes virais, um dos principais perigos é a indicação do uso de testosterona que, num diagnóstico errado, coloca a saúde da criança em risco. O GLOBO ouviu alguns médicos para desmistificar o assunto: — Quando chegam com essa queixa, antes mesmo de examinar a criança, eu mostro a curva brasileira, que indica para cada idade o tamanho normal do pênis, o artigo que embasa, mostro um modelo anatômico do órgão, explicando onde ele começa, da importância da criança estar na posição correta. Quando você pega só o número e uma tabela, não está explicado. Quando faz esse caminho (com toda a explicação), logo vê a tranquilidade dos pais. Acho que me senti mais na obrigação de reportar para as famílias sobre o que está acontecendo — explica ao GLOBO a endocrinologista pediátrica do Hospital Vitória do Rio de Janeiro, da Rede Américas, Danielle Christian de Arruda Costa. A avaliação inicial pode ser feita pelo pediatra que acompanha o menino e, em casos de suspeita, pode ocorrer o encaminhamento para um especialista, sendo um urologista pediátrico, endocrinologista pediátrico e um cirugião pediátrio. Estar atento à saúde das crianças é fundamental, mas, por vezes, percepção e realidade podem não estar alinhadas, como mostrou um levantamento da Sociedade Brasileira de Urologia realizado no final do ano passado e apresentado durante o 40º Congresso Brasileiro de Urologia. A pesquisa avaliou como os pais de 99 meninos percebem o tamanho do órgão sexual do filho durante atendimentos do mutirão Novembrinho Azul, em Florianópolis. Embora 48% dos participantes considerassem o tamanho dentro da normalidade, cerca de 24% acreditavam que estava abaixo da média. Sem bloqueio: É #FAKE que Trump tenha suspendido a entrada de brasileiros após Lula cancelar visto de assessor americano A equipe médica ainda mostrou, na prática, como a medição caseira do órgão pode induzir ao erro. Foi requisitado aos pais que tirassem a medida, anotado o valor e, em seguida, um especialista fazia o exame de acordo com o protocolo. Comparados, os dados variavam em quase 3 centímetros. — A adolescência e a puberdade podem começar entre 9 e 14 anos, essa é a faixa de normalidade. Imagina dar testosterona para um menino de 6 anos a partir de um dado errado e, consequentemente, um diagnóstico errado. São várias as consequências, como risco de infertilidade, não conseguir entrar na puberdade de forma natural, parar de crescer pelo fechamento (maturação) dos ossos. Nada na medicina vai me permitir dar hormônio a uma criança saudável — alerta a urologista pediátrica Veridiana Andrioli, coordenadora do departamento de Urologia Pediátrica da SBU e responsável pela pesquisa. Os especialistas destacam que a condição é rara, numa média de diagnóstico de um caso de micropênis para cada 10 mil pacientes, além de não ser, necessariamente, por desvio hormonal. Como o órgão muda durante a infância? Entre os vídeos que viralizaram, uma das desinformações é a recomendação do uso da testosterona como solução para o que seria um micropênis, citando que o hormônio deveria ser administrado por volta dos 10 anos. A puberdade é uma das três fases importantes para o desenvolvimento do órgão genital, e nos meninos é esperado que ocorra entre 9 e 14 anos. A primeira dessas etapas é ainda na gestação. Logo após o nascimento, até seis meses de vida, é a segunda fase, considerada como uma minipuberdade. É nesses três momentos que o pênis tem o desenvolvimento mais acentuado, sendo na adolescência o período em que chega a seu tamanho final. — Nos primeiros seis meses há um crescimento do órgão, depois é mais lento, geralmente é nessa época que tem as queixas. Os pais veem a criança crescendo em estatura, mas o pênis não acompanha. Quando tem início a puberdade, com a elevação natural do nível de testosterona há um novo crescimento do órgão — diz a endocrinologista pediátrica Danielle Costa. — Na medição em consultório, na curva de referência cruzamos os dados de tamanho e de idade. Para ser considerado um micropênis é necessário estar 2,5 desvios-padrão abaixo do esperado. — Conseguimos às vezes suspeitar de ser um caso ainda na maternindade, com um pênis muito pequeno. Então vamos passar a fazer as investigações, como se há sinais de síndromes e assimetrias. O tratamento vai depender da causa — complementa a urologista pediátrica Veridiana Andrioli. O acompanhamento da saúde das crianças deve ser regular para previnir outras doenças. O urologista pediátrico Rodrigo Trivilato observa no consultório que, hoje, entre os pacientes que recebe devido às queixas e dúvidas dos pais sobre o tamanho do órgão do filho, em 90% dos casos trata-se de obesidade. — Muitas vezes há outros problemas que podem gerar uma visão equivocada, sendo a principal a obesidade infantil. Essa gordura púbica na região da genitália masculina cobre o pênis. Ao olhar, dá a falsa sensação de que o órgão é pequeno — explica o especialista. — Nós não temos uma epidemia de micropênis e nem de baixa produção hormonal. Hoje, 0,06% dos meninos nascem com micropênis. A obesidade está bem maior e impacta também na saúde. Galerias Relacionadas

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